CLARISSA
rico Verssimo

RICO VERSSIMO nasceu em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, em 1905. Aos 18 anos abandona os estudos liceais, que ficam por completar,  emprega-se num armazm de secos e molhados, na sua terra natal. Foi ali que,  sombra dos melanclicos bigodes de um gerente taciturno que rescendia alho, fiz clandestinamente a minha primeira literatura, diz Verssimo. Por esse tempo, hesita ainda entre a pintura e as letras. Trabalha depois numa casa bancria e numa farmcia, como scio principal da firma proprietria. Na Revista do Globo publica o seu primeiro trabalho literrio num peridico de certa importncia (Ladro de Gado). Fantoches foi o seu primeiro livro, obra onde rene vrias prosas dispersas, marcadas por um tom de ingenuidade e juventude. A sua estreia no romance data de 1933, com a publicao de Clarissa, uma das suas obras mais populares, onde se define a figura mais querida de Verssimo, que volta a surgir noutras obras suas, como Saga, por exemplo. Os seus primeiros romances -Caminhos Cruzados (1935), Msica ao Longe (1935), Olhai os Lrios do Campo (1938) e O Resto  Silncio (1943) -, feitos de situaes sentimentais, conduzidas numa narrativa linear onde sobressai um drama amoroso, desenrolam-se na classe mdia da rea urbana. Se esta primeira fase da produo
literria de rico Verssimo, sem especular com enredos sensacionais e impossveis,  de acentuado gosto romntico, a trilogia composta com o ttulo de o Tempo e o Vento, tecida em torno da investigao das origens e da formao do Rio Grande do Sul e iniciada com O Continente (1949), abre uma segunda fase, de propores picas. Com O Retrato (1951), onde Verssimo dedica maior ateno ao fenmeno social,  publicado o segundo volume de O Tempo e o Vento, ciclo que s vem a ser completado em 1962, com O Arquiplago, de menor vigor narrativo que os anteriores ttulos da trilogia. Entretanto, publica uma novela de carcter introspectivo, Noite. Psiclogo vigoroso e subtil, rico Verssimo, cuja obra inclui ainda estudos interpretativos ou de reportagem (Gato Preto em Campo de Neve, A Volta do Gato Preto, Mxico, A Vida de Joana d'Arc, Israel em Abril),  dos escritores brasileiros de maior popularidade e tiragem.
RICO VERSSIMO
<g) Livros do Brasil e Editorial Verbo. 1971
Composto e impresso por
Gris, Impressores
Lisboa
Venda interdita na Repblica Federativa do Brasil
EDITORIAL VERBO

S agora Amaro acredita que a Primavera chegou: de sua janela v Clarissa a brincar sob os pessegueiros floridos. As glicnias roxas espiam por cima -do muro que separa o ptio da penso do ptio da casa vizinha. o menino doente est na sua cadeira de rodas; o sol lhe ilumina o rosto plido, atirando-lhe sobre os cabelos um polvilho de ouro. Um avio cruza o cu, roncando - asas coruscantes contra o azul ntido.
Amaro sente no rosto a carcia leve do vento. Infla as narinas e sorve o ar luminoso da manh.
No h dvida: a Primavera chegou. Os pessegueiros esto floridos, as glicnias se debruam sobre o muro, o menino doente j mostra no rosto magro a sombra dum sorriso.
--Lindo! -exclama Amaro interiormente.
E se tentasse exprimir em msica o momento milagroso? Quem sabe? Clarissa ainda corre sob as rvores. Grita, sacode a cabeleira negra, agita os braos, pra, olha, ri, torna a correr, perseguindo agora uma borboleta amarela.
Longe, lampeja um pedao do rio. Mais longe ainda, a sombra azulada dos morros. E por cima de tudo, a porcelana pura do cu.
Amaro caminha para o piano. Seus dedos magros batem de leve nas teclas. Duas notas tmidas e desamparadas: mi, sol... Mas a mo tomba desanimada. O olhar morto passeia em torno, v as imagens familiares: a cama desfeita, os livros da noite, empilhados sobre o mrmore da mesinha-de-cabeceira, a escrivaninha com papis em desordem; nas paredes brancas, a mscara morturia de Beethoven e o espelho oval por cima da pia, o espelho que rebrilha, reflectindo na superfcie lisa o semblante dum homem triste.,.
Amaro torna  janela. Clarissa mergulha na sombra do arvoredo, toda cheia de crivos de sol. Ergue os braos, pe-se na ponta dos ps, entesa o busto, pondo em relevo mais forte os seios que mal apontam. Segura com ambas as mos o galho de um pessegueiro, dobra os joelhos e deixa o corpo cair num abandono gracioso. Os ramos se agitam, as flores se desprendem e tombam como uma chuva de pequenas borboletas rosadas. Olhos cerrados, cabea inclinada para trs, Clarissa solta uma risada.
Amaro franze a testa. Este momento  de beleza, mas vai fugir...
Muitos instantes luminosos como este j lhe passaram diante dos olhos. Quantas vezes ele estendera os braos, na v tentativa de prender um raio de sol...
De dentro da casa sai uma voz:
- Clarissa!
Clarissa perfila-se, conserta o vestido e responde:
- Que , titia?
- Vem pra dentro, menina. Est na hora do colgio.
o rosto da criaturinha ensombrece. o colgio... Livros, mapas, Ouviram do Ipiranga as margens plcidas ... classes, cabeas curvadas sobre cadernos, cochichos, murmrios e uma vontade doida de sair para o sol, de correr, ver a rua, as pessoas, as casas, o ccu, os bondes, os automveis...
No quintal vizinho o menino doente comea a choramingar:
- Tat!  Tat!
Tem uma voz sumida e trmula. Agita os braos num esforo para mover a sua cadeira.
D. Eufrasina bota a cabea para 'fora da janela.
- No ouviste, Clarissa? Est na hora do colgio! Clarissa entra.. No alpendre, o papagaio verde sacode a
plumagem e grita:
- Clariiissa!
Ela pensa: Se eu fosse o Mandarim, no precisava ir pr colgio ...
- Bom dia, minha menina!
- Bom dia!
O velho Nico Pombo, major reformado, o hspede mais antigo da penso. No tem que fazer durante o dia, mas costuma madrugar para o chimarro.
No quarto do judeu j h rumores. Uma voz grossa vem do banheiro:
Deixa esta mulher chorar, Pra pagar o que me fez ...
O Nestor. Sempre cantando, sempre alegre. Clarissa gosta das pessoas alegres. Nem todos na penso tm cara alegre. O mais triste  Amaro: tem um ar de sofredor, olhos que sempre esto olhando para parte nenhuma. E, depois, aquela mania de viver em cima do piano, batendo  toa nas teclas, inventando msicas que ningum compreende... Enfim, como toda a gente diz que ele  um homem muito inteligente,  melhor no discutir...
Sorrindo, Clarissa entra no quarto.
Amaro continua  janela. Sente que na paisagem agora falta alguma coisa.
J recolheram o menino doente. Comeam os rudos matinais da penso. A mulher do Procpio Barata cantarola com sua voz de caturrita uma valsa que fala em santurio do meu amor,  flor!.
O judeu Levinsky assoma  janela de seu quarto.
- Bom dia, seu Amaro, como est o senhor?
- Bem, obrigado. E o senhor?
Levinsky passou a noite em claro, estudando um ponto de Direito Internacional Privado.
- O senhor conhece Direito Internacional Privado?
Amaro sacode a cabea negativamente. No conhece. Nunca leu nada ... Levinsky espicha o pescoo. Faz uma dissertao sobre a matria, enquanto a sua mo sardenta corta o ar em gestos largos.
Os olhos de Amaro esto voltados para o interlocutor. Sua ateno, porm, se concentra toda num trecho da Nona Sinfonia que a Orquestra Sinfnica de Amsterdo toca em sua mente. O coro rompe num hino triunfal. A cabeleira ruiva do judeu palpita ao vento como uma chama. A batuta do maestro sobe e desce em gestos rtmicos. A mo de Levinsky risca no espao desenhos desordenados.
- No acha que eles esto com a razo?-pergunta o estudante.
Amaro desperta.
- Acho que sim ... o senhor tem razo.
- Eu? No! Refiro-me a eles, os tratadistas...
- Sim, eles...  verdade; toda a razo. Alis... Cala-se, de repente.
Soam passos na escada. Outra vez a voz de Nestor:
Pra pagar o que me fez!
No refeitrio o Major Pombo solta uma risada sonora. O papagaio grita: Caf! Caf! Caf!
Amaro senta-se ao piano e reproduz a msica do papagaio.
Ca -fe Ca - f Ca fe
Na varanda o relgio de pndulo bate sete horas. Amaro veste o casaco e prepara-se para descer.
Um dia h-de escrever a rapsdia da penso de D. Eufra-sina: uma msica colorida e viva em que aparecero os gritos do papagaio, as cantigas do Nestor e de D. Ondina, as risadas do major, as anedotas do Barata, a voz dolorosa do menino doente - a adolescncia luminosa de Clarissa.
Um dia...
Descendo a escada que d para o refeitrio, Amaro leva no pensamento uma suave aguarela: Clarissa sob a chuva de flores na manh de sol...
Nas xcaras de loua branca o caf fumega.
- Quero mais caf!-reclama Clarissa. Belmra se volta impaciente.
- Credo! Que comilona...
Clarissa tem os olhos fitos no prato onde se empilham as fatias morenas de po de centeio. No aucareiro bojudo branqueja o acar refinado. (Quando olha o aucareiro, Clarissa lembra-se do Barata...) Mel no pote de vidro azulado.
- Mais caf, j disse!
Gosta de deixar o leite bem tostado como a pele da mulata Belmira.
- Clarissa, voc inda vai ficar mais gorda que a si Rola do portugus do armazm ...
- Voc? Ora, dobre a lngua, sua malcriada... Belmira derrama mais caf na xcara de Clarissa e ri,
mostrando os dentes claros.
-.Pirralha... Mal saiu dos cueiros e j pensa que  gente.
Clarissa pega a faca, mergulha a ponta no pote e comea a besuntar de mel uma fatia de po.
Jorra o sol pelas janelas. O vento fresco da manh balana os estores pardos, despetala as rosas dos vasos, agita as toalhas das mesas.
Com a boca cheia de po, Clarissa passeia o olhar em torno. Tudo isto lhe  familiar; as mesinhas pequenas com as toalhas de xadrez encarnado; nos quatro cantos, as colunas com os vasos de flores; no cho, o linleo de losangos tricolores; na parede, a Ceia de Cristo, que custou vinte mil-ris numa vidraaria da Rua da Praia, e estas pinturas horrveis e berrantes, com desenhos monstruosos: uma galinha que parece uma girafa,
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garrafa de vinho que lembram homens barrigudos e um pobre peixe com cara de gente ... Tudo visto, revisto e conhecido nos mnimos detalhes.
A escada range.  Amaro que desce.
- Bom dia--murmura ele.
- Bom dia!-responde Clarissa.
Esquisito este bom dia seco e geral. Nem ao menos um cumprimento especial para ela. Igualada com a mulata Belmira. Desaforo. Sim, porque no fim de contas ela j est ficando moa e merece mais ateno. Seu Amaro  sempre o mesmo homem calado, carrancudo, que no sorri, que no brinca com a gente, que nem ao menos faz gestos...  parado, parado, quieto, como aquele peixe pintado ali na parede. Pode cair a casa que a criatura no diz gua.
Amaro vai para um canto da varanda e espera em silncio o seu caf.
Na porta que d para a cozinha aparece D. Eufrasina.
- Vamos, menina, ligeiro com esse caf - grita ela. - O tempo no espera por ningum.
Gotinhas de suor lhe rorejam o buo cerrado. Tem as faces avermelhadas, pois esteve lidando no fogo. Por um instante fica parada, esfregando no rosto a ponta do avental e olhando para a sobrinha com olho crtico.
Belmira, cantarolando, serve caf para Amaro:
- Prefere mais branco ou mais preto?
S agora  que D. Eufrasina d pela presena do hspede.
- Ora! Me desculpe, seu Amaro, eu estava to distrada que nem vi o senhor. Bom dia!
Clarissa pensa: Bem feito! To sombra, to quieto que ningum enxerga ele.
Amaro mexe o caf, o olhar vago. Vm de fora os rudos da vida que comea: o rolar surdo dos bondes que passam na rua prxima, vozes de crianas, o guincho sbito da buzina dum automvel, pregoes...
L em cima, a mulher do Barata insiste na cano enjoativa:
Tu vivers me olhando, Eu viverei te amando
D. Eufrasina desce para o jardim para ver as suas flores. Belmira se enfurna outra vez na cozinha. o Major Pombo entra ruidosamente, solta um Bons dias, minha gente! e senta-se  frente de Amaro.
Clarissa sorve o ltimo gole de caf, lambe a ponta dos dedos lambuzados de mel e olha o relgio: sete e vinte.  preciso estar s oito no colgio. Raio de obrigao!
E com uma sombra de contrariedade no semblante, caminha para o quarto.
O Major Pombo pigarreia.
- Que nos conta de novo, seu Amaro?
Amaro encolhe os ombros. De novo? Nada. A vida rola... Ameaas de guerra na Europa. Um discurso de Mussolini. Inundaes na China. Crimes. Campanha eleitoral nos Estados Unidos. No Brasil-isto que o senhor est vendo.
Silncio curto.
O major volta  carga:
- Que pensa do nosso plano financeiro?
Tem a volpia de perguntar, pouco lhe importa que respondam ou no.
-.H quanto tempo mora na capital?
Amaro j respondeu a isto mais de cem vezes. O major parece que no usa a memria.
- Em mil oitocentos e oitenta e oito, quando eu era cadete ...
Amaro sabe a histria de cor. O major vive a cont-la. Mas -que remdio?- tem de tolerar o velho Nico Pombo. Delicadeza. Respeito por aqueles cabelos brancos que perderam a cor no servio da Ptria - como costuma dizer o prprio major com uma seriedade comovente.
Entusiasmado, o velho entra na autobiografia.
Ah! As revolues que fez, as pessoas importantes que conheceu! O senhor nem imagina...
Clarissa passa pela sala, vestida de verde, boina branca na cabea, pasta debaixo do brao. Vai rpida e silenciosa. O olhar de Amaro segue-a at  porta. O major continua a falar... Aos ouvidos de Amaro chegam sons vagos, palavras soltas: Brasil... propaganda... calamidade... acto de bravura ... Canudos t.. capito ... o senhor compreende ... abismo... pas perdido ...
Clarissa atravessa o jardim. Atravs da porta Amaro v a menina afastar-se ... A relva dos canteiros ainda est hmida e reluzente do sereno da noite: a sombra da casa ainda no permitiu ao jardim a visita matinal do sol. As rosas mancham de vermelho e amarelo o muro caiado. Clarissa caminha por entre as flores, seu vestido se confunde, s vezes, com o verde dos canteiros. Sob a sola de suas sandlias range o areo do jardim.
Uma voz:
- Clarissa!
D. Eufrasina est debruada  janela da frente. A menina faz alto e volta a cabea.
- Senhora, titia!
- Juizinho, minha filha. V direito, sem parar em parte nenhuma.
- Fiquei de passar pela casa da Dudu.
- Ai! A! Ai! No gosto nada dessas amizades... Dudu... Dudu... No  companheira pra ti. Nada disso! Direitinho pr colgio!
Clarissa arregala os olhos.
- Ora, titia. Tambm a gente...
- Nada de Dudus! No quero!
Clarissa faz um muxoxo. Volta-se toda para a janela, deixa cair os braos, entorta a cabea, ala a sobrancelha direita e fica olhando para a tia com ar de splica ...
Mas D. Eufrasina, inflexvel, ordena:
- Vamos, toca!
A sobrinha d uma meia volta rpida, passa o porto e ganha a rua.
Some-se a viso. Amaro olha para o major e tem a impresso de uma queda violenta. O velho Pombo j passou em revista todos os polticos do Imprio. Entusiasmado, conclui:
- Aqueles sim, eram homens, seu Amaro. Homens na verdadeira acepo do vocbulo, percebeu?
O refeitrio vai-se enchendo aos poucos.
Barata desce antes da mulher. Tem os olhinhos inchados de sono, a voz grossa e pastosa. As calas, muito justas, lhe modelam as coxas gordas, pondo em relevo o ventre.
Belinha vem descendo as escadas com seu ar lnguido, o rosto branqussimo de p-de-arroz. Sorri, mostrando os trs
dentes de ouro. Responde a um gracejo do major e pede ch. Ah! No pode suportar o caf. Faz-lhe mal aos nervos.
- Como passou a mame?-indaga o velho Pombo.
--A coitada passou mal a noite. (Belinha suspira.) Est um pouco amolada, acho que hoje no levanta...
- Faz bem... Faz muito bem...
O judeu aparece no alto da escada e grita:
- Belmira!
Do fundo da cozinha, vem a resposta:
- Quem foi que morreu?
- O Zzinho quer o caf na cama. Est com dor de cabea.
A mulata solta uma risada.
-Ora, me deixa, flor de ameixa! Olha s o marico! Retumba agora a voz de trovo do Nestor, que se precipita escadas abaixo:
- Ai, mulata! Como s debochada... Minha nossa!-No ltimo degrau, estaca teatralmente e exclama:
-. Bom dia, meu povo! E depois:
-  Belmira! Me traz um caf bem gostoso. E anda ligeiro, meu bem, que eu tenho o que fazer.
Belmira entra com a bandeja.
- Ora, no fora, seu Nestor. Pressa comigo no vai..Eu sou mas  da moleza.
O Major Pombo resmunga alguma coisa sobre essas criadas de hoje.
Tamborilando com os dedos na mesa, olhos pregados em Belmira, Nestor sorri e cantarola um samba que fala em mulata e em orgia.
Tomado de sbito por um tdio temperado de constrangimento, Amaro levanta-se e caminha para a porta.
No jardim todas as sombras vo aos poucos desaparecendo, tombadas pelo sol que sobe.
Clarissa vai andando ...
Por que ser que a vida parece melhor e mais bonita de manh quando h sol, vento fresco, cu azul? E esta gente que acordou inda agorinha, que se debrua  janela, que canta, sorri, e cumprimenta os que passam? ...
Sente mpetos de danar, correr, cantar, pegar no rabo dos cachorros, jogar pedras nos vidros das vitrinas, botar a lngua para a mulher gorducha que est escarrapachada numa cadeira ali na frente do mercadnho de frutas...
- Juizinho, minha filha. Olhe que est ficando uma moa...
A recomendao da tia no lhe sai nunca da memria.  preciso ter compostura; andar a passo normal, no rir alto, no saltar... Caminhar como o seu Amaro: descansadamente, braos cados, cara sria, sem olhar para os lados nem para cima... Andar como um boneco de mola. Ora bolas! Ora bolas! Ora bolas!
O sol brilha, as casas esto encharcadas de luz, o vento bole nas rvores hmidas, a manh cheira a sereno e a flor... As pedras do calamento, as vidraas, os globos leitosos dos combustores, os automveis que rodam nas ruas - tudo lampeja ...
Clarissa segue num encantamento. Sua sombra se espicha na calada. Como a vida  boa! E como seria mil vezes melhor se no houvesse esta necessidade, (necessidade no: obrigao) de ir para o colgio, de estar horas e horas curvada sobre a classe, rabiscando nmeros, escrevendo frases e palavras, aprendendo onde fica o cabo da Boa Esperana, quem foi Tom de

Sousa, em quantas partes se divide o corpo humano, como  que se acha a rea de um tringulo ...
Os olhos de Clarissa danam de c para l, examinando tudo ...
A rua est animada. Nas portas das lojas de fazendas as pontas soltas das peas de seda voam como rtilas bandeiras. Passam homens e mulheres e crianas e cachorros. Na porta dum armazm um guri sardento trinca com dentes midos e aguados uma rapadura de Santo Antnio da Patrulha: o queixo todo melado, os olhos lambuzados de prazer.
A beira da calada dois homens em mangas de camisa discutem.
- Prometi cinco por cento, pago cinco por cento - diz o.
O outro faz gestos desordenados, muito vermelho, e d pulinhos midos e repetidos.
- O signore  um ganalha! - vocifera.
Na janela da casa fronteira aparece uma mulher ruiva.
- Vem pra dentro, Simpliciano, no d confiana pra esse gringo!
Clarissa sorri e segue o seu caminho.
 frente dum caf pra agora um caminho pintado de azul. De dentro dele desce um mulato mal-encarado com uma barra de gelo s costas.
- Que bom se eu tivesse duzentos ris pra comprar um picol ...
E este pensamento persegue Clarissa at  esquina da praa.
Na praa, os jacarands esto cobertos de flores roxas. L em cima, no topo do monumento, a imagem da Repblica - uma mulher que tem na mo uma bandeira- fasca ao sol, recortando o seu perfil de ouro falso contra o azul puro do cu. H pelos canteiros verdes e pelos caminhos de pedra mida sombras mveis e crivos luminosos.
Clarissa fica um instante a contemplar as rvores. Na sua mente se pinta de repente uma paisagem familiar! A estncia de papai.  de manh, as vacas mugem no campo, as macegas fagulham. Na mangueira as criadas ordenham as vacas, e os caneces feitos de lata de abacaxi se enchem dum leite morno e espumante. Papi, montado no seu bragado, vai percorrer as invernadas ... Primo Vasco monta no petio zaino. Que saudade!
Clarissa continua a andar.
Vontade de ficar deitada nestes canteiros, sentindo nas pernas e nos braos a humidade fresca que a noite deixou na relva. Os passarinhos cantam, invisveis entre os ramos. O cho est juncado de flores roxas pisadas. Um perfume adocicado anda no ar.
O primeiro governador-geral do Brasil foi Tom de Sousa. Mas se tivesse sido o Major Nico Pombo, por acaso o sol deixaria de brilhar como agora? Existe um cabo que se chama Finisterra. Mas se no existisse, os jacarands no estariam floridos do mesmo jeito?
Num gesto brusco Clarissa puxa para os olhos a boina branca. Frases do livro de cincias fazem piruetas em sua mente: O corpo humano se divide em trs partes: cabea, tronco e membros.
Mas que importa, se a manh  bonita, os gramofones cantam e os automveis rolam?
Ergue o rosto para o alto. Nuvens brancas, talvez paina das gigantescas paineiras dos quintais de Nosso Senhor, flutuam no cu. Quando era menor, eJa pensava que as nuvens eram feitas da fumaa dos cigarros que os homens pitavam, da fumaa das fbricas, das chamins, das fogueiras... Quando a gente v, criana, pensa tanta bobagem...
Clarissa pra diante duma vitrina e v, por trs do vidro liso e fino, um mundo de objectos coloridos: vasos de porcelana, pratos, xcaras, opos de cristal, e., bem no centro, um aqurio bojudo de vidro branco, dentro do qual um peixinho dourado se move ...
- Que encanto! Se eu tivesse dinheiro...
Os olhos de Clarissa se agrandam. Agora ela percebe que o vidro da vitrina espelha o seu rosto moreno em cujos lbios vermelhos e hmidos cintilam estrelinhas de sol. D um passo  retaguarda e mira-se no vidro com mais ateno. Um encantamento! Ela tem a impresso de que a sua imagem penetrou na vitrina, vaga e apagada como um fantasma, e como o aqurio lhe fica  altura do peito, parece que o peixinho nada ao redor de seus seios: - tudo assim engraado e impossvel como em certos sonhos confusos que a gente sonha...
- Se eu tivesse dinheiro, comprava esse peixinho ...
Retoma a marcha e dentro em pouco avista a fachada amarelenta do colgio, com as suas sacadas de ferro, o seu ar de casaro assombrado.
- Temos trs espcies de tringulo: o equiltero, o issceles e o escaleno ...
Clarissa ajeita a boina e acelera o passo.
O saguo do colgio tem um bafio de poro, um cheiro de velhice.
A zeladora, ao p da escada, mos na cintura, imvel como uma esttua, culos acavalados no nariz todo picadinho de bexigas, solta a sua voz cortante e desagradvel:
- Depressa, menina! A chamada vai comear.
- Bom dia, Dona Fil!
Os culos de D. Fil fuzilam.
Clarissa galga os degraus em passadas largas. A escada range.
Duma sala prxima vem o som de vozes femininas que cantam em coro:
Ouviram do Ipiranga as margens plcidas ...
Clarissa contempla a menina contente que est no fundo do espelho, to contente que nem pode deixar de sorrir. E porqu? Ora, a vida  to boa... O sol salta pela janela, como um companheiro brincalho e pe as cores do arco-ris nas facetas do espelho. L fora os jardins esto floridos. Mame escreveu dizendo que tudo na fazenda vai bem. A vaca brasina (a querida de Clarissa) continua gorda, dando muito leite. Primo Vasco parece que est criando juzo. o Romeu ronrona pelos cantos, negaceando os camundongos. Papai melhorou da asma. Mas a pessegada (nunca tudo  perfeito) infelizmente queimou no tacho, de modo que no saiu gostosa como a do ms passado. Enfim, como todos vo com sade, graas a Deus, o caso da pessegada no tem importncia...
O sorriso de Clarissa se alarga. O da menina do fundo do espelho tambm. Passa a mo pelo rosto. Bonita? Sim. J lhe disseram. No directamente, mas ela ouviu, percebeu, adivinhou. Foi na rua. Num domingo. Ia para a igreja, contente, cantarolando baixinho, com vontade de pular. Levava um vestido branco estampado com florinhas amarelas e azuis. A uma esquina estavam dois rapazes. Quando ela passou, cochicharam, arregalaram os olhos e examinaram-na de cima a baixo. Santo Deus, que sensao esquisita! Nem agradvel nem desagradvel. Esquisita. De frio e de calor ao mesmo tempo. De vergonha e de contentamento. Ficou at desajeitada: trocou as pernas, perdeu o compasso da marcha. Baixando os olhos, fingiu que procurava alguma coisa entre as pginas do livro de reza. E sem levantar a cabea passou pelos rapazes. Ia tonta, mas percebeu que um deles dizia baixinho uma palavra encantada de que ela s pde ouvir com clareza as ltimas slabas:
 - ...nita!
..nita? No havia a menor dvida. Bonita! Bo-ni-ta! Um moo tinha dito aquilo. Ela ouvira. Bonita.
(A menina do espelho est achando tudo muito engraado.)
Dentro de pouco tempo tudo vai mudar. Mame j prometeu em carta: Quando fizeres catorze anos eu te dou licena para botar sapato de salto alto.
Tudo ento ficar diferente. Ela deixar as bonecas. Ser uma moa, uma senhorita que os rapazes na rua cumprimentaro atenciosamente, tirando o chapu. E ela responder com um aceno de cabea, e um leve sorriso. Passar serenamente, e eles ficaro dizendo elogios...
- ...lssima.
Sim. Belssima. E por que no? Assim como est agora de sandlias, de vestidinho simples, pode ser apenas- Bo-ni-ti-nha. De sapatos de salto alto, vestido de seda, ser ...lssima. Belssima. Se Deus quiser e a Virgem Santssima. Amen!
E  com um fervor enorme que ela diz: men!
No fundo do espelho a outra Clarissa move os lbios vermelhos: men!
Mas a cabea no pra nunca de pensar. Ideias to esquisitas,..
Pensando bem,  uma coisa muito engraada o espelho. A gente, que  uma, fica duas. O que eu fao, o outro eu imita. E se na vida existissem duas pessoas assim, bem iguais, bem parecidas? Impossvel? Talvez ... Ela conhece duas gmeas parecidssimas. A Lia e a La. No  possvel diferenar uma da outra. Iguaizinhas. Esto tambm no colgio. Vo sempre vestidas do mesmo jeito: geralmente  um vestidinho de xadrez preto e branco, meias pretas {esto de meio luto por causa da morte de uma tia). No h quem possa dizer com certeza: - Esta  a Lia, aquela  a La. Ningum pode. Com ela, Clarissa, aconteceu um dia uma coisa engraadssima ... Foi no corredor da escola. Uma das gmeas (muito implicante) lhe botou a lngua, uma lngua cor-de-rosa, com manchas esbranquiadas, que se espichou para fora da boca larga. Clarissa pensou: Tu me pagas, mal-educada!
Foi procurar a professora:
- proFessora, a Lia ou a La me botou a lngua no corredor ...
D. Amlia Borralho, professora do quinto ano, olhou para Clarissa. Seus culos fuzilaram ferozmente. Cada uma das lentes finas reflectia uma janelinha iluminada.
- Mas no fim de contas, quem foi que lhe botou a lngua no corredor? A Lia ou a La?
Clarissa embatucou. No sabia se a lngua era da Lia ou da La. Achava at que isso no tinha importncia. Esperava que a professora castigasse as duas, pelas dvidas...
- Vamos! - insistiu a mestra, sacudindo a cabea. As janelinhas luminosas danaram nos vidros dos culos.
E o crime ficou sem castigo porque no foi possvel dizer com firmeza se tinha sido a Lia ou a La. Oh!, mas tudo aquilo aconteceu j havia mais de um ano em Jacarecanga. Clarissa era uma pirralha. Naquele tempo ainda gostava de fazer queixa, era bobinha, no compreendia as coisas. Agora est diferente. E mesmo a Lia e a La j ficaram para trs, repetindo o quinto ano.
Mas, pensando bem, bem mesmo, no h no mundo duas pessoas bem iguais. S quando so gmeas. Ou quando so aquela outra coisa que se chama... se chama... Como  que se diz quando duas pessoas so coladas -coladas? - uma na outra. Hidrfobos? Qual! Isso  cachorro louco. Antropfagos? Tem graa: antropfago  homem que come carne de gente. Os ndios que moravam no Brasil eram antropfagos em sua maioria, isto : davam-se  antropofagia, que  o feio hbito de comer carne humana. Foi assim que o velho Saramanho, professor de Histria do Brasil, falou na aula, com o dedinho no ar. Logo: antropfago  isto e no aquilo. Mas ento como ? ... Sei que  uma palavra que termina em fago ...
No fundo do espelho a outra Clarissa pensa tambm, com uma ruga de concentrao na testa.
Ouven-se agora, pela casa toda, vozes, estalidos, murmrios, guinchos.
A vozinha aguda do papagaio corta o ar:
-- Clarissa!
Ela sorri. At o papagaio sabe seu nome. Foi uma das poucas palavras que conseguiu aprender. Aquele papagaio verde e encarnado no diz outra coisa. Tambm todo o dia ouve aquele nome ... Se os nomes se gastassem, o dela estaria gasto ... Clarissa, est na hora do colgio! Clarissa, vem pra dentro!
Clarissa, sai do sol! Clarissa, sai da chuva! Clarissa, vai estudar. De tanto ouvir o nome, o papagaio aprendeu ...
Do andar superior vem uina voz molenga, sincopada, irregular:
Quem te inventou, meu pancado, Teve uma consagrao ...
Clarissa escuta.  a voz do Nestor, que deve estar no banho. Vive cantando. Um vagabundo (diz o Tio Couto) que nunca consegue fazer seus preparatrios.
Porque, mulata, tu no s deste planeta...
Voz de gente ordinria - reflecte Clarissa. Mulata! Um rapaz branco de boa famlia falando em mulatas, cantando essas canes reles. Mulata  a Belmira, que namora um guarda civil e diz nomes feios. Nem sei como  que a tia Eufrasina ainda no despachou essa desaforada...
Agora o canto cessou. Nestor bufa, solta gritos agudos, assobia. Decerto a gua est fria. Fria? No  possvel. Fresca, isso sim. Tamanho homem gritando por causa duma ducha de gua fresca!
Outra vez a voz, agora clara:
Mulata, eu quero o teu amor!
Bobo! O amor de Belmira  do guarda civil.
Vem da varanda um barulho de pratos que se chocam, de talheres e copos que tilintam. Chega at as narinas de Clarissa um cheiro bom de carne assada.
A voz de Nestor fica mais forte:
O amor  uma coisinha boa,
Parece -toa.
Mas  muito boa ...
Vai-se sumindo aos poucos, at desaparecer.
- Levanta, homem! Que coisa horrorosa! J so meio-dia!
 a voz da tia Eufrasina. Est acordando o marido.
23
O Tio Couto parece um prncipe. Ainda no arranjou emprego. Passa o dia inteiro tomando mate chimarro e conversando liado com o major. s vezes inventa um trabalho no ptio ou no jardim: podar uma roseira, plantar uma flor, consertar o galinheiro. Quando lhe perguntam:
- Ento, seu Couto, j conseguiu colocao?-ele responde sempre:
-No, mas estou muito esperanado. Fulano vai botar pistolo pr secretrio do Interior...
Com voz grossa e imperiosa, tia Eufrasina insiste:
- Levanta, Couto. J so meio-dia!
Clarissa acha engraado aquele j so. Tambm a coitada
da tia nunca esteve na- escola. A verdade  que ela  quem
 dirige a penso, quem trabalha para o marido. O Tio Couto
estudou, mas no fim de contas no arranjou nada. Um nulo!
Quem costuma dizer isto  a prpria titia:
- "s um nulo!
Naturalmente no diz perto de estranhos. Mas Clarissa ouve sempre ... Perto dela a tia no escolhe as palavras. O papagaio torna a gritar:
- Clariiiiiissa!
E as duas Clarissas se entreolham numa longa e apaixonada contemplao mtua. o mesmo sorriso de compreenso e ternura ainda ilumina o rosto de ambas.
A porta abre-se de repente. Ui, que susto! Tia Eufrasina entra no quarto. Clarissa se volta, rpida.
- Se namorando outra vez na frente do espelho, hem? - Dizendo isto, a tia sorri com bondade. Clarissa balbucia uma desculpa, embaraada. No, senhora, estava s olhando uma espinhazinha que apareceu aqui na ponta do nariz ... Ser que arruina?
- Soubeste a lio?
- Ento! Maravilhosamente!
- Viste a Dudu?
- No.
- E a Vivi?
- Tambm no.
O dedo fura-bolos de D. Eufrasina se espicha na direco do rosto da sobrinha:
- Olha, mais uma vez te digo: no quero saber de muita intimidade com a Dudu e a Vivi. Elas no tm l muito boa fama. So sapecas que  uma coisa horrorosa. E eu prometi  tua me no me descuidar de ti. Toma nota!
D. Eufrasina vai at a janela e abre-a de par em par. Clarissa fica olhando fixamente para a imagem de Santa Teresinha que pende da parede, numa moldura feita em casa.
Sapecas que  uma coisa horrorosa. Como a tia Zina exagera! E como gosta de dizer - horroroso ... Que coisa horrorosa. Que homem horroroso. Que mentira horrorosa.
Debruada  janela, D. Eufrasina comea a resmungar:
- Preciso mandar caiar o muro, limpar o jardim e podar a parreira. Mandei o Couto telefonar pr Intendncia pedindo um homem para arrumar a torneira da cozinha que est pingando que  uma coisa horrorosa. O Couto, como sempre, se esqueceu. S no esquece  de comprar fumo crioulo e erva pr chimarro. Nulidade! No sei por que Deus bota no mundo tanta gente intil ...
O rosto de Clarissa ensombrece:
- Eu sou intil, tia Zina?
Uma voz sentida. Dois olhos que de repente entristecem. Tia Zina continua de costas. Mas  com doura que diz:
- No, minha querida. Tu no s intil. Tu s boazinha. Eu falo  do teu tio.
Tia Zina  assim. Gosta de falar, de resmungar, de maldizer a sorte. No precisa de interlocutores. Fala sozinha. Ou com a velha Andresa, a cozinheira, com o papagaio, com o gato, com as roseiras, com as galinhas. E quando se junta com a D. Tat da casa vizinha, as lamentaes e as queixas ento no tm mais fim. D. Tat conta suas desgraas. O bonde lhe cortou a perna do filho de sete anos. O Barbosa, o marido, tomou certo dia uma bebedeira, caiu no rio e morreu afogado, deixando dvidas. Vida apertada. Os cobradores vivem a bater na porta. D. Tat  modista, mas as costuras lhe rendem pouco dinheiro. D. Eufrasina por sua vez se queixa da alta dos gneros, do marido que est h seis meses desempregado; fala de um e outro hspede que est atrasado no pagamento da penso...
Clarissa aproxima-se da janela e fica olhando para fora.  luz do meio-dia, toda a paisagem tem rebrilhos e reverberaes
que ofuscam. Longe, o rio parece que prendeu fogo. No quintal as galinhas bicam o cho cheio de sol, manchando de sombras tnues a terra parda. No ptio da casa vizinha o menino doente brinca com os seus soldadinhos de chumbo.  plido e tristonho, parece de cera. Olhos no fundo, muito redondos, baos e desencantados, Tnico no tem amigos. A me nem sempre lhe pode fazer companhia e o pequeno fica por muitas horas no ptio, tomando sol, movimentando os seus soldados, imaginando batalhas e paradas fantsticas. s vezes Tnico fica a olhar com olhos compridos e ansiosos os avies que passam. Tonico gosta dos avies, gosta de soldados, gosta de histrias de guerra. Tinha vontade de ser militar quando ficasse grande. Quando na rua desfilam batalhes ao som de clarins e tambores, o menino doente fica tomado dum frenesi, agita-se - olhos momentaneamente brilhantes-, sacode os braos ao ritmo da charanga, faz um esforo desesperado para se levantar e por fim, impotente, pe-se a golpear com os punhos fechados a guarda da sua cadeira de rodas, numa raiva histrica. O som dos clarins e dos tambores perde-se ao longe, o batalho passa, o menino doente se acalma: seu rosto retoma a antiga imobilidade, os olhos de novo caem na sombra, morrem.
Clarissa tem uma pena infinita do seu pobre vizinho mutilado.
- Meu Deus - reflecte ela -, como  que o Senhor permite essas coisas, como ? Por que  que ali naquela casa rica do outro lado h sempre cortinas bonitas nas janelas, msica, cantigas, um automvel grande, um jardim imenso com todas as flores do mundo, crianas bem gordinhas, bem coradas, bem alegres, que tm duas pernas, que podem ser soldados quando crescem ... que podem seguir na rua os batalhes ... que podem sorrir... Meu Deus, como  que o Senhor permite que D. Tat se mate todo o dia e toda a noite em cima da mquina de coser? Meu Deus, por que o Senhor deixou que um bonde estragasse a perna do Tnico? Porqu?
D. Eufrasina resmunga:
- Preciso alugar aquele quarto pegado ao do judeu. As coisas no andam boas. Se me viesse mais um pensionista, era uma mo na roda.  pra contrabalanar esse peso morto do Couto.
Clarissa mal a escuta. No enxerga a paisagem coruscante, nem as rosas e as margaridas, nem o cu, nem o rio, nem as rvores ... Dentro da paisagem agora para ela s existe o menino doente da casa pobre, o menino doente que nunca poder realizar o seu sonho, o menino doente da cadeirinha de rodas, dos soldadinhos de chumbo, do olhar tristonho...
Do quarto de Amaro vm os sons do piano. Uma melodia muito suave enche o ar. Clarissa pensa em Amaro. Insensivelmente uma palavra lhe brota dos lbios, num cicio:
- Coitado!
Mas quem  o coitado? Seu Amaro ou o menino doente?
Os dois.
Clarissa no sabe explicar por que motivo acha uma semelhana to grande entre o pequeno mutilado e Amaro, o homem da cara triste.
27
Amaro fica olhando para fora, atravs das janelas por onde a luz do meio-dia escorre. O seu corpo est aqui na sala de refeies da penso de D. Eufrasina Couto. Mas o pensamento voou para longe.
Uma vez, h muitos, muitos anos, um menino olhou a vida com olhos interrogadores. Tudo era mistrio em torno dele. Era numa casa grande. O arvoredo que a cercava amanhecia sempre cheio de cantos de pssaros. O mundo no terminava  no fim daquela rua quieta, que tinha um cego que tocava concertina, um cachorro sem dono que se refastelava ao sol, um portugus que pelas tardinhas se sentava  frente de sua casa e desejava boa tarde a toda a gente. No. O mundo ia alm. Alm do horizonte havia mais terras, e campos, e montanhas, e cidades, e rios, e mares sem fim. Dava na gente vontade de correr mundo, andar nos trens que atravessam as terras, nos vapores que cortam os mares. Andar... Nos olhos do menino havia uma saudade impossvel, a saudade de uma terra nunca vista. Um dia - quem sabe? -, um dia um vento bom ou mau passa e leva a gente. Um dia...
- Amaro, meu filho, que  que voc quer ser?
- Marinheiro. Pra viajar. Ou maquinista, pra viajar tambm.
Mame sorria e continuava a bordar. Tinha uns olhos bons e um jeito todo especial de olhar para os outros. Papai falava grosso. Tinha bigodes retorcidos e uma enorme medalha de ouro presa  corrente do relgio.
- Meu filho, um homem precisa fazer fora para triunfar. S os fracos  que se abatem diante da vida.
Papai dizia isto sempre, com a testa franzida, sacudindo a mo fechada no ar; e a medalha grande danava contra o colete escuro.
Lutar... Amaro sentia arrepios. Lutar. Luta era sangue. Lutar era ferir e ser ferido. Homens que vencem e so vencidos. Mas que  o triunfo, que significa vencer? No seria melhor ficar sempre e sempre ali, junto da me, na cidade natal, na rua humilde onde havia um cego que tocava concertina, um cachorro sem dono que se refastelava ao sol e um vendeiro portugus que pelas tardinhas...
- Posso trazer o almoo, seu Amaro?
Na sua frente, Belmira sorri com dentes alvssimos. Amaro sacode a cabea afirmativamente.
- Pode.
Enfim ... Eram recordaes boas. Tudo aquilo tinha ficado muito longe no passado. Verdade  que a gente nunca esquece a infncia. Pieguices? Mas, que  que a vida nos pode oferecer de melhor, de mais puro?
- Por que  que est to pensativo hoje?
A pergunta vem do Major Pombo. o velho est j sentado  mesa, sorridente. Com a ponta do guardanapo limpa o cncavo duma colher. O sol lhe bate nos vidros dos culos, da-lhe assim um olhar vazio, de esttua.
De outra mesa Gamaliel intervm, pescoo espichado:
-O senhor diz hoje, major. Mas seu Amaro anda sempre triste ...
O major volta a cabea para o prtico de farmcia.
- O senhor tambm no  l muito para que se diga, seu Gamaliel. Vive calado como o seu Amaro. Parecem at irmos.
Gamaliel sorri. Mastigando um pedao de po, justifica-se: -Sou quieto mas no sou triste. No confunda tristeza com calma ...
- Qual! Vocs rapazes de hoje no tm mocidade! So uns sorumbticos. No meu tempo ...
Amaro outra vez mergulha no sonho. Que fim levou aquela casa cercada de rvores? Que fim levou aquela me de olhos bons? E aquele cavalheiro severo, de bigodes retorcidos?
- O bife hoje est notvel!
Aos ouvidos de Amaro estas palavras soam vagas, abafadas, longnquas, como que vindas dum outro mundo.
Belmira distribui os pratos pelas mesas.
A varanda comea a encher-se aos poucos. Nestor desce os degraus ruidosamente. Vem com o rosto afogueado, os cabelos molhados.
Tio Couto, com cara de sono, deseja bom dia a todos.
Belnha surge no alto da escada. Tem os olhos pisados. Desce pausadamente, com uma calma estudada.
Ondina e o marido j desceram tambm. O barulho aumenta. Conversas desencontradas. O Tio Couto j est salvando o Brasil:
- Precisamos  de homens de boa vontade. De homens que trabalhem, ouviu? Assim como a coisa est, vai mal, palavra!
Belnha explica a Gamaliel que a me continua de cama, com o maldito reumatismo. O major intervm, receitando frices de Linimento Milagroso.
Barata fita no major os olhinhos empapuados:
- A propsito, major, conhece aquela anedota do rabe e do papagaio?  piramidal!
Amaro est proibido de sonhar. Esta confuso de vozes de todas as cores, em todos os tons, entremeadas do retinir de copos, pratos, talheres e do arrastar de cadeiras, obriga-o a ficar aqui na sala de refeies da penso da D. Eufrasna, em companhia do Barata, caixeiro-viajante e contador de anedotas, da mulher do Barata, do Tio Couto, que no trabalha e quer regenerar a Repblica, do major que faz perguntas e d conselhos, da Belinha de olhos romnticos e do Gamaliel, prtico de farmcia e metodista.
Se ao menos eles esquecessem a sua presena ...
Mas o major  implacvel. - Qual  a sua opinio sobre o suicdio, seu Amaro? - pergunta.-Vamos l, o senhor que  um moo instrudo...
Amaro ensaia um sorriso, balbucia uma palavra.
Levinsky desce as escadas, silencioso como um fantasma. Mas ao caminhar para a sua mesa, tropea na coluna de madeira que sustm um dos vasos. A coluna se agita e o vaso cambaleia e tomba, partindo-se em cacos no cho.
Todas as cabeas se voltam para o judeu. Levinsky est vermelho como um tomate.
Amaro, porm, sente um alvio imenso. Levinsky salva-o ... Agora pode fugir  pergunta do major sobre o suicdio.
Atrada pelo barulho, D. Eufrasina aparece  porta da cozinha e fica olhando para o vaso com ar espantado: surpresa, pena e revolta.
A muito custo, Levinsky consegue balbuciar:
- Eu pago, D. Zina, eu... eu ... pago, no fique zangada ...
Amaro aproveita o momento em que todas as atenes esto voltadas para o rapaz e de novo d um mergulho no passado.
Um dia veio um vento -bom ou mau?- e levou para longe o menino que queria viajar. Ficou para trs a cidade pequenina com todas as suas coisas bonitas e queridas.
Onde estar agora aquela gente toda? Onde estar a preta velha que contava casos do tempo de dantes? Onde estar o burrico peludo de olhos mansos em que ele costumava passear aos domingos pelo campo? Como lhe est ainda viva na memria a lembrana daquele dia em que acampou na vila um circo de cavalinhos... Uma tarde, por sinal era uma tarde muito clara de Vero, o palhao saiu  rua de macaco bicolor: amarelo dum lado e azul do outro. Ia montado no burrico peludo, no mesmo burrico de olhos mansos que o levava a passear pelo campo. (O director do circo o tinha alugado de papai por cinco mil-ris por dia.) Amaro estava  janela quando o cortejo passou. Na frente ia o palhao montado no burro. Atrs, um bando de moleques. O palhao gritava:
- Hoje tem marmelada? Os guris respondiam:
- Tem, sim sinh! E o palhao:
- Sentadinho na bancada? Com a sua namorada? E os guris:
- , sim sinh! Outra vez o palhao:
- O palhao que ? O coro:
- Ladro de mui.
Amaro olhava e batia palmas. O cortejo se afastava, envolto numa nuvem de poeira que o sol incendiava.
- Mame, me deixa ir com a gurizada?
Mame franziu a testa, sacudiu a cabea e disse:
- Moleque  que anda atrs de palhao. Choramingando, Amaro ficou em casa a imaginar como
seria bom seguir o homem de macaco amarelo e azul. Como ltimo argumento, alegava:
- Eu tenho direito. Ele vai montado no meu burro...
O palhao e os guris desapareceram numa esquina.  Mal se lhes ouvia a cantilena: o responsrio esganiado e a voz rouca do clown iam-se sumindo, apagando na lonjura:
- ...ao ... i ... ?
- ...o ...i!
- Clarissa, vem pr mesa!
A voz aguda de D. Eufrasina apaga impiedosamente a imagem do palhao e do cortejo de moleques. Amaro volta  tona ...
- Que histria  essa? -pergunta Tio Couto.- O seu Amaro est enjoando a nossa comida?
S agora Amaro percebe que nem tocou nos talheres. Balbucia desculpas.
Estava esquecido at do almoo. Sempre o velho vcio. Sonhando, devaneando, enquanto os outros conversam, gesticulam, vivem de verdade.  por isso que no h-de passar nunca de simples funcionrio de banco. A msica no lhe d dinheiro. Os editores sempre vm com a mesma desculpa:
- Ns sabemos que o senhor tem talento, que sabe compor, mas infelizmente o nosso pblico quer  sambas e fox-trotes. Escreva uma marchinha para o Carnaval que vem, um samba ou coisa que o valha e ns editaremos a msica por nossa conta.
Nestas ocasies Amaro pensava sempre no caro severo e inflexvel de Beethoven. E tinha vontade de dizer num cicio de orao: Mestre, no faa caso, eles no sabem o que dizem ...
E assim vivia ele dentro do sonho, alheio ao mundo objectivo. Perdia aquilo a que os homens prticos chamam oportunidade. Cumpria o seu destino obscuro, de contemplativo.
Mas ia ficando para trs: sem dinheiro, sem amigos, sem glria, sem nada - na sombra: uma vida mais apagada que a do Micefufe, o gato da casa. Porque o Micefufe, enfim, se afirma: luta contra os camundongos; luta e vence-os. O Micefufe
anda pelos telhados nas noites de lua e ama as gatas da vizinhana.
-Se o senhor, seu Amaro, no fosse to distrado, seria um ptimo funcionrio. Tem at uma letra muito boa...
S de pensar na opinio do contador do banco, Amaro sente um mal-estar desconfortante. Quando terminar o conflito? Conflito com a vida, com os homens que andam pela vida a se magoarem uns aos outros, a disputar lugares aos encontres e cotoveladas? Cada dia que passa  uma tortura que se repete. O expediente do banco, o t-t-t das mquinas de escrever, os cavalheiros que discutem juros de mora, taxas, cmbios; contnuos que passam com pastas gordas de papis cheios de algarismos; e homens inclinados sobre as carteiras, escrevendo, registando, calculando ... E a fria de uns para conseguirem juros mais vantajosos, e o desespero de outros por no poderem pagar os ttulos vencidos, e as ameaas de protesto, e mais juros, e mais clculos, e nmeros, nmeros, nmeros, afogando, esterilizando, complicando, matando.
S de pensar naquelas coisas Amaro sente arrepios.
De sbito, inexplicavelmente, um apetite devorador o assalta. E pensando ainda na ganncia dos homens, no conflito da vida, comea a triturar ferozmente as batatas fritas de D. Euf rasina.
As conversas continuam, animadas. Ondina e Belinha discutem cinema:
- Ah! Homem para mim h-de ser como o Warner Baxter, forte, corpulento, simptico...-diz a primeira.
Barata, de cabea baixa, gordo e pesado como um porco, refocila no prato transbordante. A mulher gosta de Warner Baxter? Entre a sala de D. Eufrasina e Hollywood h milhares e milhares de quilmetros. O perigo est conjurado ... Ademais esses tipos de cinema ganham como que um prestgio de mito, de lenda, de figuras de sonho, homens e mulheres dum mundo irreal... Se a mulher dissesse que gostava do bolicheiro ali da esquina - ah!- isso seria diferente.
Belinha discorda:
- Eu, minha filha, prefiro o romantismo do Novarro. Ai! Que olhos, meu Deus, que boquinha de anjo, que encanto! Maravilhoso! Ai!
35 -
33
- Um efeminado! - - diz Ondina, com desprezo.
Na mesa do Nestor e do judeu a discusso est acesa:
- Os principais homens da Humanidade foram judeus - afirma Levinsky.
Nestor faz um gesto depreciativo. - -Ora v tomar banho, seu russo! Mas o outro, renitente:
- Newton era judeu - insiste.-Spinoza era judeu, Nor-dau era judeu. Einstein  judeu. E outros e outros...
Belmira, que passa com uma bandeja nas mos, faz uma careta de nojo:
- Sai, judeus!--diz.-Vocs mataram Jesus Cristo! D. Eufrasina repreende:
-Belmira! Que intrometi mentos so esses?
A mulata se esgueira por entre as mesas, rebolando as ancas.
O major fala dos tempos da Monarquia. Tio Couto (toda a gente lhe chama tio) critica a aco do ministro do Trabalho. E conclui:
- S uma revoluo  que pode endireitar esta joa. Gamaliel, voz macia, olhar inocente, conversa com Zzi-
nho, que est encolhido no seu canto, muito plido:
- E no se habituou ainda?
O estudante de Medicina encolhe-se ainda mais. Parece mareado. Muito plido, afasta os pratos com delicadeza:
-  intil... Cada vez que tenho de assistir a uma autpsia,  isto: vmitos, tonturas... Por trs dias fico imprestvel.
Zzinho tem uma voz delicada, de timbre feminino. Gamaliel sugere:
- Meu amigo, oua o que diz a Bblia: Se o teu olho direito te serve de escndalo, arranca-o e lana-o fora de ti; porque  melhor que se perca um dos teus membros do que o teu corpo v para o inferno.
De sbito, voltando a cabea, o major solta uma pergunta rpida:
- Por que no abandona a Medicina?
Zzinho entorta a cabea juvenil. Brilham-lhe os olhos hmidos. Parece embaraado.
- Ora... j que comecei... D pena ver tanto trabalho perdido ...
Tio Couto faz um gesto largo:
- Deixe a Medicina, menino. V para a Engenharia. Ns precisamos de engenheiros, de gente que trabalhe, que nos faa estradas, pontes, represas, ouviu?
Palitando os dentes, Nestor intervm:
- Por falar em trabalhar.... o senhor j cavou o seu ossinho. Tio Couto?
O rosto do marido de D. Zina mantm-se imperturbvel.
- Ainda no, mas estou muito esperanado. Parece que o secretrio do Interior vai me nomear no princpio do ms que vem ...
D. Eufrasina bebe um gole de gua e depois, com ar descrente, resmunga:
- Nomear ou no... Eu  que no me fio em promessas ...
O marido esboa um gesto de enfado.
- Ora, voc sempre pessimista. o que mata este pas  o pessimismo. O nosso povo  um povo doente de descrena.
E, animando-se, ergue a voz:
- Ora bolas! Se o homem prometeu  porque faz. Que razo temos ns para duvidar da palavra dele? Ora bolas!
Gamaliel, dobrando o guardanapo com pacincia evanglica, anima-o:
- No desanime, senhor Couto. A quem Deus promete no falta.
- men! - cantarola Nestor.
Barata, que j limpou o prato, refastela-se na cadeira, afrouxa a cinta, desabotoa o colete e pergunta:
- Por falar em men, vocs conhecem aquela histria do padre e do colono?  piramidal!
Amaro olha a sala agitada. Clarissa vem chegando. A tia franze a testa:
- Sempre atrasada! Cansei de chamar... A comida at j esfriou.
Clarissa sorri. Tem os cabelos molhados, a pele fresca. Senta-se  mesa, olha em torno, respira com fora.
33
E Amaro - sem saber porqu - lembra-se de repente de certa tarde dum Vero longnquo. Era num dos meses mais adustos. A cidade rescaldava sob o olho de fogo do sol, as pedras ferviam. Parecia uma praga. Mas naquela tarde caiu do cu inesperadamente um aguaceiro grande, demorado e fresco. E num milagre o sol de novo brilhou, mais doce, sobre os jardins molhados.

- Prrr-pi-pi-pi!
Clarissa vai dar de comer s galinhas. Com a mo esquerda, segura a ponta do avental, que forma um bojo fofo onde o farelo e os gros de milho se aninham.
Tardinha. A sombra da casa vai aos poucos avanando sobre o ptio. O cu empalidece.
Com a mo direita, Clarissa lana no ar punhados de milho e farelo, no gesto de quem semeia.
Num cacarejar mido as galinhas vm correndo, sacudindo as asas, e comeam a dar bicadas a esmo, sfregas; arranham o cho, comprimem-se, amontoam-se, disputando os gros. No meio delas, os pintinhos, arrepiados e encolhidos, piam desconsoladamente, perdidos no aglomerado de penas, bicos e patas.
- No se apressem! -grita Clarissa-, tem pra todos! E cobre o cho de gros dourados. Ri, com a impresso de
que est jogando fora ouro, muito ouro.
No fundo do ptio um peru preto passeia dum lado para outro, lento, indiferente ao espectculo tumultuoso. Por que ser que no vem? Falta de apetite? Ou orgulho?
Clarissa cantarola:
- P'ru! P'ru! P'ru!
Solene como um rei, o peru continua imperturbvel, enquanto as galinhas disputam o milho a bicadas violentas. Agora um galo de crista escarlate entra no grupo como um tufo, abrindo caminho  fora de empurres.
Bruto -pensa Clarissa.- Um homem deve ser delicado com as mulheres...
Oh! Mas o galo no entende a lngua dos homens. E no mundo do galinheiro, decerto no h etiqueta.
Clarissa acocora-se. Acabou-se o qu'era doce, quem comeu se arregalou-se. Agora ela pode olhar tranquilamente toda a bicharia do quintal: j cumpriu a obrigao.
Que cara engraada tm as galinhas! Dois olhinhos midos como contas, o bico, as penas, os ps. E por que ser que chamam ps-de-galinha s rugas que as pessoas que esto envelhecendo tm no canto dos olhos? Por que ser tambm que quando o cu est cheio de nuvens finas, tremidas e compridas, transparentes como um vu, dizem que o cu est cheio de rabos-de-galo? Tudo na vida  to engraado,..
Agora os olhos de Clarissa esto fitos nun pintinho magrssimo e encolhido, que se acha parado longe do grupo, quieto, a cabea  sumida dentro da penugem arrepiada.
O pobrezinho, naturalmente, est pesteado. Por que ser que h um doutor para os homens e no h um doutor para os pintos? Mas, pensando bem, seria de morrer de riso se aparecesse agora um doutor galo, de culos, bolsinha na mo, e chegasse e dissesse para o pintinho doente: - Menino, bote a lngua - e depois tomasse o pulso dele e se pusesse a escrever uma receita para mandarem fazer na farmcia, uma farmcia de galinhas, naturalmente... Tudo bobagens! A tia Eufrasina sempre diz que ela  uma tolinha, que vive fazendo perguntas absurdas, portando-se  como uma criana. Ora... no  por mal. Se ela pensa estas coisas, por que no h-de diz-las? Que culpa tem de fazer perguntas bobas se ningum lhe explica nada, ningum lhe conta como so os segredos do mundo? L em casa, na estncia, no tinha amigas para conversar. Papai vivia no campo. Na hora da sesta, dormia. Na hora das refeies, comia, e s falava nos rodeios, na marcao do gado, na safra... Quando ela -pobrezinha- perguntava: - Como  que nascem os terneiros, papai? - mame arregalava uns olhos deste tamanho para ela, papai franzia as sobrancelhas cerradas e ficava com cara parecida com a daquele gigante que comia crianas.
Clarissa senta-se no cho e cruza as pernas. As galinhas agora se encontram espalhadas por todo o quintal. Dois franguinhos brancos se do bicadas. Beijos? Clarissa observa-os, interessada. Ser que esto brigando ou esto se acariciando? Mas pensando bem, o beijo  uma coisa muito esquisita. Lbios que se encostam noutros lbios. Para qu tanto mistrio? No
 cinema todos os namorados se beijam, ningum repara, ningum fala. Aqui fora, se a gente fosse beijar um rapaz -meu Deus! -, vinha o mundo abaixo, toda a gente falava, toda a gente criticava. Dizem que a Vivi  muito desfrutvel, que beija todos os namorados que tem ... A Dudu tambm. Decerto isto  de famlia: so irms. Mas que bobagem! Uma pessoa fica -mal vista, fica falada, fica sendo considerada desfrutvel e sapeca s porque deixou o namorado encostar os lbios nos lbios dela. Ora, j se viu? Enfim, ela -Clarissa-  uma boba que no sabe nada da vida. Decerto deve haver um segredo muito grande nessa histria <lo beijo. Um segredo que pouca gente sabe. Deve ser alguma coisa boa. Se no fosse boa, os namorados no faziam tanta questo do beijo. Sim, isto  o beijo de namorados. Porque o beijo que a gente d na me, no pai, na tia, numa amiga -  diferente. Pelo menos deve ser. Se no for, ento tudo  bobagem. Se o beijo dos namorados tem o mesmo gosto ... no vale a pena. Enfim...  um segredo, um mistrio, no sei...
Inclina-se mais sobre o cho. A terra est inundada de sol. Aqui e ali brilham seixos midos, pedaos de vidro, gravetos. Clarissa compara a epiderme do brao com a cor da terra. Sorri.
- Quase da mesma cor! - pensa. - Morena. A terra tambm  morena. Eu sou assim  porque aquele sol l da estncia queima. Depois, o papai  moreno, a mame  morena. Eu tinha de nascer morena.
Fica por um instante com o olhar vago, imaginando coisas ...
- Mas como  que aquele pintinho amarelo  filho da galinha preta? Logo, a cor da me no regula...
Decididamente: ela no sabe nada da vida. Mesmo no podia ser de outro modo. Titia vive com o olho em cima dela: no a deixa passear, s lhe permite um cinema por semana (e isto mesmo nem todas as semanas), no quer que ela tenha amigas ntimas, chega quase a enxotar de casa a coitada da Dudu, a coitada da Vivi. Quanta coisa interessante elas lhe poderiam contar! Sim, porque a Dudu e a Vivi conhecem muitos mistrios, sabem o segredo do beijo, e muitos, muitos outros segredos mais ...
Mas se Deus quiser o tempo h-de passar, vou ficar moa, ter namorados de verdade, um noivo. Um dia me caso e depois
ganho um beb. Numa noite muito estrelada, com uma Lua enorme - o beb vem num cestinho de ouro, preso ao bico duma cegonha. Duma cegonha? Mas ser mesmo que as crianas so trazidas pela cegonha? Claro, ela sabe que essa histria de cegonha  inveno. Mas o melhor mesmo  nem pensar nisso...
Clarissa franze a testa, ala de leve a sobrancelha direita, fica com a cabea inclinada sobre o ombro esquerdo, numa grande indeciso... Agora se lembra de que um dia aconteceu um facto que lhe deixou na cabea uma dvida dolorosa...
Foi na varanda da penso. A Dudu tinha vindo convid-la para ir  vesperal dum cinema do centro. Ficaram falando diversos assuntos... Duma fita de Janet Gaynor, duma baratinha cor de laranja que passava todas as tardes pela frente da penso. Por fim Clarissa perguntou:
- Tu sabes, Dudu, que a cegonha trouxe um beb para a D. Emlia?
Dudu fez uma cara de surpresa. Botou a mo espalmada no rosto e, num ar de troa, disse:
- A cegonha foi que trouxe o beb pr D. Emlia? Ora, aquilo era uma maneira de dizer. Mas ela no queria
que Dudu soubesse que ela sabia da verdade. No teve outro remdio seno ficar com uma cara de inocente.
--Como s boba, Clarissa! Ento tu s ainda do tempo que a gente acreditava que as cegonhas  que traziam os filhos prs mes?
Naquele momento entrou a tia Eufrasina. Tinha ouvido tudo. Vinha de cara fechada.
- Isso no so conversas prprias pra meninas decentes! Clarissa passeia o olhar pelo ptio. O peru orgulhoso gru-
guleja, esticando o pescoo, sacudindo o papo vermelho e flcido.
Orgulhoso - pensa Clarissa. - No quis o meu farelo. Deixa estar, quem vai te dar a bebedeira na vspera do Natal sou eu...
Em seguida, arrepende-se do pensamento. Julga-se j um pouco culpada do assassnio do peru. O pobre bicho est condenado. Tia Eufrasina j o marcou:
- Este  pr Natal.
O major diz sempre:
- No se esquea de que eu sou louco por peru com farofa.
Clarissa entrega-se a novas reflexes... Os homens so maus. Criam os pintos, do-lhes de comer- farelo, gua, milho. Eles crescem, ficam galinhas, andam pelo quintal esgaravatando a terra com o bico e com as patas, botando ovos, caando minhocas; e um belo dia -zs! - l vem si Andresa e agarra os mseros bichinhos, torce-lhes o pescoo e larga no cho um corpo mole que pinoteia, num esforo desesperado para no morrer.
Clarissa um dia viu quando torceram o pescoo de uma galinha: no almoo no comeu, impressionada. De noite, sonhou. Uma barbaridade! No devia ser assim...
Enternecida, Clarissa estende o brao para apanhar o pintinho arrepiado, para acarici-lo, para dar-lhe um pouco do seu calor. Mas o pintinho foge assustado, piando perdidamente. Clarissa pensa: Est ressabiado. Tambm o que ele v todos os dias d p'ra assustar ...
Ergue-se.
Est na hora do banho. Parece at um milagre a tia no ter surgido ainda  porta para gritar: Clarissa, est na hora!
At o papagaio estranha, pois sacode a plumagem e grita:
- Clariiiissa!
O papagaio  mais feliz. Todos lhe do de comer, conversam e brincam com ele. Mas ningum pensa em com-lo com farofa. Boa vida!
Clarissa caminha. Os ps descalos pisam a terra morna. O cu est muito claro, duma claridade leitosa. O sol j se escondeu por trs da casa de D. Tat. Ouve-se a voz do menino doente:
--Mame! Mame! Vem me buscar, no tem mais sol... Estou com frio ...
Uma voz dolorida, fraca, que se crava no corao da gente.
Se as galinhas pudessem falar - pensa Clarissa -, na hora do sacrifcio decerto falariam com voz igual  do Tnico.
- Si Andresa, no seja m, no me tora o pescoo! Com uma sombra de tristeza nos olhos. Clarissa entra
em casa.
Na meia luz do quarto, onde a lmpada elctrica est apagada, brilha suavemente o teclado do piano, o metal da cama, o espelho oval na parede, acima da pia; brilha sobre a mesa o tinteiro de nquel entre papis em desordem...
Delcia de estar sozinho na sombra tpida. Delcia de ficar sonhando, calado, vendo o crebro pensar: sem interlocutor, sem atitudes, descuidoso, abandonado, livre ... Delcia de sentir, de ver que a luz do luar vai aos poucos invadindo o quarto, cheia de todos os rudos da noite nova, de todos os perfumes do jardim.
A janela enquadra um pedao de cu violeta em que se vem os crivos midos das estrelas.
Amaro sorri. Feliz? Quase ... Felicidade igual a serenidade.
Pra  frente do espelho, olha a imagem apagada. Caminha para a. janela. Uma brisa fresca lhe bafeja o rosto. Amaro contempla o casario da cidade, todo pontilhado de luzes. Mais longe, o rio. A Lua vai subindo. Por trs do morro mais alto - mancha escura que barra o horizonte - h uma vaga claridade lactente. Brilham luzes furtivas na encosta dos morros. Ele fica imaginando dramas, conflitos de almas que sofrem, segredos... Quem sabe? Uma luz perdida, ao longe, sugere tanta coisa ...
Uma pontinha do disco da Lua comea a aparecer. O no cobre-se de lantejoulas de prata. Uma poeira luminosa coroa a crista do morro.
Da casa vizinha vem o som dum gramofone. Uma ideia ...
- E se eu tentasse terminar o meu nocturno?
Volta-se devagar e aproxima-se do piano.
L em baixo, na sala de refeies, o relgio bate o seu quarto de hora Westminster. Amaro reproduz no piano, com um dedo s, a musiquinha familiar do relgio.
Vamos ao nocturno.
Agora: oito badaladas lentas, longas, que foram ecoando pela casa.
- Titia, posso ir at o jardim?
H uma splica ansiosa na voz de Clarissa. De outro compartimento, D. Eufrasina responde:
- V, mas volte logo pra estudar...
- Sim senhora ...
- No esquea que os exames esto perto ...
- Sim senhora...
- No apanhe muito sereno ...
- Sim senhora ... Clarissa desce ao jardim.
As flores na sombra parecem dormir. Por entre a relva grilos cricrilam. Um vento fresco e manso bole nos arbustos, agita os talos, as folhas e as corolas. Clarissa olha para o cu estrelado. Ser este mesmo vento que faz tremer, que quase apaga o fogo das estrelas? Os poetas falam nas estrelas pequeninas. Pequeninas? Pois sim... Enormes, imensas, muito maiores que a Terra. Os livros explicam. As estrelas so mundos. A distncia  que faz que elas paream pequenas. Naturalmente: tudo de longe fica menor por causa de uma lei que tem um nome que eu agora no me lembro. O Nestor, que  um rapaz alto, visto de longe, de muito longe, parece menor que o Tnico.
Clarissa senta-se no banco do jardim.
No porto dois vultos se movem. Clarissa mal os divisa. (Tambm no h no mundo rua to mal iluminada como esta ... Um combustor grita aqui, o outro responde l longe, a duas lguas de distncia,..) Apesar de tudo, com um pequeno esforo, a gente pode enxergar. Quem est no porto  a Belmira. Conversa com o namorado. Ele  guarda civil, est fardado de azul. Na sombra, a estrelinha de fogo do cigarro. Belmira est recostada ao muro. Cochicham. A mulata abafa uma risada. O namorado tira o cigarro da boca: a estrelinha lhe desce pelo peito, dana no ar, parece que vai se apagar, mas depois sobe ao rosto e de novo se aviva ...

Que estaro conversando? Clarissa imagina mil coisas. Como deve ser curiosa uma conversa de namorados ...
- Tu gostas de mim?
- qU? Que pergunta!
- Por que  que s vezes tu passa-, sem me olhar? ...
- Credo! Eu olho sempre... - Mzinha!
- A ideia! ...
Quanta bobagem se dizem os namorados! -pensa Clarissa.
Ela j ouviu uma vez - no se lembra onde - um dilogo assim. Porque ser que na vida tudo  diferente dos romances? Nos romances h prncipes. Na vida no h. Nos romances h fadas. Na vida no h. Nos romances os animais falam. Na vida no falam. Os namorados dos romances so sempre bonitos. O mocinho  forte, de ombros largos, valente, e est sempre disposto a morrer pela sua amada. A mocinha tem cabelos de ouro, olhos azuis., e vive num castelo muito, muito lindo, com aias, pajens,., o diabo! (O diabo no, credo! Deus me perdoe!) Quando conversam, s dizem coisas bonitas.. Clarissa at se lembra duma passagem de certo romance que leu h pouco tempo. Era uma noite de luar (clara e perfumada como a de hoje), O cavaleiro chegou debaixo do balco da sua amada. Ela apareceu toda vestida de seda branca cor do branco luar...-- como dizia no livro. Ele estendeu os braos e exclamou com voz trmula e sonora (era bem assim que estava escrito):
- Vida de minha vida! Ela respondeu:
- Amor meu, luz dos meus olhos!
- Os teus olhos so dois lagos encantados onde o cu... onde o cu ...
Clarissa franze a testa, ala a sobrancelha, inclina um pouco a cabea e puxa pela memria...
Onde o cu... Onde o cu... qu? Diabo de memria! Mas no faz mal. Por causa de uma ou de duas palavras, a gente no vai ficar a vida inteira pensando. O facto  que os namorados de romances falam bonito. Na vida tudo  diferente. Gente feia, sem graa. Falam todos como a Belmira, como o guarda civil. Pitam na frente da namorada. No sabem dizer nem fazer coisas delicadas e agradveis.
Ouve-se agora o som de um piano. Algum est tocando uma msica bonita, calma, triste at. Clarissa escuta...
-  seu Amaro com as suas musiquinhas que ningum entende...
A melodia do piano continua a encher a noite. Agora est mais fraca. Decerto Amaro mal passa pelas teclas os seus dedos de doente. De sbito, porm, parece que o pianista se entusiasma, porque a msica se anima, as notas se ouvem mais ntidas e fortes ... No entanto, a impresso de tristeza continua. Algo de lento, arrastado, doloroso. Clarissa pensa no Tonico. Todas as coisas tristes a fazem pensar no Tnico. Se ela fosse Deus, dava uma perna s para o filho da viva, uma roupa nova para o seu Gamaliel, um noivo para a Belinha, um emprego para o Tio Couto e um pouco de alegria para seu Amaro. S assim seu Amaro deixaria as suas msicas fnebres, as suas msicas que a gente no compreende, mas que do vontade de chorar; s assim ele poderia tocar melodias alegres. Mas, infelizmente, ela  apenas a Clarissa Albuquerque. Uma menina do stio, que veio estudar na capital e que mora na penso da tia. Uma menina que no tem com quem conversar. Uma menina boba, como diz a titia. Uma menina que no tem licena de sair a passear, nem de ir ao cinema, nem de nada ... Uma menina que nem pode ficar um minutinho se olhando no espelho... Espelho... espelho... esp...
De repente uma ideia relampagueia na mente:
- Achei! Onde o cu... se mira como num espelho. Isto! Os teus olhos so dois lagos encantados onde o cu se mira como num espelho!
Clarissa sorri.
A msica do piano cessou. O namorado de Belmira acende outro cigarro. Na rua passa um bando de meninas, em algazarra. So cinco. Gritam e falam alto. Uma delas vai cantando. Passam como um bando de passarinhos. Bem como um bando de gralhas.
- E eu... aqui, sozinha...
O rosto de Clarissa est agora sombreado por uma expresso de melancolia.
A msica do piano recomea. A mesma cadncia, a mesma tristeza.
D. Eufrasina assoma  porta;
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- Clarissa!
- Senhora?
- Est na hora. Vem estudar!
Clarissa ergue-se. Comea a subir os degraus com lentido. Vai pensando:
Mas isto acaba. Um dia chegam as frias. A fazenda... O primo Vasco... O negro Xex, a Conca... Eu fico solta. Correr descala pelo campo molhado, de manh. Tomar banho no lajeado, ficar debaixo das cascatinhas, sumida num monte de espuma... Passear a cavalo pelo campo... Livre! Livre! Livre!
--Anda depressa, menina! Que preguia  essa?
Com uma paisagem de verde no quadro da memria, Clarissa entra em casa.
No porto do jardim lucila ainda a estrelinha de fogo.
Amaro deixa o piano. As frases que comps no o satisfazem. No importa. Amanh talvez lhe venha uma onda boa de inspirao. Amanh...
Vai de novo at  janela. A Lua j subiu. No ptio da casa vizinha o muro caiado, ainda mais branco sob o luar, projecta no cho uma sombra longa. O rio parece de mercrio. Os montes, longe, dentro da noite clara, tm um tom irreal. No ptio dormem sombras misteriosas. O tanque de lavar roupa, transbordante de gua, prende em seu espelho lquido  disco da Lua. E a Lua treme e se parte em cacos na gua que a brisa encrespa.
Amaro contempla a noite longamente.
E fica ouvindo, deliciado, uma msica suavssima que ele no sabe se vem de dentro dele prprio ou se desce da Lua...
Positivamente, quem tem razo  o contador do banco: o senhor  um luntico!
Clarissa olha para o relgio. Os ponteiros se arrastam com lentido. O pequeno est em cima do 9, o grande caminha para o 6.
Em cima da mesa, sob os olhos, Clarissa tem livros e cadernos abertos.
O Barata e a mulher entram na sala. Acabam de chegar da primeira sesso dum cinema. Ele -muito gordo, o ventre rolio e saliente, e as perninhas curtas- vem resmungando
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com ar zangado. Clarissa mal pde conter um sorriso. Aperta os lbios, abaixa a cabea, finge que est absorvida no estudo. Porque ao ver o caixeiro-viajante teve uma ideia engraada. O marido da D. Ondina lhe deu a impresso perfeita desses bonecos rolios de celulide que tm um peo nos ps e que no tombam nunca: a gente bate neles, eles se inclinam, tocam o cho com a cabea, mas logo se aprumam de novo.
D. Eufrasina, que est fazendo croch perto da mesa, repreende, a meia voz:
- Clarissa... Ai, ai, ai!
Muito enfeitada, recendente de perfume, pintada como uma boneca, Ondina solta um suspiro. D. Eufrasina pergunta:
- Gostaram da fita?
Clarissa levanta os olhos, curiosa. O Barata faz um muxoxo:
- Assim, assim ...
Ondina, escandalizada, explode:
--Oh, homem! Que sujeito enjoado, no gosta de nada. Depois, com uma expresso de gozo no rosto, volta-se para a dona da casa:
- Gary Cooper... um amor, Dona Zina. Um amor! Barata faz um gesto vago. Tem os olhinhos murchos, cheios
de sono e tdio. Escancara a boca, num bocejo. Ondina sobe os degraus, com passo lento. Barata segue-a, silencioso e dcil, como um paquiderme amestrado. No alto da escada, Ondina volta-se:
- Um amor, Dona Zina, um amor! Somem-se.
Ouve-se, longe, o rosnar abafado e azedo do Barata. Um rumor leve de passos. Depois, o rudo seco duma porta que se fecha.
D. Eufrasina ordena:
- No perca tempo, menina. Estude.
Clarissa baixa os olhos:
Geografia. Matria cacete. Decorar, decorar, decorar... E uma noite to bonita l fora!
O macio montanhoso de leste  formado de terras antiqussimas que os agentes naturais tm nivelado ao estado de planaltos.
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Clarissa l e rel o perodo. Fecha o livro e os olhos e procura repetir de cor o trecho lido. Os seus lbios se agitam levemente, as palavras lhe saem da boca num sussurro:
O macio montanhoso de leste...
Detm-se. E depois? Abre o livro:
O macio montanhoso de leste  formado de terras antiqussimas ... Ah! agora sim. O macio montanhoso de leste  formado de terras antiqussimas ... Mas por que antiqussimas e no antiqussimas?-que os agentes naturais...-Mas que agentes naturais so esses? Eu conheo o agente do correio de Jacarecanga, que  o seu Moreira. Agentes naturais... Que  isso? A gente nem entende nada, como  que vai aprender? - ... que os agentes naturais tm nivelado ... - se eu soubesse o que  nivelado era muito bom, mas no sei ... - e reduzido ao estado de planaltos,.. - estado de planaltos? Estado ... estado do Rio Grande do Sul... estado do Sergipe... estado lastimvel, como diz o Tio Couto...
O relgio bate nove e meia. Clarissa ergue a cabea. Porque ser que os ponteiros no correm mais ligeiro?
D. Eufrasina vai at  janela que d para o ptio. Na sombra que a casa projecta no cho, recorta-se um rectngulo luminoso.
- O judeu est de luz acesa, estudando. Bem podia me pagar mais um pouquinho pela luz.  o que gasta mais de todos. Fica acordado at de madrugada.
Ouve-se outra vez a msica do piano de Amaro, numa surdina. Parece dessas cantigas que as mes cantam para embalar o sono dos filhos.
Clarissa l num cicio:
O rio da Prata  um vasto esturio formado pelos rios Paran e Uruguai, desde sua confluncia at que desembocam, no Atlntico, onde tem 200 quilmetros de largura.
- O rio da Prata. Prata... Luz cor de prata, como nas poesias. Hoje a luz  cor de prata. Vasto esturio. Esturio. Vesturio...
Boceja. Os olhos lhe vo pesando.
- Desde a sua confluncia... Confluncia... Influncia... Influncia espanhola... No tempo da influncia espanhola... No tempo da influncia espanhola, papai quase morreu ... Morreu ... Meu boi morreu ...
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Desembocam no Atlntica ...
As letras do livro comeam a tremer, a danar. A msica que vem do quarto de Amaro  suave e embaladora. Parece uma cano de bero, uma cano para fazer dormir. Dormir ... Afundar no sono... Sono... a cama ... L fora, decerto ainda brilha a estrelinha de fogo, junto ao porto ... E o vento  frio e perfumado... E as meninas passam num bando alegre... A msica vai embalando... A sombra da tia Zina se desenha na parede... A sombra da parede tambm agita as mos, faz I croch... To suave, to boa a msica que convida ao sono, |; a msica que decerto o vento leva, o vento que quase apaga com seu sopro fresco a luz das estrelinhas... Mame faz a cama... A lamparina arde em cima da cmoda... As corujas piam l fora nos ocos de pau ... Ningum sai para o campo com medo do Boitat... Clarissa vai dormir... Sente na cabea a mo macia da mame... Macia... Macia... Mame canta... Uma msica assim: boa, fraca, boa, para fazer o nen dormir...
Bicho Tutu, No venha mais c Que o pai do menino Te manda mata ...
Tudo vai ficando escuro, dormente, esquecido: a estrelinha de fogo, a geografia, a sombra que faz croch na parede, a msica do piano, a cantiga de mame ...
Clarissa adormece com a cabea abandonada entre os braos.
O sol da manh pe reflexos mveis na gua do tanque, irisa a espuma do sabo, d ainda mais alvura aos panos brancos.
D. Zina lava a roupa branca.
Os galos cantam nos quintais vizinhos. Os pessegueiros, as ameixieiras, a relva dos canteiros esto ainda hmidos do sereno da noite.
Na janela da casa contgua, D. Tat aparece.  uma mulher de rosto emaciado, onde no h o mais leve lustro.
D. Zina levanta a cabea:
- Bom dia, vizinha!
- Bom dia!
- J acordada, a esta hora?
D. Tat suspira. Que vai fazer? Tem de esperar o leiteiro e o padeiro. No tem criada. O leite  para o Tnico, coita-dinho. O menino no h jeito de engordar,
- Como vai ele, vizinha?
- Ora, como sempre. Fraquinho, sem cor. E a minha cruz, o meu martrio!
- E as costuras?
- Escassas. A mulher do doutor Milton devolveu o vestido. No gostou. Porque ele tem isto, tem aquilo. Agora eu  que vou aguentar com o prejuzo. Um martrio!
D. Zina sacode a cabea, penalizada.
Faz-se um silncio curto. Dentro da penso comeam os rudos matinais. Nestor canta no banheiro. Ouvem-se as gargalhadas sonoras do major. Na cozinha, a negra Andresa principia a acender o fogo: a lenha crepita, a fumaa foge pela janela.
- J alugou o quarto l de cima, vizinha? D. Eufrasina faz um gesto vago:
- Qual! No aparece ningum. Felizmente os outros todos esto ocupados ...
- O russo j pagou?
- Jacar pagou?
D. Zina bota as mos na cintura e, com uma careta humorstica, conclui:
- ... nem ele ... D. Tat aconselha:
- No se descuide, vizinha. Olhe que esses russos so o diabo. Podendo lograr a gente, logram.  s haver jeito. Pois a mulher do Samuel da prestao levou quase um ano pra me pagar um vestidinho de cinquenta mil-ris...
- Que horror! E o Samuel anda bem de negcios. Imagine s, se andasse mal ...
No alpendre o papagaio paira. Em cima do muro caminha Micefufe, o plo fulvo incendiado de sol.
- E a Clarissa?
- Vai bem ...
- Est ficando uma moa ...
- no Ms que vem faz catorze ...
- Desenvolvida ...
- Muito ...
Encurvada sobre a tbua, D. Zina esfrega o sabo na roupa.
D. Tat suspira. Outro silncio breve. Agora a me de Tnico comenta, subtil:
- Isso bem que  uma responsabilidade pr senhora... Ter uma mocinha em casa, no meio de tanta gente ...
D. Zina detm-se por um instante. Alisa o cabelo com as costas das mos. Depois:
- Felizmente todos respeitam muito ela. O major  um velho. O Barata, um homem casado. O judeu, esse s vive prs livros. O Zzinho quase no pra em casa, alm de tudo parece que tem medo de moa. O Nestor  meio levado mas eu j avisei: nada de confianas com a menina, nada de brinquedos, de coisinhas, de agarramentos. Muito respeito!
- E o msico ?
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- O seu Amaro? Coitado, uma boa alma! No incomoda ningum. Vai pr banco, volta do banco. Pede banho, vai pr quarto. Vive lendo e tocando piano. Mal fala com a gente... Boa alma.
- E paga?
- Nunca faltou.  ali, no fim do ms. Pontual.
- Que moo esquisito! To misterioso. Olhe, vizinha, que ali tem coisa... Quem vive muito fechado, muito retirado, sempre tem um vcio feio na vida ... No  bom confiar muito ...
-Qual! O seu Amaro?
E D. Zina sorri com simpatia. A outra volta ao ataque:
- Mas a senhora veja, vizinha, isso no  natural... No  on to velho ele . E lhe digo mais: nem o major, que tem sessenta anos, vive assim retrado ... Nem o major...
- Dona Tat, que foi que o seu Amaro lhe fez? ... A cara da viva assume uma expresso de surpresa:
-Que foi que ele me fez? Nada! At gosto muito dele. Um moo muito delicado. Ele sempre faz agrados ao meu filho. At foi ele fiquei admirada!) quem deu os soldadinhos de chumbo pr Tnico ...
- Pobrezinho ...
- Do seu Amaro ou do Tnico?
->Ora, do Tnico, naturalmente, vizinha...
- Imagine s que vida, comadre, que vida! Ali em cima daquela cadeira, todo o santo dia, sem poder levantar, sem poder ir brincar com os outros meninos da idade dele...
-  triste ...
- E depois, Dona Zina, o Tnico tem essa mania de gostar de coisas de militana, de soldados, de guerra. A semana passada tive de mandar fazer uma espada para ele, ali na carpintaria do seu Florisbaldo ...
- Uma mania como qualquer outra... O Couto sempre diz que tinha vocao era pra vida militar...
D. Tat estica mais o pescoo:
-Por falar nisso, o seu Couto j conseguiu colocao? D. Zina senta-se a beira do tanque e solta um profundo suspiro.
- O Couto h seis meses que vive de promessas. At hoje no arranjou nada. Agora na Secretaria...

De sbito um grito corta, o ar da manh. Agudo, prolongado, doloroso:
- Tat! Tat!
 o menino doente. Uma sombra escurece o rosto da viva. Sem palavra ela se volta para dentro da casa e se some.
- Titia! Titia!
Corada, olhos luzindo de alegria, Clarissa agita no ar um papel. Desce correndo as escadas.
- Carta! Carta da mame!
D. Eufrasina enxuga as mos no avental.
Clarissa est ofegante. O contentamento ilumina-lhe o rosto. Sofregamente rasga o enveloppe azul e de dentro dele tira uma folha de papel quadriculado.
To engraadas as cartas da mame ... Sempre no mesmo papelzinho de xadrez, com a mesma letrinha redonda, tinta roxa ...
As cabeas quase encostadas, Clarissa e a tia lem:
Querida filha:
Estimo que estas poucas e mal trassadas linhas va-te encontrar em goso de perfeita sade, ns vamos indo graas a Deus teu pai  que anda aborrecido por causa dos negossios mas no ha de ser nada si Deus quizer e Maria Santssima. Clarissa vou-te mandar um leno de ceda azul e incarnado disque agora esto usando muinto no vs apanhar algum frio milha filha ests ficando mossa  perigoso e deves ter muinto cuidado com os bondes e autos e que cidade grande  o diabo. Quando o seu Fedendo Fagundes for a levar a mulher que vai fazer operao de pendicite eu te mando por ele a pecegada para ti comer e d um pedasso para a tua tia Eufrasina, to boa comtigo a coitada e tu podes botar sapato de salto alto quando fazeres quatorze anos si Deus quizer e a Virgem, ando muito aborrecida os negossios anda ruim teu pai no achou comprador para o gado o seu Antunes prometeu comprar mas depois desestiu o semvergonha e tu no vai muinto a sinema que eu no gosto dessas mistura com gente de cidade grande. D um abrao na Eufrasina e no Couto e aceite mil beijos da tua me e de teu pai.
Clarissa l, rel. Brotam-lhe lgrimas nos olhos, lgrimas que ficam fulgindo como vidrilhos na luz da manh.
Em cima do muro Micefufe encolhe-se todo, arrepiado; ronrona, e, de sbito, num pincho violento, se. atira em cima dum franguinho branco que est bicando calmamente o cho. Guinchos, pios, tatalar desordenado de asas. O pnico se estende por todo o ptio. E o gato amarelo -plo rebrilhante de sol - parece um demnio de fogo, no meio da bicharia alarmada.
- Gato bandido!-vocifera D. Eufrasina.
Todos tm um segredo, todos tm um mistrio, pensa Clarissa, passeando o olhar pelo refeitrio.
Hora de jantar. As luzes ainda no foram acesas.
Um resto de sol bate, alaranjado, nas vidraas. Atravs das janelas, v-se o cu que vai aos poucos tomando uma cor de opala.
Todos esto sentados s suas mesas. O Barata, curvado sobre o prato, sorve a sopa ruidosamente. Solitrio na sua mesinha de canto, Amaro parece ausente, olhos postos ningum sabe onde, mos pousadas sobre a toalha branca. Levmsky e Nestor esto atracados numa discusso. A cabeleira ruiva do judeu se agita como uma labareda. Nestor gesticula, d murros no ar, empunhando uma faca, com ar agressivo.
- Bem faz o Hitler que est botando os judeus para fora da Alemanha!
Maurcio Levinsky, muito vermelho, espeta o garfo com fria numa batata cozida.
- Graas aos Israelitas a Alemanha  hoje em dia uma grande potncia.
Nestor faz gesto de desprezo:
- Ouvi dizer que foram vocs que provocaram a guerra! Pura ganncia.
Com a boca cheia, numa voz quase sumida, o outro rebate:
- Isso  uma mentira!
Tio Couto, o palito no canto da boca, ar feliz de quem comeu a fartar, comenta:
- Precisamos endireitar  o nosso pas, seu Nestor. Deixemos o dos outros.
O Major Pombo derrama no copo uma colherada de sal de frutas, com uma careta pessimista.
- Qual! Com estes nossos polticos no se arranja nada ... A gua do copo ferve, uma espuma branca sobe rpida e
transborda.
D. Glria fala do seu eterno reumatismo. Tia Zina queixa-se da alta dos gneros:
- O acar subiu, a banha subiu, no sei onde vamos parar...
- So consequncias dos desgovernos, frutos dum pas onde no se trabalha ... -interrompe-a o marido.
Nestor volta a cabea, e com um sorriso malicioso pergunta:
- Por falar em trabalho, Tio Couto, quando  que o senhor comea?
O rosto do marido de D. Zina assume uma expresso grave. E  com voz dura que ele responde, dedo indicador no ar:
--Olhe, moo, eu j estou com quase cinquenta anos: no admito ironias. Fique sabendo que trabalho desde os quinze. Voc nem era nascido e eu j trabalhava! H seis meses que estou sem emprego,  verdade, mas no  por gosto. Uma coisa que pode acontecer a qualquer um...
- Mas o senhor se zangou, Tio Couto? Ora eu no tive inteno ...
O dono da casa dobra calmamente o guardanapo.
- Eu no me zanguei - diz. - Mas h certas coisas que no caem bem, j'ouviu? H coisinhas, palavrinhas, sorrisinhos que ferem, que irritam, que fazem mal, j'ouviu?  bom no repetir a brincadeira!
A sua voz se vai animando aos poucos. Por fim quase grita:
-  bom no repetir a brincadeira, j'ouviu, seu Nestor? Ergue-se de repente. Neslor est desconcertado, Tio Couto
comea a caminhar dum lado para outra, a cara fechada.
- Vamos, vamos! No briguem, rapazes, no h razo para isso! - intervm o major.
No seu canto, Zzinho, palidssimo, arregala os olhos. Belinha tem a mo sobre o seio ofegante. Amaro continua ausente, olhos postos ainda, ningum sabe onde.
Clarissa ma! pode respirar. Tio Couto vai brigar? Oh! Porque  que o Nestor fala assim? Devia ter mais respeito. Finalmente  um guri perto do titio ...
Nestor ergue-se de mansinho:
- Com licena - diz.
Caminha, sem mais palavra, para a escada e sobe os degraus. Seus passos soam l em cima, no corredor; depois se apagam.
D. Zina sacode a cabea:
- Couto, Couto, voc sempre genioso. O menino no diz coisas por mal.
- Est claro - intromete-se o major-, est claro que no  por mal. Brincadeiras de rapaz.
Palitando os dentes, Gamaliel aplica ao caso --aus conhecimentos bblicos:
- Como dizem os Provrbios: Aquele que guarda a sua boca e a sua lngua guarda a sua alma de grandes apertos.
Tio Couto, a fisionomia ainda carrancuda, faz gestos desordenados:
--No mexam comigo. Sou muito bom, muito delicado, tal e coisa, mas no me toquem na dignidade. No admito. No a-di-mi-to!
o major se espreguia na cadeira, trocista.
- Qual! Qual! Qual! Tio Couto prossegue:
- Meu gnio  terrvel.  de raa. Tenho cinco generais na famlia. Minha gente tem tomado parte en todas as revolues do Ro Grande.
O major:
- Se  por isso, eu tambm tenho generais na famlia... E muitos.
-.Sou neto de farroupilhas, j na guerra do Paraguai, o Cel. Couto, que vem a ser meu av por parte de me ...
E Tio Couto conta uma histria que toda a gente j est cansada de ouvir. Clarissa a sabe de cor, melhor do que os pontos de Histria do colgio. O Cel. Couto, vendo que os seus soldados hesitam em atacar uma ponte, esporeia o matungn, levanta a espada no ar e berra com a sua voz mscula: -Quem for brasileiro que me siga! Foi um entrevero dos diabos. Com o herico coronel  frente, as foras tomaram a ponte, onde pouco depois tremulou o auriverde pendo da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balana....
Tio Couto conta a histria sempre da mesma maneira, com os mesmos gestos, as mesmas palavras, o mesno tom de voz. At as onomatopeias so as mesmas. Para imitar o estrpito das patas dos cavalos: procot - procot - procot! Para dar uma ideia do combate: Tei! Tei! Pum! Lpt! Lpt! Tei! Puni! T!
- Minha gente  de cabelo na venta - afirma Tio Couto, rematando a histria.
Tia Zina levanta-se e vai acender as luzes. Os cabelos gateados da Belinha, a juba ruiva do judeu, os cristais, as louas, os talheres -tudo refulge na luz.
Belinha, com voz langue e ar romntico, pergunta:
- Dona Ondina, a senhora vai hoje ao cinema?
- Se o Barata quiser ...
Barata resmunga qualquer coisa que tanto pode ser sim como no.
O judeu e Gamaliel comeam a discutir.
- Cristo no era o verdadeiro Messias - afirma Levinsky. - Cristo  o nico e verdadeiro Messias! -- contradiz o
prtico de farmcia.
Ondina agora est discorrendo sobre matria de sua competncia:
-No gosto daquela cara da Mirna Loy. Agora, a Sidney Fox, sim,  um encantinho ...
- Pois eu -afirma Belinha- prefiro a Glria Stevanson a todas as outras. Ainda no apareceu outra como ela.
- Passadismo.
Entre o protestante e o israelita a discusso se acirra. Citam-se o Velho e o Novo Testamento.
. Tio Couto, sereno, senta-se na frente do major e comeam a falar em. poltica.
- Quando foi da propaganda republicana...-comea o velho Pombo.
Clarissa, muito tesa na sua cadeira, est atenta a todos os rumores. L fora deve ser noite. Luzem combustores e estrelas. O vento traz para a sala o perfume de todas as flores do jardim. Os olhos de Clarissa danam dum lado para outro.
O refeitrio est agitado. Belinha e Ondina continuam a falar de cinema, modas, revistas. O major e Tio Couto censuram os polticos, traam novos programas de governo. O judeu e o farmacutico, entusiasmados ambos, gesticulam, contradizem-se,
citam... Tia Zina c D. Glria falam de doenas, da crise, de pontos de croch, e da vida. Amaro, sempre longe, brinca com uma bolinha de miolo de po, num silncio de sonmbulo.
Vozes diferentes que se cruzam e chocam no ar macio - vozes mansas, estridentes, sumidas, engasgadas, guturais, de mistura com o ruido de cadeiras que se arrastam, cristais e metais que retinem, tosses, pigarros. O judeu fuma. E a sua vozinha estrdula lhe sai da boca de mistura com as baforadas de fumaa que sobem ao tecto, em espirais dum cinzento-azu-lado. O major pita um crioulo. Tio Couto pica fumo com um canivete, a palha atrs da orelha.
Clarissa est encantada no meio de todo este movimento, de toda esta balbrdia. Estranha as fisionomias. Expresso de felicidade, de dio, de aborrecimento, de serenidade, de indiferena, de ternura, de inveja. Caras que parecem mscaras que as pessoas mudam a cada instante.
Mal pode acompanhar as discusses, pois as palavras, as frases, as interjeies, os gestos se misturam, se fundem e confundem. Ah! Mas  uma confuso colorida de feira!
Regenerar a repa... a vida ... expulso da Palestina ... polticos profissionais ... no admito vestido de seda azul... cinema... corrompidos ... insulto  crena crist... que diz? ... revoluo ... ordem ... crise ... rins ... Greta Garbo ... So Pedro negou trs vezes ... tomar ch de pata-de-vaca ... guerra com o estrangeiro ... a Dona Tat melhorou? ... bem aventurados os Pobres de esprito... ouviu?
Clarissa sorri ... Como a vida  engraada!
Barata, repoltreado na cadeira, colete desabotoado, est numa modorra de jibia enfartada. Tio Couto e o major soltam para o tecto pesadas baforadas de fumo. No meio da leve cerrao azulada que flutua no ar, a cabeleira do judeu  uma nota viva e flgida.
Mas que mistrio haver na vida de Amaro? Sempre calado, ausente, abstracto, tristonho... Qual ser o segredo de Belinha? Quem ser o seu amor? Quem teria sido o marido da D. Glria? Um general? Um dentista? Um alfaiate? Porque ser que o major nunca se casou? Hoje poderia ter filhos e netinhos que lhe viessem pedir a bno antes de dormir ...
E Gamaliel, com a sua roupa lustrosa, o seu narigo fino e comprido, a sua Bblia de capa surrada, o seu cheiro de far-
macia - que esquisito  tambm o Gamaliel! O judeu, nem  bom pensar... Com a sua juba de leo, os dentes escuros, a pele vermelha e sardenta, enrurvadinho, olhos iguais aos do Mirefufe, brigo, discutidor... E Nestor? Barulhento, cnico, intrometido. Quanta roisa ela sabe do Nestor! Como ele gosta de olhar para a Belmira, de dizer-lhe gracejos, pisrar-lhe o olho...
Oh! Todas as pessoas tm o seu mistrio - pensa Clarissa.- Como a vida  boa, como a vida  divertida!
Uma vontade formigante de conhecer todos os segredos e todos os mistrios a empolga.
- Titia, posso sair? - pergunta.
D. Zina faz com a cabea um sinal afirmativo.
Clarissa desce para o jardim.
 preciso respirar, tomar ar, esquecer por um instante o tumulto. Porque ela tem vontade s vezes de abraar toda a gente, de ser boa para com todos - at para com o judeu sardento, at para com o gordo Barata. Um desejo de falar com todos, de perguntar coisas, muitas, muitas coisas, de fazer que os outros lhe contem, sem omitir um pontinho, todo o mistrio da vida, todos os segredos das criaturas.
No jardim h zonas de luar e de sombra. Belmira e o namorado conversam ao porto. A estrelinha de fogo do cigarro do guarda civil j est acesa de novo. Passa gente pela rua. Dois homens param na calada sob o combustor aceso e conversam animadamente, gesticulam, falam ao mesmo tempo, exaltados. Depois se vo, num passo indeciso e tardo. Um automvel passa, veloz, numa corrida macia e silenciosa. Do outro lado da rua, dentro do rectngulo luminoso duma janela, recorta-se uma silhueta de mulher. Em baixo, na calada, junto da parede, o vulto dum homem se aquieta. Namorados. Ela  a Corina, filha dum funcionrio da Alfndega. Ele, empregado da Chefatura de Polcia. Um namoro j de dois anos. D. Tat j falou: Isto no sai. Tia Zina garantiu: Filha minha no faz namoro de janela. Zs-trs, o rapaz entra e logo trata o casamento ...
Clarissa senta-se nos degraus da escada e olha para o cu. Uma estrela risca o azul profundo.
- Meu Deus, eu quero uns sapatos de salto alto, quero sair aprovada nos exames e quero... quero um namorado...
E uma onda de sangue lhe aflora s faces.
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Clarissa bate palmas.
- D licena, Dona Tat?
Do fundo da sala escura vem uma voz cansada:
- Entre, minha filha.
Clarissa entra devagar. A casa de D. Tat cheira a hospital.  sombria, tem poucos mveis, e um soalho que ameaa afundar. s vezes um rato passa correndo, furtivo, beirando as paredes: e some-se, rpido, num buraco insuspeitado. A casa de D. Tat  triste e d um aperto no corao da gente.
D. Tat est curvada sobre a mquina de coser.
- Venho ver o Tnico...
No rosto amarelento se esboa um sorriso. Os olhos murchos se animam.
D. Tat faz um gesto amigo:
- Voc  muito boazinha, Clarissa. O Tnico fica muito contente quando voc vem.
Clarissa est triste e apreensiva. Parece que de todos os cantos vo surgir fantasmas. O soalho range sob seus ps. Nas paredes caiadas a humidade desenha longas figuras fantsticas.
- O Tnico est l fora ...
Clarissa desce ao ptio. Duas camisas de chita listrada pendem duma corda e se balouam ao vento, abandonadamente.
A sombra da casa se projecta no cho e vai aos poucos devorando a luz do sol.
Tnico est na sua cadeira de rodas.
- Tnico, estou aqui...
O menino doente volta a cabea devagar. Seus olhos baos fitam Clarissa.
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- Por que  que tu veio? Eu no te quero,.. Enjoada! Choraminga. No seu rosto de cera h uma expresso de
aborrecimento.
- Oh, Tnico! Mas eu no venho te incomodar...
- Vai-te embora, eu no te quero!
O corao de Clarissa comea a bater com mais pressa. Ela sofre, est perturbada, os olhos hmidos de lgrimas. Agora enxerga a paisagem atravs de um vu lquido. Tudo est esfumado e trmulo. Os soldadinhos de Tnico se estendem numa fila sobre os braos da cadeira: o vento os vai fazendo cair um a um. O menino doente cortou as pernas a todos os seus guerreiros, menos ao oficial de dlman vermelho que tem a espada levantada, na atitude de quem comanda um assalto.
- Tnico - faz Clarissa com voz sentida -. eu vim pra te contar histrias ...
- No quero, vai-te embora...
- Histrias bonitas...
- No quero, no quero, no quero!
- Olha, Tnico, era uma vez uma mulher que ganhou um filhinho to pequeno, to pequeninho, que cabia dentro dum chinelo. Pois um dia ela estava tirando leite da vaca e o guri se sumiu. Tu sabes onde ele estava escondido?
Tnico agora escuta, sem poder mais ocultar seu interesse. Mas de sbito uma ruga de contrariedade lhe vinca a testa.
- Estava na barriga da vaca. Ora! Essa histria  feia. Eu j conheo ... No quero, no quero!
- Escuta, Tnico, pois diz que era uma vez um gigante muito mau que comia as crianas e morava num palcio enorme em cima da montanha. Perto desse palcio, numa casinha de tbua, morava um lenhador...
- No gosto dessa, no quero, no quero...
- Ento no gostas mais de histrias? ...
Os lbios descorados de Tnico se encrespam numa expresso de desdm.
Clarissa aproxima-se mais do vizinho. Leva de mansinho a mo  cabea do pequeno mutilado, acaricia-lhe os cabelo* duros, sorrindo com os lbios e os olhos.
- Tnico, seja bonzinho, eu vou contar uma histria... uma histria bonita como tu nunca ouviste... uma histria de ... de ...
Tnico pe-se a bater freneticamente nos braos da cadeira. Os ltimos soldados tombam, rolam para o cho.
- De guerra! De guerra! De tiro! De soldado!
Sim... Clarissa concorda. Vai contar uma histria de guerra. Comea. Era uma vez um soldado muito valente ... muito valente... Esse soldado, um dia...
Cala-se de repente. Nunca leu histrias de guerra. Nunca ouviu casos de combates. Como  que pode agora inventar uma? H muito tempo, no cinema, viu uma guerra, muito grande, com aeroplanos, metralhadoras, granadas. Mas a histria  to comprida... Uma ideia de sbito lhe vem  mente: A histria do Tio Couto. Sim, a histria da ponte da guerra do Paraguai.
Anima-se, sorri, e conta a histria do Cel. Couto. Quem for brasileiro que me siga! Procot - procot - procot! Tei - pum - pm/ Para fantasiar, para dar mais encanto ao combate, Clarissa mete nele um aeroplano que vem roncando e semeando bombas, bombas que estouram -pum! bum! pum! bum!- metralhadoras matraqueando: t-t-t-t-t.
Tnico se remexe, desinquieto, seus olhos brilham por um instante, os lbios se lhe contraem, deixando ver os dentinhos agudos e amarelentos. E o menino doente acompanha Clarissa na omatopeia do combate:
- Pum! pum! T-t-t-t!
Quase salta na cadeira, contorce os braos, infla as narinas, d punhadas no ar, soltando gritos frenticos.
A histria acaba. As foras brasileiras tomaram a ponte. Agora Clarissa e Tnico tocam a marcha da vitria. Levando a mo fechada  boca,  guisa de corneta, sopram hinos e canes de guerra.
A alegria ilumina por um momento o rosto de Tnico. Contagiada pelo entusiasmo do amigo, Clarissa pega dum cabo de vassoura que est no cho, pe-no ao ombro e comea a marchar pelo ptio. Tnico marca a cadncia.
- Tan^rataplan! 7'an-rataplan!
Clarissa marcha. O entusiasmo do menino aumenta. De sbito, num desespero, Tnico comea a gritar: -? Eu tambm quero marchar! Eu tambm quero marchar! Clarissa d uma volta em torno do ptio. Sem se deter, faz sinais com a mo.
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- No, Tnico, tu s o general, tens de ficar sentado... Mas Tnico no lhe d ouvidos. Transfigurado, faz um
grande esforo, que lhe contrai o rosto; ergue-se na cadeira, estica a perna, procurando descer. O corpo todo lhe treme.
-? Eu quero marchar!
O corpinho magro perde o equilbrio. Tnico cai ao cho com um grito. Clarissa corre para o companheiro.
O menino mutilado est deitado de borco, a cara magra colada  terra, os braos estendidos, o corpo sacudido por soluos profundos, longos, convulsivos.
D. Tat aparece  porta.
- Meu Deus! Meu filho! Clarissa sente uma angstia mortal.
- Meu filhinho. Que foi, meu filhinho?
A viva toma o filho ao colo, beija-lhe a testa, acaricia-lhe a cabea.
- Dona Tat ... -balbucia Clarissa- eu ... eu ... Os olhos da me de Tnico fuzilam.
- No precisa se desculpar...
- Mas Dona Tat... eu no tenho culpa...
-- Quem tem culpa decerto sou eu que estava em cima da mquina trabalhando feita uma escrava.
Tnico solua baixinho. As lgrimas escorrem-lhe pelo rosto e pingam na camisa de xadrez.
Clarissa, a cabea baixa, leva a mo aos olhos onde as lgrimas lhe brotam, grossas e abundantes.
Os olhos de D. Tat, fitos nas pernas carnudas e rolias de Clarissa, tm uma fixidez e uma expresso de rancor que assustam.
Silenciosa e .trmula, Clarissa se afasta. Vai com um peso insuportvel no corao. Dentro da ca^a da viva agora a escurido  maior. Os ratos se esgueiram pelos cantos, na sombra. O mesmo cheiro de hospital, de doena, de misria. Gelada de susto, Clarissa atravessa o corredor e ganha a rua.
Mais alguns passos e est no jardim de casa.
Respira, mais desoprimida, olha com ternura para as margaridas cor de ouro, para os cravos, para os malmequeres, para as rosas e as glicnias. Parece que todas as flores se preparam para dormir.
Dentro da casa brilham luzes. Passam vultos negros no recorte da janela.
Do outro lado, na casa rica, vem o som do rdio. Uma msica saltitante. Todas as janelas esto iluminadas. No terrao brincam as crianas. Fazem roda. Cantam:
A canoa virou pois deixaram ela vir ... Foi por causa da Luzia que no soube rema!
Quatro crianas. Todas gordas, coradas, fortes, todas ss. Dentro da casa rica no h sombras, nem ratos furtivos, nem cheiro de hospital, nem uma mulher plida que trabalha curvada sobre a mquina de coser... No ptio da casa rica no mora um menino mutilado que tem vontade de marchar.
Clarissa olha para o cu e pensa:
- Meu Deus, eu no compreendo!
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Primeiro tudo est confuso. Um campo enorme a perder de vista. Ser a estncia do papai? . Mame est no alpendre, costurando. Papai passa a cavalo. Clarissa quer chamar:
- Papai!
Abre a boca, move os lbios, mas a palavra no soa... Que aflio! Alm, do outro lado da roxilha (ela sabe, ela adivinha) um bandido o est esperando, com uma faca na mo ...
- Papai! No vai! No vai!
Outra vez os lbios se agitam inutilmente. No alpendre j no  mais mame quem est costurando, mas sim a tia Eufra-sina, que faz croch. E a casa da fazenda j  agora a parede da sala de jantar da penso onde a sombra da tia Eurasina faz croch... L em cima, o seu Amaro bate no piano, bate no piano, como um louco... D. Tat passa de preto, arrastando a cadeira do Tnico. E Tnico grita, pula e faz caretas. Agora tem trs pernas.
- Clarissa, ganhei duas pernas novas! Duas pernas! Clarissa quer falar mas no consegue. Tnico parece um
bicho. D. Tat se some. E o seu Amaro est estrangulando o papagaio. Que aflio ficar assim, muda, parada, vendo tudo: o bandido emboscado, papai que vai para a morte, Tnico que cai da cadeira, e a tia Eufrasina que se pe a berrar:
- Levanta, Tnico! Levanta!
Que voz... Parece que vem do outro mundo. Que voz! Oh! Como tudo est confuso ... J no se move mais a sombra na parede. E que claridade  esta que vem nascendo, nascendo devagar? E ainda a voz:
- Levanta! Levanta!
Aflio. No poder falar ... No poder erguer os braos ... E tudo vai clareando. Clarissa abre os olhos, sem compreender.
Tia Eufrasna, mos na cintura, sarcde a cabea:
--Levanta, menina, ests aprendendo a ficar dorminhoca como o vagabundo do teu tio?
Tonta de sono, Clarissa senta na cama e fica olhando para a tia, fixamente, os olhos agora muito abertos.
- Titia -diz-, que horror! Tive um sonho to ruim, to aflitivo ...
Por que ser - pensa Clarissa - que a gente s vezes amanhece assim triste, olhos pesados, uma vontade inexplicvel de chorar, de abraar algum que nos possa passar a mo de leve pelos cabelos?
Hoje  feriado. No h aula. Apesar da folga, Clarissa no acha graa no dia. Tudo est to diferente ...
 hora do caf, o Nestor -bobo!- s conta proezas. No water-polo  o melhor jogador. Ningum sabe nadar como ele. Fala, fala, fala ... Parece o papagaio. Agora est deixando crescer um bigodinho. Bigodinho de cinema -- como diz a D. Ondina. Decerto quer ficar parecido com o Ronald Colman. Mas  bem como diz a Belmira: No tem pra ele! Enquanto fala, Nestor de quando em quando enviesa o olhar para o espelho da cristaleira. Decerto se acha uma beleza. Conserta de dois em dois minutos o n da gravata, passa dois dedos hmidos no friso da cala de flanela creme, alisa o rabelo com as palmas das mos ... Bobo!
Clarissa desvia os olhos, aborrecida. Ali na outra mesa, muito plido, Zez toma o seu ch com torradas. Outro sem graa. A tia Eufrasina  que diz bem (s escondidas, naturalmente): Um maricas! Um maricas!
 escusado: quando a gente amanhece indisposta, nada presta, nada tem graa...
Mandarim grita: Clariissa!
Ela nem sequer levanta os olhos para o papagaio. Pode gritar  vontade. No tem mais esprito. Tambm isto todos os dias acaba cansando.
Agora  a Belinha que vem entrando. E que vozinha tremida, que arzinho dengoso quando diz: Bom dia! Parece
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uma princesa. Pensa que vai pescar um marido assim? Pescavas ...
O caf tem um gosto estranho. Querosene?
- Belmira!--grita Clarissa.
Belmira aparece. Sempre o mesmo jeito de pouco caso. Mulata pernstica.
- Que  que houve?
- Alguma coisa caiu no ca ... Est com um gosto esquisito.
- Qual! Luxos ...
Clarissa arregala os olhos. Apela para o Zez:
- O senhor tambm'no sentiu?
Zez fica embaraado. Seus olhos danam de Belmira para Clarissa. E  com um penoso ar de dvida que responde: - ... ... eu pelo menos no senti... Talvez... E sorri amarelo. Clarissa volta-se para Nestor:
- O senhor no sentiu?
Arranjando o n da gravata, Nestor faz uma careta e imita a voz da Belmira:
- Luxos! Luxos!
Clarissa sente crescer-lhe a revolta no peito. Um calor incmodo sobe-lhe ao rosto.
Insuportvel! Tudo contra a gente. Parece que se combinaram para contrariar, para provocar...
Afasta com,gesto brusco a xcara, o caf com leite se agita e transborda, lanando uma mancha morena sobre a toalha.
Clarissa sente uma vontade irreprimvel de chorar. Porque ela  iriuito infeliz, porque ningum gosta dela, porque no tem nenhuma amiga... Ningum a compreende. O Nestor, um estabanado. O Zez, um maricas. A Belmira, uma negra muito pretensiosa. Titia s sabe ralhar. Belinha se d muita importncia. O seu Gamaliel s cuida da sua botica e da sua Escola Dominical. O Barata parece um porco: vive para comer e para contar anedotas. D. Ondina s pensa nos mocinhos do cinema. O Tio Couto mais dorme do que faz outra coisa. Sem uma amiga, sem uma companheira, longe da mame e do papai ...
E esta bola que cresce dentro da gente, que sobe  garganta, que sufoca...
Duas lgrimas aparecem nos olhos de Clarissa, que se esfora para no chorar aqui na frente de todns. Mordendo os lbios, as mos apertando o rosto, ela sai do refeitrio e entra no quarto.
Mas por que ser que assim de repente, duma hora para outra, a gente se enche de alegria, dum contentamento muito grande, que d vontade de abraar a todos, de danar, de pular, de correr daqui para ali, de... de... nem se sabe de quanta coisa mais!
H pouco entrou no quarto para chorar. De repente lhe invadiu o corpo uma sensao boa. Toda a opresso passou.
Agora ela sorri. Seus olhos crescem ...
Vai para a frente do espelho. Aproxima-se bem do cristal.  com ternura que se examina. Olha-se bem nos olhos, apalpa-se, e num acesso de ternura comea a beijar os prprios braos, quase com gulodice, com uma vontade estranha de mord-los.
Canta. Que msica  esta? Nenhuma. Uma toada que ela vai inventando ao acaso, feita de pedaos de msicas que j ouviu.
Vai dizendo as palavras  toa. No tm nexo. S para cantar ... Canta em aaaa, em iii.
Mas no basta cantar.  preciso correr. Clarissa pe-se a correr ao redor do quarto. Ao passar por perto da parede, beija, rpida, a imagem de Santa Teresinha. Depois se detm junto da cmoda e esmigalha nos dentes uma rosa branca que pende do vaso de vidro azulado.
Mas isto ainda no  suficiente. O quarto  to pequeno ... Clarissa passa para o refeitrio agora deserto. Os copos e clices na cristaleira coruscam ao sol da manh, que salta para dentro, atravs das janelas escancaradas. Como tudo fica bonito, tocado de luz! Micefufe est deitado na faixa dourada que se estende sobre o linleo de losangos tricolores. Micefufe, com sua penugem amarela cheia de reflexos brilhantes, parece que est chispando fogo. Tem os olhos semicerrados. Ser que sonha? Clarissa ajoelha ...
- Micefufinho do meu corao ...
Estende os braos para o bichano. O gato desperta, arregala os olhos verdes e vidrados, levanta-se, encolhe-se todo arrepiado, numa atitude de defesa...
- Micefufe querido, no ests conhecendo a tua amiga?
As mos de Clarissa quase tocam o plo do animal. Micefufe, num salto, se esgueira e foge. Fora da zona luminosa, o plo do gato como que se apaga.
Clarissa se levanta, corre para o alpendre. No poleiro prateado Mandarim sacode as penas.
- D c o p, meu louro!
O papagaio dana, ginga, estica o pescoo, levanta a pata, sacode as asas molhadas, projectando no ar gotculas de gua, que fascam.
No ptio. Clarissa senta-se nas bordas do tanque e comea a riscar com o dedo a superfcie da gua azulada. Escreve nomes. Clarissa, titia, Tnico, Dudu. Mas o brinquedo logo a enfastia. Com um tapa corta a gua, que se encrespa em ondas minsculas. Clarissa pe-se a rir: tem a impresso que o cu dana, as nuvens danam, a luz dana na gua agitada ...
De sbito comea a gritar e a correr, pondo em pnico as galinhas. Cacarejando, a bicharia foge, num bater de asas.
Cansada, Clarissa pra ofegante, deita-se no cho, de costas,  sombra dum pessegueiro, ("orno est moma a terra, e como  spera e dura... Espreguia-se. Tem as faces avermelhadas. Sorri ainda. Os seus seios se agitam. Fica olhando, muito atenta, para as formigas que vo e vm em duas filas, longas, cada qual a carregar o seu fardo.
Ser que as formigas tm lngua como a gente? Oh! Claro que tm. Clarissa observa ... De quando em quando duas formi-guinhas - uma que vem, outra que vai -- param, aproximam-se e ficam quietas por um instante uma na frente da outra. Que ser que esto fazendo? Naturalmente conversando. E qut diro?
- Boa tarde, comadre.
- Boa tarde. Tem trabalhado muito?
- Tenho. Veja s o que eu vou carregando nas costas.
- Oh! A senhora  muito forte...
- Como vai a famlia?
Quanta coisa se podem dizer as formigas ...
Clarissa lembra-se da histria da Cigarra e da Formiga que est na Selecta em Prosa e Verso. Por sinal o trecho ] lhe caiu uma vez em exame. Cantava? Pois dance agora!
Clarissa ergue os olhos.

Como est bonito o pessegueiro todo pintalgado de flores cor-de-rosa contra o cu azul! Atravs dos ramos ela olha as nuvens que biam no ar, como frocos de algodo. Ou como velas de grandes navios?
Clarissa ergue-se com uma repentina vontade de correr mais, muito mais... Como  boa a vida, meu Deus! E este sol, este sol, este sol!
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Olhando Clarissa que ainda corre e salta no ptio, Amaro sente como nunca o peso de sua imobilidade. Ele - o homem parado, a negao do movimento. Sempre ali, fechado com os seus poetas, os seus msicos, no quarto pequeno de solteiro. Sempre prisioneiro. L fora, as paisagens faiscantes, as raparigas em flor, um mundo que se oferece todo cheio de surpresas e de oportunidades de prazer e beleza.
Com um fogo estranho nos olhos, Amaro recorda.
O menino plido do passado tinha tido um sonho muito grande. Vontade de correr mundo, de ver, de ouvir, de viver...
Fez como o poeta:
There was a naughty boy A naughty boy was he, He would not stop at home, He coult not quiet be.
Sim, era uma vez um menino tolo que no queria ficar em casa, quieto... Achou que devia existir um mundo extraordinrio alm do horizonte ... Ento
He took
In his Knapsack ...
A book
Full of vowels
And a shirt...
Botou dentro da mala uma camisa e uma carta de recomendao que dizia assim: Meu ilustre correligionrio: Tenho o
prazer de apresentar-lhe o jovem Amaro Terra, um moo de muito talento que vai a essa capital  procura de emprego...
A me beijou-o muitas vezes, enxugou uma lgrima e deu-lhe mil conselhos. 0 pai ficou firme e disse: Um homem 6 um homem e um gato  um bicho, seu Amaro!
O rapaz desobediente acreditava na Glria. E partiu...
To the North
To the North
And followed his nose
To the North
Levou na mala a carta do coronel chefe poltico; na cabea,
uns rudimentos de msica aprendidos com o velho professor da vila; e no corao um grande sonho, to grande que nem ele prprio lhe conhecia os limites.
There was a naughty boy And a naughty boy was he, For nothing would he do But scribble poetry.
E o moo plido s pensava em um dia poder escrever grandes poemas e grandes sinfonias...
He ran
To the mountains And fountains And ghostes And postes And witches And ditches
Bateu cabea pelo mundo.
Principiou assim: o coronel no estava em casa. Depois continuou no estando em casa. Um dia, pegado de surpresa, disse que estimava muito o coronel l da vila, que teria muito prazer em servi-lo, que isto, que aquilo... mas que presentemente - sentia muito!- no havia vagas...
E o moo plido, na cidade hostil, achou tudo diferente. No via nas janelas as caras familiares que perguntavam:
- Bom dia, seu Amaro, como esto todos l em casa?
Os homens passavam apressados. Ningum conhecia ningum. E o mesmo estribilho por toda parte o perseguia: No h vagas ...
Que fazer? Voltar? Ou insistir como o naughty boy em
To fotlow his nose To the Nurth To the North ...
Amaro seguiu o seu nariz e ficou, E desde ento continuou ficando. Parado.
Veio o emprego do banco.
- Amanh talvez aparea outro melhor... Amanh. Vieram outros dias. Conformou-se. E os sonhos? E as sinfonias? E os poemas? Amanh...
Assim, dez anos. Sem variantes. Um dia acariciou a ideia de voltar  terra natal. Para ver a ruazinha humilde, com o cego que tocava concertina, o cachorro vagabundo que se refastelava ao sol, o vendeiro portugus ... Mas isso no passou de simples projecto. Amaro tinha sempre e sempre muitos projectos. Um tumulto de invenes, melodias, sinfonias, poemas ... Mas entre o plano e a realizao havia um abismo que era preciso vencer com um pulo. E Amaro nunca dava esse pulo... Medo? Ou via que tudo, no fundo,  intil, que todos os gestos no fim se desfazem em poeira?
Os outros dizem:
- O seu Amaro  um moo carrancudo...
- O seu Amaro no sabe rir...
- O seu Amaro  misantropo ...
- O seu Amaro no gosta de ningum ...
E no entanto, ele sofre em silncio. Quanta ternura recalcada, quanto gesto de carcia e> de complacncia corre no gelo do silncio e da imobilidade. Ele olha para todas as criaturas e para todas as coisas com uma profunda simpatia, mas com uma simpatia que jamais se transforma em gestos ou palavras. s vezes tem uma vontade inenarrvel de sorrir para toda a gente que o cerca, de revelar toda a sua cordialidade e toda a sua compreenso numa frase, num sorriso, num acto ... Mas o esprito de anlise intervm, destruidor, disseca todas as ideias,
e mata o gesto... Fica ecoando no ar a pergunta que os lbios no fizeram, mas que a mente no cansa de formular: Para qu? E depois, mais forte que tudo a sua timidez...
E assim ele passa pela vida em silncio, de olhos baixos, sem olhar nem sorrir para ningum.
There was a naughty boy ... que tinha um grande sonho ...
E agora ele est aqui - rumo dos quarenta anos,  janela dum quarto de penso, olhando para uma menina em flor que rodopia ao sol...
Clarissa dana. A sua sombra mancha de escuro a terra cor de ocre. Batido pela luz crua da manh, o muro raiado em lampejos de metal.
0 menino doente est no ptio da casa vizinha, tomando sol. Tem a cabea recostada no espaldar da cadeira. Est imvel, parece at que dorme.
Os olhos de Amaro fitam ora Clarissa que dana, ora Tnico que guarda uma imobilidade de esttua.
O papagaio grita estridulamente. Micefufe caminha por cima do muro, cauteloso, manso, traioeiro, negaceando o tico-tico que est pousado num talo da roseira.
Vem do corredor urn rumor de passos.
Clarissa esconde apressada o livro que est lendo. Olhos parados, fica imvel, escutando. Os passos se afastam, morrem no fundo do corredor. Clarissa toma a abrir o livro.
Um romance. Tem de ler s escondidas. A titia no gosta de livros que nao sejam os do colgio. Diz que os romances prejudicam a cabea duma menina que estuda.
O nome do livro : A 0ue Morreu de Amor... Est no quinto captulo. E com uma curiosidade enorme de saber se Mrcio no fim vai casar com Elfrida. Oh! Ela imagina o Mrcio um moo alto e simptico como Gary Cooper. Tem de s"er assim, mesmo que o autor do livro no queira. Elfrida, lourinha delicada, s pode ser assim como a Jean Harlow, com a diferena de que a herona do romance  calma, quieta, comportada. Mrcio  pintor. Elfrida, filha de um milionrio. Os dois se encontram numa' exposio de quadros. Olham-se, gostam-se, falam-se. Mrcio volta para casa, encantado. Mora numa mansarda. Por que  que nos romances sempre h mansardas? E que ser mesmo mansarda? Deve ser uma casa muito velha, muito pobre. Com Mrcio mora Alfredo, um msico. Quando Alfredo apareceu no romance, Clarissa pensou logo em Amaro. Porqu? Porque o Alfredo tambm  msico? No foi s por isso: foi porqu tambm o Alfredo  triste e calado como Amaro. Oh! Mas o Mrcio  um rapago alegre, corado, que canta no banheiro, que joga tnis...
Clarissa est to absorta na leitura que nem ouve os rudos da penso: a cantiga molenga e desafinada da Belmira que est na varanda arrumando os pratos para a janta, as risadas do velho Nico Pombo, a msica do rdio que vem da casa grande da vizinhana.
Mrcio e Elfrida encontram-se  beira dum lago. Os salgueiros inclinam-se sobre a gua que o sol tinge de ouro.
- Elfrida, desde que te vi, tens sido a minha inspiradora. Sinto que estimulado por ti realizarei um dia uma grande obra de arte que me imortalizar!
Clarissa v, v de verdade. Gary Cooper est na frente de Jean Harlow. Elfrida sorri, com seus olhos verdes como salgueiros mergulhados nos olhos escuros do namorado.
Clarissa enxerga o quadro, com uma nitidez surpreendente, como se tudo estivesse acontecendo ali no quarto, como se o lago fosse o espelho e o salgueiro o estore esverdeado da janela.
Clarissa ergue os olhos e fica pensando ... Ela se chama Clarissa por causa dum romance. Antes de nascer lhe tinham escolhido j um nome: Henriqueta, que era o nome da vov. Mas aconteceu que papai andava entusiasmado com um romance que tinha uma personagem muito simptica chamada Lady Clarissa. Papai sempre conta isto. Lady Clarissa era uma alma anglica num corpo de fada. Palavras que a gente nunca esquece. Pois Lady Clarissa protegia os pobres e dava-lhes de comer s ocultas do marido - um senhor feudal de bigodes enormes e ar feroz.
Papai bateu p e disse: Se for mulher h-de-se chamar Clarissa. Se for homem ser Olivrio, em homenagem ao av. Clarissa, por causa dum romance... Lindo!
O vento agita os salgueiros. Mrcio e Elfrida, de mos dadas, fazem castelos no ar... Uma casinha de telhado vermelho, entre rvores, uma vida tranquila. O sol aos poucos se vai escondendo. Brilham no cu leitoso as primeiras estrelas. Elfrida se sobressalta.
- Oh! meu amor! Tenho de ir. Vai-se fazendo noite. H uma splica comovente no olhar do mancebo:
-.Perto da luz de teus olhos -diz ele- eu no vejo a noite.
Uma pausa longa. ;
De repente, das" moitas sombrias emerge um vulto negro. Uma voz lenta e grave risca o silncio:
- Miservel caador de dotes! No me roubars a minha Elfrida.
 o pai da moa.
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Clarissa sente o corao bater-lhe apressado... Oh! Que susto, meu Deus. Pobre Elfrida! Pobre Mrcio! Que ser deles? Que ser?
Foi como se o cho se abrisse aos ps do mancebo ...
A porta do quarto se abre de repente.
Clarissa levanta a cabea, assustada.
- Clarissa! Querida!
Uma mancha de vermelho vivo contra a porta esmaltada de branco.
 Dudu, muito loura, dentro de um vestido berrante. Clarissa ergue-se, sorrindo.
- Minha querida! Beijam-se.
- Que surpresa!
- Que estavas fazendo? Clarissa mostra o livro:
- Nem imaginas o susto que me deste. Eu estava lendo isto ...
Dudu olha o ttulo. Faz um gesto depreciativo: -. A Que Morreu de Amor. Conheo essa droga. A tia Beta tem. Pura besteira...
Clarissa fez uma careta de censura:
- Olha, Dudu, um livro to bonito, nem deves dizer isso ... Dudu d uma reviravolta. Arranca com gesto rpido o
chapu. A cabeleira loura como que explode, brusca como uma labareda.
Clarissa olha-a com uma ateno cheia de ternura.
No rosto mido de Dudu,  primeira vista, a gente s enxerga os olhos muito negros e grados: depois  que v a boquinha minscula, o nariz levemente arrebitado, e a pele. branca, muito alva, com uma leve penugem dourada.  alegre, desinquieta e -ser que se pode dizer assim?- brilhante... Tem a voz grossa meio rouca, e uma maneira de falar toda especial: Te digo, benzinho!  da pontinha!  do outro planeta! Dudu! Dudu que tem liberdade, sapatos de salto alto, vestidos bonitos, namorados,:. Dudu que vai ao cinema e aos bailes quando quer... Dudu!
Clarissa estende os braos para a amiga.
- H quanto tempo no vinhas me ver? Dudu sorri, mostrando os dentes midos.
- Voc, tambm, vive entocada...
- Ora... mas tu compreendes... a titia...
- Te digo, benzinho, esta vida me matava ...
Dudu atira-se na cama de Clarissa. O colcho fofo afunda. A rapariga loura estende os braos num espreguiamento. Clarissa a observa, maravilhada.
- Ento, ainda no tens namorado? Clarissa sacode a cabea: no.
- Boba! J no s mais criana. Com a tua idade botei salto alto e comecei a namorar o Nelson, quintanista de Medicina ...
- Dudu, ainda namoras o Carlinhos? Dudu ergue-se de chofre.
- Nem me fales no Carlinhos.
Sua fisionomia assume uma expresso de seriedade surpreendente. Clarissa estranha:
-? Mas que  isso, Dudu? Que foi que aconteceu?
- Imagina o que eu descobri ... Os olhos de Clarissa interrogam.
- Pois descobri que o Carlinhos tem uma amante...
- Uma amante?
- Sim. Uma a-man-te! No compreendes? Uma mulher que vive com ele, como se fossem casados...
Clarissa est perplexa, uma ruga na testa, a sobrancelha alada, pensativa, sem compreender muito claro.
- Nao sabes o que  uma amante? Pois quase todos os homens tm amantes ...
Clarissa continua imvel, em espantado silncio.
- ; isso - diz Dudu num tom de desprezo.-Tu vives lendo esses romances de colgio de freiras. No admiro que no saibas certas coisas.
Dudu ergue-se, vai at  janela, debrua-se para fora. Volta-se de sbito.
- Clarissa, pelo que vejo, vais para o cu, feita anjinho. Ouve-se, vindo da rua, o grasnar duma buzina de
automvel.
- Olha, benzinho, eu me vou. O auto do Lucas est l na rua: veio me buscar. Adeus!
Beijam-se de novo.
Dudu sai a correr. Clarissa segue-a.
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Na sala de visitas, no seu estabanamento, Dudu quase derruba um vaso. Desce as escadas quase a voar. Na frente da calada acha-se parada uma baratinha azul. Ao guidom, um rapaz moreno vestido de cinzento. Dudu senta-se'ao lado dele, com desembarao. O motor do automvel ronca. O carro arranca e se vai, macio, rua a fora.
Dudu faz um adeus com a mo:
- Good hye, benzinho!
Clarissa, perplexa ainda, levanta a mo: - Adeusinho!
O auto desaparece na primeira esquina. Clarissa se volta. D. Eufrasina lhe surge pela frente, mos na cintura, cara fechada:
- Eu ainda acabo com essas amizades. Um dia bato com a porta na cara dessa desfrutvel.
Clarissa atravessa a varanda. As palavras de Dudu ainda lhe soam na mente:
--Pois quase todos os homens tm amantes...
Porqu esta vontade de chorar? E este medo? E esta inquietude? Que lhe importa se Carlinhos tem uma amante... Mas quase todos os homens tm amantes... Papai ter? Oh! Como mame choraria de pesar se ele tivesse ... E Tio Couto? E seu Amaro?
Clarissa fecha a porta do quarto.
Parece que Dudu ainda est ali estendida em cima da cama, rindo e sacudindo a cabeleira de ouro.
- Boba! Quase todos os homens tm amantes...
A vida tem segredos terrveis, a vida tem coisas que apavoram mesmo que a gente no as compreenda bem claro.
Clarissa est deprimida. Dois sustos, duas comoes fortes, uma aps outra. Primeiro foi a apario sbita do pai de Elfrida, que a surpreendeu em colquio amoroso com o pintor. Depois a revelao espantosa de Dudu: Quase todos os homens tm amantes...
Clarissa mergulha a cabea, nos travesseiros e chora, chora porque as coisas ms acontecem no s nos romances mas tambm na vida ...
14
Domingo.
Os sinos cantam. A luz cor de mel da manha nova incendeia os pingos de sereno que ficaram nas corolas, nas folhas, nos telhados.
A voz de D. Zina quebra o silncio:
- Apura, Clarissa! Olha que o sino j deu o primeiro sinal.
Na sombra fresca do quarto,  frente do espelho, Clarissa ajusta na cabea o chapu de palha de abas largas e moles, enfeitado de florinhas primaveris.
Um vento quase gelado entra pela janela, inflando os estores, fazendo oscilar na parede a imagem de Santa Teresinha, folheando em desordem as folhas finas do missal, pondo arrepios na pele da gente.
No soalho tnuemente sombrio, a janela projecta um quadriltero alaranjado, onde se agita a sombra rendilhada duma roseira.
Clarissa cantarola, puxa o chapu para a direita, para a esquerda, recua dois passos, detm-se, olha, sorri, fica sria de novo, aproxima-se outra vez do espelho, puxa o chapu mais para a frente, torna a recuar, a olhar, a sorrir... Assim est bem, mas assim fica melhor. E o vestido? Oh! Maravilhoso. O verde fica bonito contra a pele morena. Est justo como uma luva. A gola de pique branco  um contraste vivo.
E se ela se pintasse como a Dudu? Se deixasse ainda mais vermelhos estes lbios, ainda mais negras estas sobrancelhas, ainda mais coradas estas faces? Qual! Pintura  para a Belinha, que no tem cor... ou para a Dudu'que gosta de exagerar... Agora, se a titia lhe desse sapatos de salto alto  que seria um encanto, um verdadeiro encanto.-- Ficaria uma mocinha per-
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feita. Os. rapazes conhecidos lhe tirariam o chapu. Os desconhecidos olhariam para ela, admirados. E perguntariam:
. -Quem  aquela senhorita graciosa que vai ali, de vestido verde?
Enfirn ...  preciso ter pacincia. A gente nunca faz tudo o que quer, porque no fim de contas...
- Depressa, menina!
- J vou, titia!
Clarissa apanha o missal. Lana mais um olhar para o espelho. Empertiga-se. Pe-se de perfil, enviesando os olhos. Um detalhe lhe fere a ateno. S agora o espelho lhe faz a revelao surpreendente. Os seios... uns seios que crescem e se acusam no relevo do vestido, francamente pontudos, bem visveis, bem pronunciados. Clarissa olha, abismada... Teriam crescido a noite passada? Ou se teriam desenvolvido atravs de muito tempo, sem que ela tivesse percebido?
Os seus olhos se agrandam. Clarissa se apalpa, medrosa. Isto estar certo? No ser feio, grande Deus, no ser ridculo? E se ela ficar assim com uns seios enormes, moles e cados como os da tia Eufrasina, como os da D. Tat? Como a vida tem mistrios, como a vida tem coisas que assustam...
Um pensamento a tranquiliza: Dudu tambm tem seios crescidos, pontudos... Deve ser natural. Todas as moas tm. Os homens decerto que no. Mas ... e as crianas, as meninas?  claro que quando os seios crescem  porque a gente est ficando moa... Deve ser natural, deve ser direito... Deve...
- Clarissa! Vens ou no vens? Clarissa?
Com passo mido e rpido deixa o quarto. Tia Zina a est esperando na sala de visitas, escarrapachada sobre uma cadeira, entalada dentro da cinta, que a comprime i martiriza, os ps penosamente metidos em sapatos de verniz.
- Como a titia est bonita!
- Deixa disso, vamos embora que j no encontramos mais lugar na igreja...
Saem. Tia Zina vai gingando e gemendo:
- Estas banhas do inferno so o meu suplcio. Toda a vez que tenho de botar cinta  isto, uma coisa horrorosa. A coisa mais triste do mundo  a gente ser gorda.
No jardim as flores flamejam. O canteiro das margaridas  uma chama dourada que di nos olhos. O vento agita os
malmequeres brancos, de caules longos e finos. Contra o verde lustroso e macio da relva, gritam os cravos vermelhos. As glicnias balanam os cachos roxos ao longo do muro branco e flgido, onde se v tambm o vermelho mvel das rosas. O areo do solo tem cintilaes vivas e midas.
Os sinos tornam a badalar. Parece que a sua msica prolongada e vibrante deixa mais claro o ar.
D. Zina e Clarissa caminham, passo acelerado.
Na rua que se estende a perder de vista, h zonas de sol e de sombra. As vidraas coruscam. Passam automveis, carroas, homens, mulheres, crianas. As mulheres e as crianas mandiam de cores vivas a cena urbana. Um vendedor ambulante canta:
Oia Ia manzanaaaa...
O prego  um pedao duma toada napolitana. O vendedor traz no brao um cesto cheio de mas muito rubras e lustrosas.
Os sinos continuam a bimbalhar.
D. Zina geme. Clarissa vai como que voando, bebendo ar e luz pelos olhos, pela boca, pelas narinas, pelos poros.
- Reza hoje pra o teu pai vender o gado, Clarissa.
- Sim, titia.
- Reza pra eu alugar aquele quarto do segundo andar.
- Pois sim, titia.
- Reza pr teu tio arranjar emprego.
Tia Zina funga e ofega. Clarissa vai andando, area, sem esforo, leve, como se tivesse asas. As abas do chapu bamboleiam, moles, pem-lhe no rosto iluminado uma sombra mansa que lhe vai at o meio do nariz, dividindo-lhe o rosto em duas zonas distintas. Dentro da zona sombria, os olhos fulgem. Dentro da zona luminosa, os lbios ainda ficam mais encarnados.
- Deus queira que a gente ache lugar--murmura D. Eufrasina.
Clarissa no responde, no ouve, no atende.
Anda longe, numa viagem maravilhosa. Agora est na estncia, com papai e mame, no campo aberto, pernas mergulhadas nas macegas hmidas e speras, cabelos soltos ao vento das coxilhas. Depois j est mais longe, num pas desconhecido.  Lady Clarissa que d comida aos pobres, num
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desafio ao marido truculento e bigodudo. J agora est com Mrcio e Elfrida,  beira do lago azul sobre o qual os salgueiros se debruam. Pouco depois j nem sabe mais onde est:  um pas muito bonito, onde o Tnico tem duas pernas, D, Tat tem dinheiro, a titia alugou o quarto do segundo andar, o Tio Couto achou um emprego, seu Gamaliel ganhou uma roupa nova e seu Amaro aprendeu a sorrir.
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Sentado no banco do jardim, Amaro l os seus poetas.
As folhas da rvore que lhe d sombra desenham arabescos mveis nas pginas do livro.
O jardim  uma festa. Passa no ar uma borboleta amarela, como uma folha de papel de seda levada pelo vento. Um besouro zumbe em torno dum canteiro. Uma rosa se despetala lentamente e as ptalas rolam para o cho. H pelos canteiros verdes de todos os matizes. As glicnias perfumam o ar. Por entre a relva se arrastam insectos minsculos de asas coloridas.
Amaro fecha o livro e olha o jardim. Por que ser que lhe vem  memria a imagem de Clarissa? Clarissa  parte integrante deste jardim florido e luminoso, Clarissa  como a relva veludosa, como as glicnias, como as margaridas, como as rosas. Clarissa  qualquer coisa de agreste e puro. Clarissa  msica e  poesia, menina e moa - olhos abertos para o mistrio da vida, alma que amanhece.
Amaro recorda com amargura que na sua adolescncia sentiu passar pela sua frente raparigas em flor, sem sequer levantar os olhos dos livros em cuja leitura mergulhara. Elas cantavam e riam ao sol. Ele -insensato- pensava que a vida estava s nos livros...
Agora  tarde. Tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade no se repete.
A hora rtila de Clarissa passar tambm. Amanh ela se far mulher de todo. Professora, ir para a sua cidade natal, onde decerto casar com o filho dum fazendeiro rico. Sero muito felizes, tero muitos pimpolhos gordos. Clarissa ganhar fartas carnes, ficar como a tia, ser uma esplndida dona de
casa, que h-de saber fazer gostosos doces, e queijos, e bolinhos ...
Uma nuvem de tristeza empana os olhos de Amaro. Ele se ergue quase sem sentir. Pe-se a caminhar dum lado para outro, mos s costas, o pensamento solto ...
Clarissa! Agora ela  poesia, ingenuidade, ternura, incompreenso, encantamento... Para ela a vida est cheia de surpresas e de atraces irresistveis. Mas amanh que vir? Amanh? A dissoluo, a deformidade do corpo e do esprito. Hoje - a menina verde, fresca, risonha. Amanh - a matrona gorda, senhora respeitvel que sabe em que ms devemos plantar couves, que no acredita nessas bobagens dos poetas, e que nem sequer h-de saber ensinar aos filhos a mentira bonita dos contos de fadas. Dir-lhes- com uma voz rida:
- As fadas no existem, nem as varinhas de condo. Os poetas s dizem mentiras. Vocs devem mas  aprender as quatro operaes, a curar bicheira e a dar banho de carrapa-ticida no gado. Isso  que vocs devem aprender, pra juntar dinheiro, povoar a fazenda, comprar mais campo e ganhar prestgio poltico ...
Amaro procura apagar o pensamento mau.
Agora compreende mais que nunca que s na arte a beleza  imortal. Canta-lhe na cabea o verso de Keats:
A thing of beauty is a joy for ever.
Na verdadeira arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graa.
Senta-se de novo, mais sereno.
Mas o momento luminoso de Clarissa ainda no passou. Ela vive aqui na penso, livre sob o sol, no quintal, no jardim, na sala, na varanda. Cantando, sorrindo, cumprimentando toda a gente ...
E ele a poder contemplar da sombra... Inspirado em Clarissa, h-de compor ainda muitas msicas frescas e alegres. A cano do minuto claro. A rapariga ao sol. Menina e moa. Uma suite de cor e movimento que h-de se chamar: Clarissa amanhece.
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H-de comp-la em segredo, muito em segredo. Ningum ficar sabendo.
E amanh, quando Clarissa for embora, na penso s haver caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam os seus draminhas escondidos, as suas mazelas, os seus cacoetes, as suas idiossincrasias, as suas vidocas, enfim...
A thing of beauty is a joy for ever ...
Amaro torna a abrir o livro.
Gamaliel atravessa o jardim, metido na sua roupa domingueira de sarja azul. Passo mido e apressado, vai contente, com a Bblia debaixo do brao.
Feliz-pensa Amaro.-Vai garantir o seu par de asas imaculadas para a Eternidade. Feliz!
- Bom dia, seu Amaro!
- Bom dia!
- Ento - pergunta Gamaliel, detendo-se por um momento - no vai a alguma missa?
Amaro faz um gesto negativo.
- Fico com os meus poetas ...-explica.
O farmacutico faz um gesto de repreenso:
- Herege! E preciso escutar a voz do Senhor...
- Oh ... Mas ele no me fala ... Gamaliel se aproxima de Amaro, apostlico:
- Falando srio, seu Amaro ... O Senhor nunca foi tocado pela graa do Esprito Santo?
- Que eu saiba ...
O rosto de Gamaliel tem uma expresso grave. Com a sua voz macia, declara solenemente:
- O senhor sabe que eu era capaz de perder a minha Escola Dominical hoje, s para convert-lo ao Evangelho?
- Acredito ...
O prtico de farmcia arranja o n da gravata. Silncio curto.
--Seu Amaro, o^senhor nunca teve mesmo uma revelao, . por pequena que fosse? Nunca lhe aconteceu nada de sobrenatural: um aviso, uma voz em sonho, uma graa qualquer do Altssimo?
Amaro tem nos lbios um sorriso amargo:
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- Um dia -diz- entrei numa igreja...
- Protestante? -interrompe Gamaliel, sfrego. ,- No me lembro... uma igreja...
- Orou, pediu f a Deus?
- No ...
- Ento que foi fazer l?
- Fiz como O'meu poeta -explica Amaro, mostrando-lhe o livro que tem na mo -, fui a uma igreja porque o seu silncio e a sua sombra fresca so propcios ao sonho e  leitura...
- E ento? Veio a revelao? Amaro sacode a cabea.
--No. Veio um cavalheiro que era sacristo ou coisa que o valha... Aproximou-se de mim e disse: 0 senhor desculpe, mas aqui no  sala de leitura ...
Gamaliel est escandalizado. Sorri amarelo.
--Garanto que no era igreja evanglica. Ns somos muito tolerantes, muito tolerantes!, E, depois, todos os homens so irmos ...
- Eu creio ,.,
0 prtiro de farmcia tira o relgio, impaciente.
- Mas, seu Amaro,  preciso tratar seriamente desse magno problema. Cuide da sua alma. Que ser dela na Eternidade? Olhe que um dia a morte vem e esses seus poetas no podero acudir o senhor no inferno... Quando a hora da morte chegar, pode ser tarde ... Cristo disse: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida ...
Olha o relgio, aflito.
- Olhe, est na hora ...
- Da morte?
- Seu Amaro, no brinque com essas coisas. At logo! Mas eu no desanimo. Tornaremos a falar no assunto. At logo!
Afasta-se, no mesmo passo mido e apressado.
E Amaro tem a impresso de que um bando de anjos rechoncudos seguem, protectores, o prtico de farmcia, voli-tando ao redor de sua cabea.
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Deus me perdoe - pensa Clarissa -, mas que vestido esquisito.
Clarissa tem a cabea baixa, o livro de oraes aberto sob os olhos vivos que esto mirando de soslaio uma mulher ruiva e gorda que sua e geme e bufa, apertada dentro dum vestido amarelo-canrio.
D. Zina cutuca a sobrinha com o cotovelo.
- Presta ateno na reza!-cochicha. Clarissa baixa os olhos.
- Eterno Pai, eu Vos ofereo o sacrifcio que da sua vida preciosa fez sobre a Cruz e renova agora ...
Zunzum abafado. O altar-mor rebrilha. A imagem de Jesus estende os braos num gesto acolhedor, corao sangrando.
- ...sobre este altar...
Na mente de Clarissa as ideias brotam em tumulto.
- Este altar? Aquele altar. Engraado. A vestimenta do padre  quase da mesma cor do vestido desta mulher gorducha. Deus me perdoe... o vosso dilecto Filho Jesus. Eu Vo-lo ... Vo-lo. Bolo ... Credo! ... Vo-lo ofereo em nome de todas as criaturas, conjuntamente com as Santas Missas ... Este cheiro, este cheiro enjoativo de violeta deve vir...
Levanta os olhos. No banco da frente reluz, hmida e lubrificada, a carapinha duma preta.
-... da cabea daquela negra, que Deus me perdoe, men! ... Oh! Mas  preciso rezar......e de Vos pedir humildemente por mim ... pela mame, pelo papai, pela tia Zina, pelo Tio Couto, pela Dona Tat, pelo filho dela, por toda aquela gente Ia da penso... pela Santa Igreja, por todo o mundo e pelas benditas almas do Purgatrio. men.
O incenso sobe. As imagens nos seus nichos tm agora um tom esfumado, como figuras de sonho. Pelas janelas ogivais entra a luz do sol. Os vitrais coruscam. H pelos bancos um mar agitado de cabeas, negras, louras, castanhas, grisalhas, brancas; chapus de todas as cores; uma confuso de formas, cores e movimentos. Junto de Clarissa uma senhora velha, vestida de preto, de quando em quando suspira.  magra, encarquilhada, tem o rosto cortado de rugas, uma boca que j engoliu os lbios, queixo saliente, olhos de rbitas fundas.  comt grande dificuldade, com gemidos e suspiros, que ela se ajoelhe e senta, e se ergue. Das mos magras de cera pende-lhe o rosrio,,
- Quando eu ficar assim ... {urna ideia horrvel se desenha na mente de Clarissa). Quando eu ficar velha, hei-de ter um vestido preto como este, uma carinha de tico-tico como esta, um rosrio encardido como este ... Hei-de andar encurvadinha. Os guris na rua vo-se rir de mim. Virei  igreja todos os dias e hei-de suspirar tambm muitas vezes. Quando eu ficar velha... Meu Deus, o Senhor no deixe nunca eu ficar assim!
Nos olhos de Clarissa h uma splica aflita.
Ela os fita no altar-mor. Parece-lhe que Cristo sorri e diz.
- Sim, Clarissa. No deixarei que fiques velha. Diante do altar o padre se ajoelha.
Clarissa aperta com fora o livro de reza, murmurando:
-  meu adorvel Jesus, comeais a Vossa Paixo no horto .. ?
Outra vez os pensamentos importunos que saltam de repente, traioeiros, burlando a vontade.
- Horto... que ser horto? ... Uma vez j a professora explicou... Horto... Horta...
Clarissa enxerga mentalmente a horta da casa dos pais: couves, repolhos, batatas, abboras e tomates ao sol; por entre as folhas verdes (a troco de qu at das pequenas coisas a gente se lembra?) passeiam insectos, bichinhos coloridos; os manduruvs cor de fogo esto colados aos troncos das rvores. Cesto pendente do brao, chapu de palha na cabea, mame apanha tomates para o almoo ...
Tudo isto numa fraco de segundo, num relmpago.
- Horto... horta... Pensamentos esquisitos.  o Diabo que vive tentando a gente, que quer obrigar a gente a desviar a ateno da reza... Gemeis... gemada, amarela, doce, boa,
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gemada, ovo. galinha, pinto... outra vez o Diabo! Gemeis, suspirais ... como suspira esta velhinha exclamais/ ... minha alma sofre uma tristeza mortal. Sim, a minha alma sofre uma tristeza mortal quando eu me lembro que o Tnico tem de passar toda a vida sentado numa cadeira de rodas, porque no tem perna e no tem sangue ... Vede todos os pecados do mundo, tambm as minhas muitas culpas ...
D. Zina reza. Escorrem-lhe pelo rosto moreno gotas de suor. O seu nariz reluzente e avermelhado  um contraste vivo no rosto branco de p-de-arroz.
- Os meus pecados... -pensa Clarissa- sim, os meus pecados. Deus, perdoa os meus pecados. Roubei a semana passada um merengue do guarda-comida. Colei na sabatina de Histria. Dei um pontap no Micefufe ... Tambm ele estava me incomodando, chegou a me arranhar a mo... Vede a srie de todos os tormentos que Vos esto preparados: os flagelos, os espinhos, os cravos ... os cravos ...
Aqui Clarissa v o jardim da penso com o seu canteiro de cravos vermelhos. Tia Zina tem um cuidado imenso, um amor enorme pelas suas flores. Diz sempre: So como minhas filhas. Deus no me deu filhos, eu cuido das flores.
Os sons do rgo enchem a igreja duma msica arrastada, longa, chorosa. Clarissa se lembra dum negro velho que tocava cordeona l na estncia. Chamava-se Robustiano. Contava histrias do tempo da escravatura. A msica da cordeona era assim como a do rgo, triste, funda, trmula, cheia de soluos.
Clarissa olha em torno. Junto da parede um sargento do Exrcito se perfila, muito srio, metido num fardamento de flanela caqui, botes dourados, divisas gradas. Um cavalheiro calvo, de pele terrosa e nariz arrebitado, tem os olhos pregados no soalho. Num banco prximo, uma mulher sardenta cochila. Acocorada no cho, junto dela, uma criana brinca em silncio. No seu nicho, So Jos tem nos braos o Menino Jesus, que nas mos dbeis segura o mundo. Nossa Senhora da Aparecida, de coroa dourada e vestido azul, sorri um sorriso de bondade. Um cheiro de incenso anda pelo ar luminoso. Agora os vitrais brilham com mais fora. O altar-mor corusca, como se fosse todo feito de jias.
Clarissa sente um arrebatamento, algo de estranho lhe invade o ser. Uma sensao esquisita, boa mas opressiva. Qual-
quer coisa de areo, de suave, de misterioso que faria a gente chorar muito se no fosse esta mo invisvel que aperta a garganta ...
--Estes santos, estas imagens, estes mistrios... Quantos segredos a vida tem! Porque ser que os santos no falam com a gente? Seria to bom... Confessar tudo, tudo,  Virgem Maria ... Dizer-lhe:
- Virgem Santssima, a senhora desculpe o meu atrevimento, mas l em casa h muita coisa que no est direita. 0 pobre do papai ainda no pde vender o gado. O Tio Couto faz seis meses que est sem emprego. A tia Zina ainda no encontrou hspedes para aquele quarto l de cima. O Tnico sofre muito, coitadinho. A Dona Tat tambm, por causa do filho e por causa da falta de dinheiro. O seu Amaro vive sempre triste, parece que  muito infeliz ... Virgem Maria, faa alguma coisa por ns. men!
A Virgem Maria sorri dentro do seu nicho cheio de sol. E Clarissa, encorajada, pede ainda:
- E para mim, Me Santssima, eu quero uma coisa, uma coisa... que tenho at vergonha de pedir...
Clarissa sente que lhe batem de leve no brao.- tia Zina.
- Levanta, menina!
Toda a gente na igreja est de p. A velhinha suspira. Agora  mais activo e nauseante o cheiro que vem da carapinha da negra. A mulher de vestido amarelo ofega, sua, limpa o rosto com o leno. A criana que brincava em silncio desata o choro.
A voz metlica do padr.e vibra no ar.
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Os sinos repicam.
Na frente da igreja h gente aglomerada, quase todos homens, rapazes bem vestidos, de roupas e gravatas vistosas.
Clarissa e a tia descem as escadas que levam  calada. D. Zina vai comentando:
-  um alvio quando a gente sai da igreja. Parece que fica mais leve, com menos pecados.
Clarissa mal a escuta... Seus olhos danam, de c para l, para o alto, para baixo, para a direita e para a esquerda. Por todos os lados, risos, vozes claras, gestos animados.
Ver outras pessoas, outras caras, outras vozes, outros vestidos... Sair da priso de toda a semana... Enxergar pessoas diferentes, que no so as colegas do colgio nem os hspedes da penso ... Respirar largamente, olhar tudo, ter a Uberdade de sentir o cheiro de gasolina dos automveis que correm pela rua, o perfume das pessoas bem vestidas... Olhar os rapazes, os velhos, as moas, as crianas, os cachorros. Ver casas, pedras, rvores, nuvens...
- Clarissa, ests tonta? Aonde vais?
S agora Clarissa percebe que se afastou tanto da tia que quase se vai perdendo no meio do povo. \Q. Zina d o brao  sobrinha.  beira da calada homens se perfilam. Um de luto, tristonho, gravata e chapu preto. Nem bonito nem feio. Outro de branco, gravata verde-musgo, chapu de palhinha. Sorrindo. Quase bonito. Mais adiante outro, alto, magro, olhos impertinentes, sorriso de pouco caso. Seria bonito se no fosse esse ar cnico. E que engraado  aquele sujeito baixote, grosso, de culos de aros de tartaruga, narizinho esborrachado, charuto no canto da boca. Que ridculo!
- Clarissa, no olhe tanto prs rapazes. Cuidado, j ests ficando moa...
A voz da tia Zina  severa. Clarissa faz uma careta de desagrado.
- Eu mal estou vendo os rapazes...
Mal? Qu! Ela tem um jeito de olhar, um jeito furtivo, dissimulado, assim como de quem no est interessada...
Mas na verdade enxerga tudo muito bem. Chega a notar at certas particularidades: a corrente do relgio, a cor da gravata, da bengala e at dos olhos. Que mal h em olhar? Para que foi que Deus nos deu olhos? Para olhar, naturalmente. Logo: olhar no  pecado.
Agora a fila de rapazes termina. A rua est movimentada. Os bondes passam, trovejando.
Clarissa:
- H quanto tempo no ando de bonde! E a tia:
- Pra que andar de bonde?
Sim, necessidade no h de andar de bonde. A igreja  perto. O colgio tambm. Mas no seria desagradvel uma corrida de bonde pelos subrbios. De automvel, naturalmente, seria melhor. Mas  muito caro. E se a Dudu a convidasse para andar no carro do namorado? Maravilha! Iriam correr pelos arrabaldes, pela beira do rio, a toda a velocidade ... Sim, mas a titia no d licena ...
- Titia, a senhora gosta de andar de automvel?
- Tenho horror. Boto as tripas pra fora. Enjoo como se fosse no mar. Uma ocasio tive de viajar ...
Clarissa no presta ateno no que a tia est contando. Porque a palavra mar lhe sugere mil pensamentos. Uma viagem em transatlntico de luxo, desses grandes como um que ela viu no cinema... Mas, por pensar em cinema, h quanto tempo tambm ela no v nenhuma fita!
- Titia, quando  que vamos ao cinema? D. Zina est sria.
- Menina - repreende ela -, voc agora pegou o costume de no prestar ateno no que a gente conta. Que coisa horrorosa!  falta de educao, sabes? No ouviu que eu perguntei se o seu pai vendeu sempre o Ford l da estncia? ...
- Ah! Sim. Vendeu o ano passado pra o seu Tico Saraiva.
- Eato responda e no se faa de tola. Ainda bem que isto aconteceu comigo, se fosse com gente de cerimnia era uma vergonha. Haviam de dizer que eu no te dou modos.
Passam pela frente dum bar. L no fundo, uma orquestra toca um tango argentino muito lnguido. 0 bandnion solua. Pela cabea de Clarissa passam duas imagens: o organista da igreja (que ela imagina um velho de barbas brancas) e o negro Robustiano, tocador de cordeona. A algazarra do bar chega-lhe aos ouvidos.
Delcia!, entrar no bar, sentar a uma mesa:
- Garon, me traga um sorvete! Uma taa de nata batida com morangos!
O garon vem com a bandeja no ar. Na taa de prata a nata batida, branca como cal, toda pintalgada de morangos. E o sorvete de trs cores, frio, frio, frio, fazendo doer os dentes, dando uma sensao esquisita na garganta, na lngua, na cabea...
- Garon, me traga um ice-creatn!
- Soda ou chocolate?
- Chocolate.
Clarissa nunca provou. Mas a Dudu j lhe contou tudo. Dudu frequenta bares e casas de ch. J provou de tudo. Sabe do gosto de todas as bebidas, de todos os sorvetes, de todos os doces. Como Dudu  feliz!
Na frente duma vitrina, D. Zina e a sobrinha se detm.
- Titia, que encanto!
Por trs do vidro, uma pirmide de mas vermelhas e luzidias, bem no centro. Em prateleiras pequenas enfileiram-se as pras dum verde-plido. Nos quatro cantos da vitrina, pratos de papelo cheios de morangos, felpudos, maduros, corados, em forma de corao. (Clarissa ao v-los se lembra imediatamente dum corao de galinha.) Em cachos fartos, gordas e gradas, as bananas se empilham em montes irregulares, como mos fantsticas de dedos espessos. Clarissa olha, deslumbrada.
- Titia! Titia! Que encanto! Eu no resisto... D. Zina olha, tambm levemente tentada.
-  que esta crise no est pra despesas. Se o teu pai tivesse vendido o gado,.. Se u tivesse toda a casa cheia... Se o Couto ...
- Titia, que encanto!
De repente Clarissa abre a bolsa. O seu rosto se ilumina. Estende dois dedos para dentro da carteira.
- Olhe s o que eu achei!
Levanta a mo onde brilha uma moeda de quatrocentos ris. D. Zina tem um ar interrogador.
- Vais gastar?
- Vou.
Entram na casa de frutas. Diante do balco de mrmore, por trs do qual est um homem ruivo, de avental branco, Clarissa pra, indecisa. Debate-se-lhe na cabea um problema difcil.
Para maa, quatrocentos ris  pouco. Compro morangos ou bananas? Morangos ou bananas?
O homem ruivo pergunta:
- Que desejam?
D. Zina cutuca a sobrinha.
- Vamos, resolve, menina.
Morangos ou bananas? Mentalmente Clarissa sente o gosto de ambos. Os morangos, levemente cidos, tenros, dissolvendo-se na boca. Com acar ficam mais saborosos. Sim,  prefervel comprar morangos. E as bananas? Descascadas, ficam branquinhas, moles, pastosas, doces. Quatrocentos ris dariam quase uma dzia de bananas. Uma dzia. Doze. Uma para tia Zina, naturalmente, O resto pra mim ... No, levaria duas para o Tnico. Se o Tio Couto tambm ganhasse ficaria ela com... - doze menos quatro: oito -oito bananas. Era melhor comprar bananas. Mas outra soluo lhe ocorre:
- Quero duzentos ris de bananas e duzentos ris de morangos - diz.
- S duzentos ris de morangos? -pergunta o homem do balco, estranhando.
- S.
D. Zina sacode a cabea, com um sorriso indulgente, meio envergonhada da infantilidade da sobrinha.
- Esta menina, esta menina... -murmura, sorrindo.
No pacote cor-de-rosa esto as bananas e os morangos.
Na rua, Clarissa lana um olhar de despedida e de desejo para as mas. Num quadriltero de cartolina branca, no meio delas, estas letras:
( )
C l$20 CADA UMA )
D. Zina pega de novo do brao da sobrinha. O movimento da rua cresce. Autos buzinam. Os guarda civis, com gestos, dirigem o trfego. Moleques apregoam os dirios. Clarissa acha graa nos vendedores de jornais. Tm uma voz grossa, rouca, disforme, parecem todos papudos, pescoos descomunais, de veias dilatadas. E como pronunciam o nome dos jornais que vendem! Dizem as palavras pela metade. Gritam: rr - dia - amanh! Ou: Corre - m'nh!
- Titia, que engraados esses guris que vendem jornais! D. Zina encolhe os ombros:
- No vejo nada de engraado. So uns pobres diabos que desde pequenos andam lutando pela vida. No so como outros que conheo que no fazem nada por achar trabalho ...
Clarissa sorri.
Isto  com o Tio Couto - pensa. - Tambm, coitado, no tem culpa. No trabalha porque no acha emprego.
Passam pela frente dum cinema. Os cartazes coloridos chamam-lhe a ateno. Num deles, Clive Brook est beijando Ruth Chatterton. A fita se chama Perfdia.
- Titia, que  que quer dizer perfdia? ...
- Onde  que viste isso?
- Ali no cartaz. O nome duma fita. Tia Zina faz um gesto de pouco caso:
- Fitas...
- Mas que  perfdia, titia?
- Sei l! ...
D. Zina franze os lbios numa expresso de desinteresse.
Agora esto no ponto mais movimentado da cidade. A rua por onde no transitam veculos est apinhada de gente. Parece um formigueiro agitado. Clarissa esquece a perfdia e o beijo de Clive Brook.
Quanta gente! ... -pensa. - Parecem formigas, umas vo daqui pra l, outras de l pra c, de vez em quando param uns na frente dos outros, conversam, depois seguem de novo
Q7

o seu caminho. Bem como as formigas ... Se as cigarras viessem pedir comida a estas formigas, elas responderiam: Que fizeram vocs durante o Vero?
- Cantmos ...-Cantaram? Pois dancem, agora. Como so ms as formigas!
De sbito Clarissa sente que a empurram. Que susto! Chocou-se com um senhor gorducho, que se desfaz em desculpas, tirando o chapu, muito plido.
- Estpidos! - resmunga D. Zina. - No enxergam quem vem na frente!
Dois segundos mais, e Clarissa esquece o incidente. Os seus olhos danam, curiosos, encantados. As pessoas passam por ela, ela passa pelas pessoas. Umas riem, outras esto srias. Caminham rpidas, brilham um instante, somem-se depois. Bem como uma fita de cinema. Clarissa mal lhes pode perceber as feies.
Agora num grupo vm ali na frente quatro moas: uma tem uma blusa cor de salmo, a outra  morena de olhos grados, a terceira  baixa e est de vestido branco... E a outra? Some-se o bando. Agora passa um casal. Ele, alto e magro. Ela, baixa e parecida com uma gatinha.
Clarissa vai como num sonho, encantada com aquele espectculo numeroso e variado.
- Tomara que isto no acabe!
0 rumor de vozes no cessa,  confuso, festivo, estrdulo. E passam cores, caras, vestidos, chapus, gravatas. Sorrisos de dentes brancos, gestos, perfumes. Clarissa sente como uma tontura.
Tia Zina lamenta:
- Antes a gente tivesse ido por outra rua. Isto  uma coisa horrorosa! O movimento me deixa tonta!
Horrorosa?-estranha Clarissa. Deliciosa, pelo contrrio, deliciosa!
Agora entram numa rua mais sossegada. Clarissa no resiste  tentao: abre o pacote rseo.
- No coma na rua, menina!
- No aguento mais, titia.
Dilacera o papel, sfrega, e comea a comer os morangos.
- Que coisa horrorosa!
Os dentes de Clarissa trincam a polpa tenra. - Maravilhosos, titia, maravilhosos! D. Zina, escandalizada: ?- Tu no tens modos, mesmo.
Pelos cantos dos lbios de Clarissa escorre o sumo rosado dos morangos.
99
18
Tardinha.
D. Eufrasina est no jardim regando as flores. O regador de lata, pintado de verde, com uma lista vermelha, despeja sobre os canteiros uma chuva de gua fresca.
O major, sentado no banco, faz um cigarro: com a mo direita amassa o fumo picado no cncavo da mo esquerda, a palha presa entre os dentes.
Pelo porto entra Nestor. Vem gingando, braos no ar, sorriso satisfeito.
- Al, Dona Zina! Al, major! . -Boa tarde!
Tia Zina sorri.
- Buenas, rapaz!
A voz do major tem um tom cordial. Em duas passadas largas, Nestor sobe a escada e entra em casa, cantando.
- Moo alegre... -comenta o velho Pombo.
Tia Zina, que agora est molhando o canteiro dos era-vos, diz:
- Muito alegre. Alegre de mais. Aposto que agora ele vem do clube de regatas. Vive remando, jogando futebol e aquele outro jogo que se chama boque, roque ou coisa que o valha.
- Hquei -corrige o velho Pombo.- Agora v o jogo da moda.
-  isso. Mas como eu ia dizendo ... alegre de mais. No estuda. Faz cinco anos que est pra tirar os preparatrios. Leva bomba em todos os exames.
O major solta a sua risada franca.
Ouvem-se, vindas do outro lado do muro, as lamentaes de Tnico:
- Tat! Tat! No tem mais sol, vem me buscar!
D. Zina, sorrindo, olha com amor para as suas flores:
- Veja, seu Nico, veja como est bonito o meu jardim. Estes cravos foram plantados o ano passado...
0 major sacode lentamente a cabea, num louvor mudo. D. Eufrasina continua:
- E aquela danadinha ali (aponta para uma roseira de rosas vermelhas) me deu um cuidado do inferno. Uma coisa horrorosa! Imagine o senhor que cheguei a passar noites quase em claro, pensando nela.
- Veja s...
O major enrola o cigarro, silencioso. Na rua passa um amolador de facas, tocando o seu firuli sonoro. D. Zina lembra-se de repente que precisa afiar as suas facas:
- Cht!-chama.-Olhe aqui, homem! No meio da rua, o amolador estaca.
- Venha c. Tenho servio pra voc. Voltando a cabea para o lado da casa, berra:
- Couto! 0 Couto!
Faz para o amolador um sinal que quer dizer: espere um pouquinho.
O major tira do bolso a caixa de fsforos e acende o cigarro espesso.
- Couto! Belmira! Couto! Clarissa!
Na janela da sala de visitas assoma a cabea de Clarissa.
- Que , titia?
- V l dentro e pea pr Belmira as facas que esto precisando de fio. No esquea a grande, da cozinha.
Na rua, o amolador torna a tocar o seu firuli enjoativo e preguioso.
Cabea para trs, mos nos bolsos, o major d chupes fundos e repetidos no cigarro, soltando pelo nariz baforadas de fumo.
- Se Deus quiser, pr ano vou plantar violetas.
- A minha flor predilecta - informa o major. Clarissa desce as escadas, com um monte de facas na mo. O amolador aproxima-se.
- Tome - diz D. Zina, entregando-lhe as facas.- Quero um servicinho bem feito.
- No t dvida, patrona!
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- Espere!
A testa de D. Zina se franze. Sua testa tem uma ruga de preocupao.
- Vamos ver por quanto me faz o servio.
- Barato, patrona, barato...
- No, no, no... Vamos tratar o preo. O amolador hesita, pensa. Depois:
- Mil-ris cada una.
- Cruzes! Um pila cada faca! Que coisa horrorosa, homem! Deixe mais barato.
- Novecento ris...
- Ainda  muito ...
- Oitocento ...
- No serve... Menos.
- Setecento...
- S pago seiscentos. So doze ... Veja ... O amolador tem um sorriso amargo:
- Seiscent no d ...
- Ento, passe as facas pra c... O major ri:
- Esta D. Zina  uma financista de primeira ordem!
0 amolador est indeciso. De repente, encolhendo os ombros e fazendo com os braos um gesto de desalento, concorda:
- Bene... come a signora  freguesa... io dxo por seis-cent...
E leva as facas.
- Clarissa, est na hora do banho! V, antes que o banheiro fique ocupado! Daqui a pouco chega o seu Amaro, o seu Barata, o judeu, e ho-de querer um banho...
Agora o Tio Couto vem descendo para o jardim, calmo, ar sonolento. A sua cara ossuda -mas salientes, barba azulando, bigodo eriado- ganha um tom amarelo e doentio, batida pelo sol da tarde.
A mulher no se contm:
-  Couto - diz, com ar irnico -, quando eu quiser mandar buscar a morte, quem vai me fazer o obsquio s tu, sabes?
O major volta a cabea, sorrindo. Tio Couto no se perturba, nem altera o passo.
- Vamos ver um fuminho, major - pede. - Estou ardendo por um crioulo ...
O major passa-lhe um rolinho de fumo. Tio Couto apalpa os bolsos.
- Tem canivete tambm, major?
O major d-lhe o canivete. Tio Couto comea a picar fumo. Olha para o cu:
- Bela tarde! Sim senhor, bela tarde!
O major concorda, com um sinal de cabea.
- Faz tempo que no temos chuva...-observa.
--  uma Primavera comportada, esta. Pouco vento, tempo firme ...
Com voz lenta e pastosa, o Tio Couto vai dizendo  toa:
-  verdade ...  verdade ...
O amolador afia as facas. Pedala furiosamente na sua engenhoca encardida. A m gira, que gira. A lmina, da faca em contacto com a pedra que rodopia, rechina agudamente. Saltam chispas.
Clarissa olha o trabalho do amolador. Aquilo parece at um conto de fadas. Lembra a histria do ferreiro que batia na bigorna de prata, com martelo de ouro, fazendo saltar estrelas, estrelas que voavam para o cu e ficavam pregadas para sempre no azul. Foi assim que nasceram as estrelas que hoje vemos,  noite-- conta a lenda.
- Tem a uma palhinha, major?
Condescendente, o major d uma palhinha ao Tio Couto.
-  Couto, no queres tambm beio pra fumar? -pergunta-lhe a mulher com um sorriso malicioso.
Tio Couto alisa a palha com a lmina do canivete, imperturbvel. Como se no tivesse ouvido a observao irnica, olha outra vez para o cu:
- Linda tarde ... - diz - linda tarde ... O major sacode a cabea, lentamente.
Clarissa inclina-se sobre um canteiro, ajoelha-se no cho. O areo fere-lhe os joelhos. Agora ela comear a observar bem de perto uma margarida cor de ouro. Nas ptalas, que parecem de veludo, insectos minsculos caminham. O vento sacode as corolas, e as flores deixam cair o plen dourado que polvilha a relva verde. E os cravos? Vermelhos, perfumados, com manchas mais claras e mais escuras. Oh, que vontade de morder
103
as flores, trincar-lhes os caules verdes, os clices, as ptalas, como se fossem frutas. Deus devia ter feito as coisas de tal maneira que a gente pudesse comer as flores, as pedras, a relva... Assim, nunca, ningum passaria fome.
O amolador trabalha com entusiasmo. A m rola. As facas chiam. Saltam fascas e estrelas.
Amaro surge ao porto. Entra, de chapu na mo, cabeleira revolta, encolhido, encurvado, manso, os olhos baixos.
- Boa tarde!-diz, com voz macia. Todos respondem: Boa tarde!
E ele passa. O areo range sob seus ps. At a sua sombra  triste sobre o cho.
A porta da casa engole o vulto insignificante.
Outra vez vem  mente de Clarissa o pensamento:
Todas as pessoas tm um mistrio. Todas as pessoas tm um segredo.
No porto quem aparece agora  Maurcio Levinsky. Entra apressado, chapu puxado para a nuca, livro debaixo do brao.
- Boa tarde para todos!
O major, curioso, pergunta:
- Que livro  esse, seu Levinsky?
O judeu se detm e mostra o livro. A Doutrina, de Marx. O major sorri. Tio Couto, soltando uma baforada de fumo, provoca:
- No acredito que a doutrina de Marx possa salvar a economia do mundo.
O judeu se transfigura. Levanta no ar o livro de grandes letras vermelhas; com a mo espalmada bate-lhe repetidamente na capa, enquanto vai dizendo:
- Esta  a Bblia do homem moderno, s o comunismo poder salvar o mundo! S o comunismo.
0 major solta uma risada prolongada.
- Qual! Qual!-diz.
O Tio Couto evoca a Rssia.
- Stalin, esse monstro sanguinrio...
O judeu pe-se na ponta dos ps, agitado:
- Quem foi que lhe disse que Stalin  monstro? Isso  o fruto da propaganda anticomunista! Mentiras!
-? O plano quinquenal foi um fracasso. O sistema sovitico est falido...-afirma o marido de D. Eufrasina.
O judeu tem no rosto um sorriso de desprezo. Cruza os braos e fica a sacudir a cabea dum lado para outro.
- No me diga isso, senhor Couto, no me diga isso... O major se ergue, conselheiral. O dedo indicador unido ao
polegar, formando um crculo, fala:
- O comunismo no  de todo mau. Eu no concordo  com os excessos. Essa coisa de tocarem na religio, no est direito... Agora, quanto ao...
O judeu interrompe-o, brusco.
- Mas, meu caro major, o senhor deve compreender que no sistema actual as coisas no esto direitas...
- Ora, ora ...
Levinsky, com o livro numa das mos e o chapu na outra, explica:
--Temos aqui vrios exemplos dos erros do nosso regime ... Aqui do lado (aponta para a casa de D. Tat) mora uma pobre viva que trabalha todo o dia e toda a noite e que no tem dinheiro nem para comprar leite para o filho doente...
Faz uma pausa curta, sacode a juba. Depois, apontando para a casa do outro lado, exclama, num tom teatral:
- Pois ali naquele palacete mora um homem rico, que tem dinheiro no banco, que tem muitos filhos que andam bem vestidos e bebem bastante leite. Um homem que tem uma casa, rica, cheia de quadros, de vasos, de tapetes, de rdios, vitrolas, gatos, cachorros. Agora eu pergunto: isto est direito? Isto  justo?
- , sim senhor - afirma o Tio Couto com firmeza. - O mundo  assim mesmo. Cristo j disse que pobres sempre os haver.
- Mas quem  Cristo? -pergunta Levinsky com desprezo. D. Zina cresce para o hspede: '
- Isto agora  de mais, seu Levinsky. Eu gosto muito do senhor:  um rapaz direito, trabalhador, estudioso... Mas na religio no admito que toque, no admito...
O judeu se encolhe.
- Melhor no discutir... O major pontifica:
- Religio, poltica e amor no se discutem ...
- Perfeitamente... - concorda o Tio Couto.
?- Ento... rom licena - diz o judeu, caminhando para dentro de casa.
Clarissa est deliciada. O amoador pedala furiosamente: a engenhoca se desconjunta, range, parece que se vai desmantelar.
- Que diz duma partidinha de gamo pra esperar a bia? - pergunta o Tio Couto.
O major inclina a cabea para um lado.
- Homem, no seria mau... Dirigem-se para casa.
Tia Zina, arrancando dum canteiro unia erva daninha, grita:
- V pr banho, Clarissa.
- Sim, titia.
Da m que gira e regira, afiando as fa.cas, saltam ainda chispas midas, bem como da bigorna do ferreiro mgico que forjou as estrelas.
19
Fresca do banho, cabelos molhados, Clarissa brinca no jardim com as crianas da casa vizinha. So quatro. Com Luzia seriam cinco. Mas negro no entra na conta.
Clarissa conta-os com o dedo:
- Um, dois, trs, quatro! Quatro!
Fica com o indicador espetado no ar, rindo. Luzia arreganha os beios grossos, mostrando a dentadura branqussima. Seus olhos grandes so um espanto permanente.
- Voc sempre de canjica de fora, nem, Luzia?
- U, canjica, Dona Crarissia! ...
O sol lhe d um tom pardacento  carapinha.
--Como se chama esta?
Luzia fica sria, os olhos chispam, a beiarra cai.
- Esta chama Ana Maria.
- E este?
- Este, Tranquedo.
- E esta?
- Esta  home. Todos em casa chamo Bolinha.
- E este?
- Zuza.
Luzia sorri. Vendo-lhe os dentes esmaltados na cara pre-tusca, Clarissa pensa no teclado do piano preto da sala de visitas.
Clarrisa junta as mos, contente. Agora pode ver de perto, apalpar, beijar estas crianas bonitas, coradas, que ela sempre espia de longe, por cima do muro, brincando no jardim da ca.sa rica. Luzia os trouxe furtivamente para o jardim da penso.
- Se o pai deles sabe, me ^urra ...
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Luzia franze a testa, apreensiva. Os lbios grossos se apertam, escondendo a dentua. Fecharam o piano, pensa Clarissa.
- Surra porqu?-pergunta.
Ela no compreende ... Que mal faz trazer as crianas para uma casa vizinha, para brincarem ali por uns instantes? Vo perder algum pedao? Aqui ningum  bicho.
A negrinha explica:
- Eles no querem que os guris vo na casa dos tro... No rosto de fuligem, as jabuticabas gradas e lustrosas dos
olhos se agitam, mais escuras ainda.
Ajoelhada sobre a relva, braos cados ao longo do corpo, mos espalmadas sobre as coxas, Clarissa olha para os pequenos. Seu olhar salta de um para outro.
Ana Maria fala em surdina com a sua boneca de loua. Bolinha, sentado, tenta esmagar com o dedo minguinho uma formiga que passa por entre a relva, carregando um pedao de folha seca. Muito rosado e luzidio, parece uma flor que brotou ali no meio da relva verde do canteiro.
Afastado do grupo, lngua de fora, cabea baixa, Tancredo despetala com grande cuidado um malmequer. 0 Zuza faz beio e reclama impertinente:
- Eu quero i si'mbora. Eu quero!
A mo de Clarissa acaricia-lhe a cabea:
- Ora, Zuza, fica s um pouquinho. Agora a gente vai brincar de roda. Sim?
Zuza baixa a cabea e comea a torcer, zangado, a ponta do avental branco onde, pintados a leo, um urso e um palhao brincam. Da blusa de mangas curtas emergem dois braos gordos, fofos, rolios, que se dobram em pregas de gordura. Zuza tem um ar agressivo, truculento.
- O Zuza  muito brabo - Luzia esclarece. - Todos chama cie Capito Mata-Sete.
Clarissa ri, interessada:
-'Que engraado! Capito Mata-Sete! Porqu?
Outra vez rebrilha a dentua branca.
- Ele briga com todo o mundo, quebra prato, toca garfo nos tro ...
Ana Maria sacode a cabea loura. Os cachos encaracolados se agitam. Com uma vozinha sumida ela diz:
- Hoje ele jogou uma faca ni mim ...
Clarissa, fingindo zanga, pega o Zuza pela cintura:
- Ento, seu valente?  verdade que voc jogou uma faca na sua irm?
Os olhos de Zuza se entrecerram, seus lbios se encrespam, todo ele  um desafio quando diz:
- Zoguei, zoguei, zoguei! Pronto!
Bate com o p, levanta o brao para agredir. Luzia salta.
- Baixa a mo, Zuza! Oia que eu vou conta pra tua me.
- No tenho medo dela!
O Capito Mata-Sete cruza os braos. No rosto redondo h uma expresso indescritvel de desprezo. Os olhos de Luzia danam.
- Vou diz pr Bicho Tutu que venha te pega.
- Eu mato o Bicho Tutu!
Clarissa est como que embriagada. Tudo isto parece um sonho: um conto de fadas. Que bom ter aqui ao seu lado estas crianas todas que nunca lhe chegaram ao alcance da mo, que viviam longe e inatingveis, como a Lua, como as estrelas... Agora pode v-las de perto, ouvi-las. Conhece Ana Maria, a de voz doce, que acalenta a boneca como uma maezinha. Conhece Bolinha, que ainda no fala mas sabe dizer'- uuuuuuu!, enquanto a sua mo minscula desliza sobre a grama,  caa dos bichinhos diante dos quais ele  um gigante. Conhece o Tancredo, com o seu ar concentrado de menino precoce, o Tancredo que no gosta de falar, que dilacera as flores para ver o que elas tm dentro. Conhece o Zuza, o valente, o impvido Capito Mata-Se te.
Luzia encosta-se ao muro caiado.
Clarissa tem a impresso de que a negrinha  uma dessas figuras que se vem pelos muros, pintadas a carvo. Lembra-se dum cartaz que viu certa vez na rua: uma preta vestida de vermelho que anunciava uma marca de chocolate.
No jardim a sombra avana. O horizonte est todo pintado de vermelho e amarelo. L dentro de casa a Belrnira cantarola uma valsa antiga. As vidraas chamejam, batidas pelo ltimo sol. Um vento manso sacode de leve as flores, bole na folhagem dos pltanos, morno.
- Vamos brincar de roda?
Tancredo se aproxima, olhos vagos. Ana Maria bate palmas.
- Vamo bric de canoa viro?
Clarissa com os olhos consulta os outros. Ana Maria protesta:
- Canoa viro  enjoado. Vamo brinca de viuvinha bota luto.
Cabea baixa, Zuza torce e retorce o avental branco onde o palhao de vermelho pega no rabo do urso ruivo.
Debruado  janela da sala de visitas. Amaro olha para fora.
Tem o olhar to fixo num ponto, seu rosto traduz um tal sentimento de surpresa e de contentamento, que se diria estar acontecendo um milagre no jardim da penso da D. Zina.
Amaro olha, olha, no cansa de olhar.
A roda est formada. Um jogo de cores. 0 vestido verde de Clarissa, os seus cabelos negros e lustrosos, a sua pele morena, o trajo laranja e branco do Zuza, o vestido cor de morango da Ana Maria, a roupa azul de Tancredo, o rosto escuro de Luzia, no meio dos outros rostos claros.
E a relva, as flores, a tarde...
A roda gira. Vozes suaves cantam num coro deliciosamente desafinado:
Viuvinha, bota luto teu marido j morreu se  por falta de carinho viuvinha c estou eu.
No meio da roda - Ana Maria, ar cndido, olhos baixos, dedo polegar apertado entre os lbios. Bolinha gira tambm pela mo de Clarissa e de Luzia. Mal se pode suster nas per-ninhas bambas, que se arqueiam. Est srio. Fecha a boca em boto, num esforo comovente para acompanhar o canto. E faz: uuuu.
Do meio do coro, de quando em quando se alteia, guinchada, sem msica, a voz metlica do Capito Mata-Sete.
A tarde  tpida. 0 ar macio. A sombra da casa quase que j cobriu todo o jardim.
Amaro sonha ...
Era uma vez uma infncia que ficou l atrs, perdida e sem brilho... Era uma vez um homem triste que no tinha parentes, nem amigos, nem mocidade ...
Zuza resvala e cai. Tumulto: gritos, palmas, risos. A um canto, sobre a relva, a boneca de Ana Maria est deitada, olhos fechados. As formigas lhe passeiam sobre o rosto pintado.
Amaro est deslumbrado. Enfim, a vida tem momentos brilhantes que compensam a dor de viver. L fora os homens se acotovelam e agridem, se dizem palavras duras e se odeiam. Mas aqui h agora algo de puro e de fresco. Seis almas que vivem o minuto milagroso da infncia, no meio das flores.
Uma sombra anuvia o semblante de Amaro. Porque o minuto milagroso vai passar. E amanh, que surpresas viro?
Amaro se volta quase automaticamente: na sala de visitas cheia de sombra, o velho piano negro  uma sombra ainda mais negra.
Amaro aproxima-se dele.
Seus dedos magros esfrolam o teclado que reluz tibiamente. Uma msica subtilssima flutua no ar.  o motivo do jogo infantil:
Viuvinha, bota luto ...
Amaro senta-se ao piano. Os dedos danam sobre as teclas. A aragem bafeja os rostos das crianas. As folhas farfalham. Amaro se transfigura. O velho piano vibra, em notas agudas, dissonantes algumas. So as crianas que gritam. Outra vez o motivo da viuvinha. Luzia ri forte. O Capito Mata-Sete guincha. A voz de Clarissa se eleva sobre todas. Clarissa, fresca do banho, vestida de verde, olhos abertos para o mistrio da vida ...
Amaro fecha o piano. Ergue-se, sentindo-se mais feliz. Enquadrado pela porta que d para a sala de jantar, surge um vulto.
- Ento... Est inspirado?
 o Zez, tmido, voz fraca, mos enlaadas.
- Estava tentando uma composio...
Na meia luz coruscam os culos do estudante de Medicina.
- Gosto muito da msica. Tenho paixo pelo piano, o senhor nem imagina...
Amaro sacode a cabea, num gesto de compreenso.
111
- Seu Amaro, estou convencido de que errei a vocao ...
Zez suspira.
L fora os gritos se extinguem. As lmpadas da rua se acendem.
No porto, erecta, cara fechada, uma mulher magra olha fixamente para Luzia.
- A senhora no sabe quais so as ordens do patro? Luzia baixa a cabea. A beiarra treme. Ana Maria tem
os olhos dilatados pelo susto. Tancredo, o olhar vago, faz rolar um seixo entre os dedos.
A mulher magra fala de novo, spera:
- Traga j as crianas para casa!
Uma pausa. Depois mais violenta ainda:
-J! J!
Luzia pega na mo de Ana Maria e ergue Bolinha nos braos.
Clarissa, atarantada, olha tudo em silncio, sem um gesto. A mulher numa rabanada entra no jardim, toma Zuza pela mo, brusca.
- No quero!-protesta o Capito Mata-Sete.
Atira-se ao cho. A mulher tenta agarr-lo pela cintura: Zuza esperneia, grita, fica vermelho, funga, cospe, desfere pontaps para todos os lados. Tancredo se esgueira para o porto.
A mulher magra carrega por fim o Mata-Sete.
A viso bonita se apaga num instante.
O olhar de Clarissa agora  melanclico. (O jardim est silencioso, como um ninho deserto.) Ainda lhe soam ao ouvido as vozes frescas:
Viuvinha, bota luto.
Na porta da casa aparece tia Zina:
- Venha jantar, minha filha!
Clarissa se ergue devagar. Com passos lentos, quase sem sentir, se dirige para a escada. Vai pensando em mil coisas... No pode esquecer o Zuza com o seu "ar truculento, as suas bochechas gordas, os braos carnudos.
Imagina-o heri de contos de fadas, como o Pequeno Polegar, como o ano que matou o gigante. Num relmpago v a histria toda.
Pela floresta escura onde os pssaros cantam, marcha o
Capito Mata-Sete. As botas lhe vo at s coxas. Espada na
cintura, chapu de plumas que se agitam ao vento. A floresta
povoada de lobos, cobras, gnios maus e bruxas. Mas o Capito
^Mata-Sete avana impvido. Os gravetos estralam sob os taces
ie suas botas. As flores se inclinam, numa reverncia, quando
;le passa. Testa franzida, punhos cerrados, passos duros, o
"apito Mata-Sete atravessa a floresta encantada... No tem
edo de ningum. Um-dois! Um-dois! Um-dois!
- Que  isso, Clarissa?
Clarissa desperta. No alto da escada a tia gesticula.
- Ests louca? - pergunta. ___?
--Vens marchando como soldado, falando sozinha, res-mngando como velha caduca...
Na casa rica da vizinhana agora todas as janelas esto
Ruminadas. Onde ficar o quarto das crianas? Que cor ter a
:ama de Ana Maria? Como sero os livros do Tancredo? E o
jero do Bolinha? Quantos pratos o Capito Mata-Sete quebrar
loje ao jantar?
Clarissa entra. A sala de refeies j est cheia. Nestor vem descendo as escadas, assobiando, fazendo )arulho com os ps, jogando os braos para os lados, estaba-adamente.
Ondina se volta toda para ele, num sorriso. Barata tem Ia cabea inclinada sobre a mesa. O major conta uma histria (engraada a D. Glria, que ri perdidamente, deixando visveis Ias gengivas cor de coral. A Belinha devaneia, olhos em branco, [mos coladas  face direita. O Tio Couto come pacientemente Isuas batatinhas fritas, feitas no azeite especialmente para ele, (pois sofre do fgado. Gamaliel, cabea baixa, mos entrelaadas, [pede a bno de seu Deus. Zzinho, muito plido, pede um jmingau de maisena: est de dieta, outra vez o maldito estmago.
- Meta bicarbonato! - aconselha o major.
-^Tome ervas do campo, moo - aconselha D. Glria.
Zzinho agradece.
Mas onde estar Amaro ? Ouve-se agora o som fraco |dum piano.
Clarissa senta-se  mesa. Os pratos de gata brilham: |dentro deles se reflecte o lustre da varanda. A toalha de xadrez
vermelho tem manchas de caf. Os talheres fulguram. Clarissa levanta o garfo. No cabo de metal ciaro o seu rosto se reflecte, disforme:
- Se eu fosse assim ...
Agora a msica do piano est mais ntida. No h dvida:  Amaro que est tocando. Clarissa presta ateno. O murmrio das conversas a impede de ouvir com nitidez. Mas se podem distinguir bem as notas.  a viuvinha bota luto. Clarissa sorri.
Olha para a sala, passeia o olhar em torno:
- Todos grandes - pensa -, todos crescidos. Nenhum pequerrucho gordo como o Capito Mata-Sete .. -
A voz de D. Zina se alteia:
- Belmira!
- Senhora?
- V perguntar se o seu Amaro no quer jantar hoje? Belmira sobe as escadas.
O major comenta:
-? Esse moo parece que se alimenta com msica...
Boca cheia de comida, Tio Couto acrescenta:
- E se ele continuar assim nessa magreza, qualquer dia desencarna ...
- Coitado... -diz tia Zina- to bom moo... E Clarissa pensa tambm, enternecida: Coitado!
20
I
Venta.
No quintal a poeira sobe em redemoinho, carregando pedaos de papel, folhas, panos, gravetos, cisco... Portas e janelas batem. Uma bacia tomba e fica matraqueando longamente no lajedo, como um sino de alarma.
E o vento assobia, sopra forte, despetala as flores, levanta a poeira e move pesadas nuvens no cu.
- Belmira! A janela do quarto do major! Depressa!
D. Zina d ordens, afobada. Tio Couto fecha a porta da frente.
Rosto colado  vidraa da janela do quarto, Clarissa olha para fora. No quintal da casa de D. Tat, as roupas que estavam penduradas na corda voaram todas: giram agora pelo quintal, espetam-se nos galhos das rvores, rolam pelo cho, colam-se ao muro, rodopiam nos redemoinhos. Mais alm, noutro quintal, uma mulher gorda vai recolher a roupa que estava corando ao sol. O vento levanta-lhe a saia. Por um instante lhe apareceram as pernas morenas e gordas onde escurejam manchas.
Um cachorro a seu redor pula, a latir desesperadamente. As rvores farfalham, se desnastram e vfcrgam. O cu est todo coberto de nuvens cor de chumbo. O vento continua a uivar.
A poeira sobe, avermelhada, tnue, transparente, chega  altura das casas, vai mais alto ainda. Longe aparece o rio todo revolto, em ondas crespas. Os cirros ficam quase invisveis na distncia, de to turvo que est o ar.
Dentro de alguns minutos o vento cessa. Troveja demoradamente. Tremem as vidraas.
Os lbios de Clarissa se movem, trmulos, seu corao bate com mais fora.
- Santa Brbara, So Jernimo!
Com uma sensao aflitiva no peito, ela caminha para a cama, deita-se de borco e fica'ali imvel, rosto mergulhado no travesseiro, mos juntas comprimidas entre os seios e o colcho. O travesseiro cheira a macela do campo.  fresco e macio. Clarissa sente uma lassido boa, uma vontade de dormir, dormir... Agora um rudo tamborilante e seco lhe chega aos ouvidos.
- Chuva?
Ergue-se de repente, vai  janela, encosta outra vez o rosto  vidraa.
Chove. Pingos grossos caem do cu, pesados, destacados, ntidos, se espatifam contra os telhados, contra as paredes, contra o cho, ;n<um pl mole e sonoro.
Clarissa abre a janela. Uma onda de ar fresco lhe bate no rosto, invade o quarto. Chega-lhe s narinas um cheiro de terra molhada. Respira com fora. Lembra-se de certo dia, l fora, na estncia. Foi no forte do Vero. No caa chuva havia muitas semanas. O pasto secava. Os bois andavam magros. Mame vivia na frente do oratrio, acendendo velas aos santos, rezando para que Deus lhe mandasse gua. E uma tarde, quando menos se esperava, desaba um aguaceiro forte, fazendo chiar a terra ressequida, limpando as paredes empoeiradas, molhando os campos, enchendo os lajeados, as sangas, as lagoas ...Clarissa ficara toda a tarde olhando a chuva ... Tinha sentido um cheiro bom de terra hmida, bem como este que sente agora ...
Suspira. Saudade ... Saudade da estncia, da me, do pai; at das criadas. Saudade da vaca Mimosa que decerto a esta hora pasta mansamente perto da casa. Saudade das tardes de sesta em que o papai ronca num quarto, de papo para o ar, enquanto mame d ordens na cozinha e o campo rebrilha no mormao. Saudade das noites claras, depois da janta, quando todos vo olhar o luar do alpendre e fazer horas para dormir... Saudade do Sulto que late e que uiva quando chega gente estranha gritando  de casa!. Saudade das manhs douradas em que se bebe leite tpido e espumante na mangueira, ao p das vacas que tm um cheiro momo e adocicado. Saudade de tudo ...
Clarissa caminha para a varanda. Abre a gaveta da cristaleira e tira dela um bloco de papel, tinta e caneta. Senta-se
I
junto a uma das mesas. Abre o bloco, molha a pena no tinteiro e, caneta suspensa, olhos no tecto, pensa...
Queridos pais:
Suspira.
A chuva bate na vidraa, a gua escorre pelos vidros. Na cozinha si Andresa acende o fogo para o caf da tarde. Tia Zina, mangas arregaadas, rala coco para fazer o doce da sobremesa. Clarissa enxerga a cozinha pelo desvo da porta. As lascas de coco, muito brancas, saltam do ralo e se amontoam no prato.
Clarissa baixa os olhos, pensando nos deliciosos doces de coco da tia Zina. Continua:
Estou com uma saudade to grande de vocs
Deve botar ponto de admirao, ponto final ou trs pontos? No tem importncia. L vai ... uma admirao. Fica mais bonito. A professora de portugus disse que o ponto de admirao indica uma exclamao, serve tambm para dar mais fora ao que se escreve. Pois bem. A saudade  uma coisa forte, muito forte mesmo.
Estou.com uma saudade to grande de vocs!
E depois o pai e a me no reparam, nunca estiveram em escola secundria, no fazem caso da gramtica...
Felizmente agora as frias esto
Pertos ou perto? Caneta na boca, olhar vago, Clarissa procura soluo para o problema. Por fim decide escrever - perto. Segue:
A tia Zina e o tio Couto vo bem e mandam muitas lembranas ... O tio Couto, coitado,...
117
Sorri. Couto coitado... Que figura  esta? Que vcio de linguagem? Cacfaton? No. Porque no forma nome feio. Couto coitado... Pleonasmo? Tambm no.-
.. O tio Couto, coitado, ainda no arrumou emprego. E o senhor, papai, j vendeu o gado? Tenho tirado muitas notas boas, no exame s tenho medo da aritmtica, mas se Deus quiser e a Virgem Santssima hei-de sair aprovada se no cair regra de trs composta, porque simples eu sei bem ...
Isto tudo lhe sai dum jacto. E agora que dizer? Ocorre-lhe, de sbito, uma lembrana:
Faltam s quinze dias para o meu aniversrio, estou muito satisfeita, a tia Zina Prometeu jazer montanha-russa, aquele doce que eu gosto ... Fiquei muito contentssima porque a senhora, mame deu licena para eu botar sapato de salto alto quando fizer catorze anos.
Clarissa levanta a caneta e olha com ternura para o que escreveu.
A chuva l fora est mais forte. Ouve-se o tamborilar da gua nas folhas do arvoredo, no telhado, nas pedras, no cho. Outra vez o vento.
Est chovendo muito hoje. A Ha Zina est fazendo doce de coco para o jantar e o tio Couto est no quarto lendo os jamais. Os hspedes esto quase todos na rua. O seu Amaro, aquele moo que eu falo sempre nele., muito bom, est no banco. O seu Barata anda viajando pela fronteira. 0 Nestor, o louco que no pra quieto, entrou agorinha mesmo e foi l para cima cantando.
Manso, silencioso, Micefufe se esgueira por entre as cadeiras, e roa pelas pernas de Clarissa.
Quando terminarem os exames, quem  que vem me buscar? Que bom se fossem os dois!
- Belmira!
 a voz da tia Zina. Outra voz abafada (da si Andresa), rouca' e dura, responde do fundo da cozinha:
- A Bermira foi l na venda compra aucra-...
- Clarissa! Clarissa ergue-se:
- Que , titia?
- V ver se esto fechadas as janelas do quarto do major. Eu desconfio que aquela mulata safada no fechou como eu mandei...
Levemente contrariada, Clarissa obedece. Tem de interromper a carta. Quando voltar, decerto perdeu a disposio de escrever. Que importncia pode ter uma janela aberta? Molhar alguma coisa? Que grandes coisas ter o major no seu quarto?
Clarissa sobe a escada de mansinho, lenta, segurando o corrimo lustroso. O tapete abafa-lhe os passos.
- Um, dois, trs, quatro degraus - esta titia tem cada ideia -cinco, seis -- naturalmente a janela est fechada, trabalho perdido - oito, nove - inda faltam sete - dez, onze, doze,.... - agora dobrar  direita, dois passos, e recomear na continuao da escada - treze - credo! nmero de azar...- catorze, quinze ...
Chega-lhe aos ouvidos um rumor abafado de vozes, No alto da escada, Clarissa volta-se para a direita. No fundo do corredor sombrio, recorta-se o rectngulo claro duma janela. Um vulto imvel. Clarissa tem um sobressalto, fica parada, olhos fixos na sombra misteriosa. A sombra se agita. Agora ela v melhor: so dois vultos ... Dois vultos que ... No  possvel! Arregala os olhos... Sim, no h dvida... Duas pessoas que ... -mas ser verdade? -? duas pessoas que se beijam ... Belinha e a me? Ondina? Naturalmente Ondina. Mas o marido dela no est em casa ...
De sbito os dois vultos se separam, rpidos. Um deles caminha para a zona de luz. Clarissa sente um baque no corao.  Ondina... Na sombra o outro se movimenta. Clarissa quer dizer alguma coisa mas no pode ... O espanto a imobiliza. O outro... -santo Deus!- o outro  Nestor. Clarissa est estonteada, sem compreender. Nestor e Ondina... abraados, colados num beijo prolongado? Mas ento... e o Barata?
Ondina no  esposa do Barata? Bora aberta, mos enlaadas, Clarissa olha, no querendo compreender.
Ondina cantarola, disfaradamente arranjando o cabelo. Nestor pigarreia, conserta o n da gravata, puxa da cigarreira, tira um cigarro. At a exploso fraca do fsforo que se acende faz Clarissa estremecer. A chama brilha por um instante, ilumina o rosto sereno de Nestor, e se apaga depois, deixando no ar apenas um fumo azulado.
- Queres alguma coisa, Clarissa?
A voz de Ondina  natural, sem o menor tremor, como se nada tivesse acontecido.
A custo Clarissa conseguiu balbuciar:
- No ... nada.
Volta-se. O corao bate-lhe desordenadamente.
Vai agora descendo as escadas, passo rpido, perdida em meio dos pensamentos, mais desencontrados.
Nestor .., Ondina ... Barata ... Clarissa acelera o passo, quase corre, desce os degraus de dois em dois. Tem a impresso de que a perseguem, de que a querem matar.
Na sala de refeies detm-se ofegante. Olha para a carta que comeou a escrever:
Estou com uma saudade to grande de vocs/
As letras lhe danam sob os olhos, baralhadas, trmulas. E, por uma estranha associao de ideias, em lugar do papel do bloco, Clarissa v uma folha de jornal, uma folha de jornal que um dia, h muito tempo, ela leu e guardou no fundo da memria, uma folha de jornal que relatava um crime monstruoso. O cabealho da notcia dizia:
Surpreendendo a esposa
aos beijos ao amante, o marido ultrajado
abate-os com seis tiros
Clarissa estremece.
- Esto fechadas?
A voz da tia. Clarissa continua calada, o olhar vago.
- 0 sombra! Esto fechadas ou no?
- Esto, titia ...
I
->Que coisa horrorosa! Como ests ficando pateta, menina, nem parece uma moa que j vai fazer catorze anos!
Passo leve, lbios trmulos, olhos embaciados. Clarissa encaminha-se para o quarto. Fecha a porta devagarinho e atira-se na cama (outra vez o cheiro bom de macela do campo, outra vez a maciez fresca do travesseiro), e rompe a chorar desatadamente. Ardem-lhe os olhos e o rosto, treme-lhe o corpo. A imagem terrvel no lhe sai da mente. No corredor sombrio, os vultos abraados, o rectngulo luminoso da janela, o beijo longo, e aquela voz que gela, que fere, que assusta:
- Queres alguma coisa, Clarissa?
Ento essas histrias que se contam de mulheres casadas que namoram, que beijam outros homens que no os maridos so histrias verdadeiras? Horrvel! Como poder ela esquecer? Como poder calar? Com que olhos, com que cara olhar de agora em diante os dois ... os dois ... amantes?
Clarissa solua. O corpo se lhe agita, convulso, fazendo a cama tremer. L fora a chuva agora  mansa. Atravs dela brilha fracamente o sol. Uma vozinha infantil num quintal vizinho berra: Casamento da raposa! Casamento da raposa!
Amanh, quando o Barata voltar, vai acontecer o grande desastre. Ela ser chamada para dizer o que viu.
-  verdade que voc viu minha mulher beijando o Nestor? Os olhos empapuados do Barata brilharo de dio.
E ela, muito encolhida, toda trmula de soluos e de vergonha, que poder dizer?
- Sim,  verdade...
Ento o Barata pegar o seu revlver e derribar Ondina e Nestor com seis tiros. As detonaes ecoaro pela casa toda ...
Clarissa cerra os olhos, para fugir ao quadro medonho. Sobre o linleo da sala de jantar esto estendidos os corpos dos dois amantes, numa sangueira sem fim ... Micefufe vem em silncio e bebe o sangue quente com a sua linguinha rosada, como se bebesse leite no pires de loua da tia Zina ...
- Meu Deus! Que ser de mim? Por que foi acontecer isto logo agora nas vsperas do dia dos meus anos. Como eu sou infeliz! ...
Olhos pisados, vermelhos, lgrimas a escorrerem pelo rosto, Clarissa ajoelha ao p da imagem de Santa Teresinha. Na oleogravura envernizada, a santa sorri.
- Santa Teresinha do Menino Jesus, por amor de Deus, me ajude!
Pela janela entra uma rstia de sol que se espicha sobre o soalho. A chuva parou. Atravs das nuvens se entrev'o cu dum azul lavado.
Ouve-se um rumor de passos pesados na escada. Nestor desce cantando com entusiasmo:
Deixa esta mulher chorar, Pra pagar o que me fez!
No alpendre o Mandarim guincha, irritado.
21
- Ento, minha menina, daqui a um par de dias vai colher mais uma rosa no jardim da existncia, hem?
Clarissa sorri, mexendo com a colherinha de prata o ch que fumega na taa. O major pergunta:
- E quantos anos vai fazer?
- Catorze ...
Belinha conta, entre dois goles de ch, o enredo do ltimo romance que leu. Tio Couto pede mais acar a Belmtra. O judeu interpela Gamaliel, e reacende uma discusso antiga.
- Quando os faras atravessaram o mar Vermelho ... Olheiras fundas, sorriso quase imperceptvel nos lbios
grossos de bton, Ondina brinca com uma bolota de miolo de po. Junto da janela Nestor fuma calmamente o seu cigarro de ponta dourada, jogando para o ar, com toda a pachorra, baforadas de fumo.
Belmira entra com uma bandeja em que brilham louas e peas niqueladas.
- Aonde vais?
Sem parar, a mulata responde:
- Vou levar o ch pra o seu Zez, que est outra vez encrencado ...
D. Zina sacode a cabea, penalizada.
- Esse pobre menino, longe de casa, sempre doentinho... O major, chupando o seu chimarro, comenta:
- No meu tempo, os rapazes eram mais sadios. No se viam tipos como esse do Zez: raqutico, plido, com voz de moa...
Agora  o Tio Couto que d o seu aparte:
123
- Tambm ele teima em estudar Medicina. Cada vez que tem de fazer uma autpsia, no necrotrio, bota as tripas pra fora, fica enjoado e imprestvel pra todo o resto da semana ...
- Couto! -repreende D. Zina-, isto no so conversas pra hora da mesa ...
--Ora, ora, mulher ... Aqui ningum  fraco do estmago, que eu saiba.
Nestor sorri, joga pela janela o toco de cigarro, volta-se para fora e fica a assobiar em surdina um samba da moda.
Belinha remata a sua histria:
- E finalmente o conde de Monte Azul casou com a filha do lenhador ...
- Bobagens de amor! ...-faz Ondina. Amaro desce a escada, sem rudo.
- Bom dia! Senta-se  sua mesa.
- Ch ou caf?-consulta a tia Zina,
- Ch...
O major, s pra conversar, pergunta:'
- Prefere sempre o ch, seu Amaro?
- s vezes ,..
- O ch, como auxiliar da digesto,  recomendado por grande nmero de mdicos. Quanto ao caf, dizem os entendidos que estimula as faculdades intelectuais. 0 senhor, como intelectual que , devia preferir o caf ...
Amaro j est longe. Olha furtivamente para Clarissa. Descobre nela algo de diferente. Por que essa tristeza? Por que esse rosto sombrio? Acaso uma criana tem direito de ficar triste? Naturalmente essa melancolia  como a tempestade da semana passada: ventania, trovoada, aguaceiro e depois sol dourado e cu limpo e fresco. Caprichos da Primavera.  para que as flores fiquem mais perfumadas, o sol mais claro, a paisagem mais rtila ...
Ouvem-se passos na escada.
Clarissa ergue os olhos, rpida. O corao comea a bater--lhe apressadamente. Procpio Barata vem descendo. Chegou ontem. Triste porque vendeu pouco. Est carrancudo, decerto j sabe de tudo, decerto j descobriu o segredo ...
Seus olhinhos brilham.  com voz cava e rouca que diz:
- Bom dia.
Recostado  janela, cotovelo fincado no peitoril, Nestor assobia ainda.
Clarissa, olhos postos no caixeiro-viajante, fica imvel, esperando ...
Barata senta-se  mesa, srio. Ondina est imperturbvel. Clarissa imagina mil dramas.
Ele j sabe... Ontem ouvi discusso no quarto deles... Decerto surrou ela ... Agora quer saber ... Vai falar para o Nestor ... Agora ...
Ofega. Suas mos tremem.
- Ento, vendeu muito; seu Barata?-pergunta o major.
- Qual!-faz o viajante com voz rida.-Uma droga esse comrcio! No tirei nem pra o cigarro! Uma droga! Tempo perdido. O patro amarrou a cara... Tambm no se pode obrigar o fregus a comprar. Uma crise piramidal!
Tio Couto intervm; culpa o governo pela m situao do pas. O major recorda os tempos da monarquia. Nestor sorri, tira outro cigarro, cantarola, assobia.
- Major, me d o fogo, faa o favor...-pede. O major lhe estende o isqueiro.
O Barata sorve ruidosamente o caf, enchendo ao mesmo tempo a boca de po com manteiga. Quase embuchado, voz sumida, ameaa:
- Mas isto no fica assim! Ou na prxima viagem arranco pedidos grandes da freguesia ou arrebento essa joa, abandono o comrcio e vou criar porcos...
D um murro na mesa. Clarissa est abismada. Nunca o viu to exaltado. Decerto ele sabe de tudo, no h dvida ...
- Criar porcos no d nada...-opina o major.
- O senhor j experimentou? -pergunta Nestor, deitando fumaa pelo nariz.
- No - responde o velho Pombo. - Mas tenho um sobrinho que cria porcos. No d dez por cento...
- Tudo d, depende do mtodo - sentencia Tio Couto, enchendo novamente a xcara.-Mais acar, Belmira!
- Belmira, acar pr Couto!-repete tia Zina. Barata ergue-se, de rosto sombrio.
- Isto no pode continuar assim...
mmmmmmmmmm
Clarissa estremece. Naturalmente ele se est referindo a Nestor. Isto no pode ficar assim!  agora que vai acontecer a tragdia.
Barata passeia dum lado para outro. De sbito sua fisionomia se altera inexplicavelmente. O caixeiro-viajante aproxima-se de Nestor, planta-se-lhe na frente, segura-lhe a ponta da gravata, fita-o bem firme nos olhos e diz:
- Esta eu guardei pra voc... Minha viagem foi m,  verdade, mas esta eu aprendi e guardei pra voc...  piramidal!
Clarissa arregala os olhos. Barata leva a mo ao bolso. O revlver,.. Pum! Pum! Pum! Pum! Pum! Pum! Seis tiros, e os cadveres rolam para o cho. Mcefufe vem com a sua linguinha rosada e bebe-lhes o sangue como se bebesse leite ... Clarissa sente um desfalecimento. A mo do Barata se ergue ... Clarissa respira com alvio. No  revlver:  um leno amarelo que o marido de Ondina tira do bolso.
Barata pega Nestor pelo brao e leva-o para um canto da sala.
-  a histria do ingls e do hoteleiro... Voc conhece?... Nestor sacode a cabea negativamente. Barata comea a
contar a anedota, num cichicho cortado de risotas. No fim da histria, Nestor tem um acesso de riso que o sacode todo. Barata o acompanha, vermelho, arrepanhando os lbios, rindo um riso convulsivo que lhe faz estremecer as bochechas, o ventre, os braos...
- Essa  boa,  de primeirssima! Voc ganhou o dia, Barata.
Clarissa mal d crdito ao que v ... Ser possvel? Ento ... ele no sabe. E Ondina continuar a beijar o Nestor nos corredores?
Barata e Nestor riem ainda. Ao passo que Ondina sorri enigmaticamente.
O relgio bate o seu quarto de hora musical.
- Clarissa! -avisa tia Zina-, olha o colgio ...
- Sim, titia... Clarissa se ergue.
- Voc hoje, seu Couto, madrugou ... -diz o major.
-  ... Que remdio? 0 Cardoso me marcou um encontro prs oito, na Secretaria. Parece que agora a coisa sai...
- O emprego?
Couto sacode a cabea afirmativamente. O major felicita-o:
- Parabns! At que enfim, meu caro. No h nada como um dia depois do outro.
Gemendo, D. Glria ergue-se e caminha para o quarto no seu passo tardo e pesado de elefante. Belnha segue-a como um cachorrinho fiel.
Ondina e Barata, abraados, sobem a escada.
- Vou ver se vendo alguma coisa na praa, hoje - vai dizendo ele.
-- E vamos ao cinema?
- Que fita levam?
- Uma super da Metro.
As vozes se somem l em cima.
Cantarolando, quase a correr, Nestor desce para o ptio.
Micefufe agora atravessa a sala deserta, preguioso, ronronando, plo chispante de sol.
Clarissa, boina preta na cabea, vestido branco, passa com a bolsa de livros debaixo do brao.
- J vou, titia!
L da cozinha vem a voz de D. Zina:
- Deus te acompanhe, minha filha!
Nas rvores hmidas de orvalho os passarinhos cantam.
Sol. As flores de cores vivas parecem multiplicar a claridade. Tudo  claro e contente na manha recm-nascida.
Mas que tristeza estranha pesa no peito de Clarissa? Uma pena infinita daquele pobre homem gorducho que no sabe que a mulher o engana. Enfim ... Que mal h num beijo?
Clarissa pensa:
- Como  engraada a vida! Quanto mistrio, quanto segredo ... Os homens riem uns na frente dos outros, mas choram quando esto ss. Seu Barata e a mulher sobem a escada abraados, mas no quarto, de porta fechada, brigam...
Clarissa vai andando. Nem enxerga as pessoas que passam; caminha como que cega, pensando, pensando...
Quando ela crescer, quando ficar moa, h-de saber de todos os mistrios da vida. Algum h-de contar tudo. Talvez o noivo, talvez o marido. Talvez ningum.
- Queres alguma coisa. Clarissa?
Parece ouvir ainda a voz de Ondina... No ter medo? E se ela, Clarissa, se ela contasse tudo? Depois daquela tarde de chuva, Ondina comeou a ench-la de agrados. Clarissa querida, meu amor, meu benzinho, qualquer dia destes eu te levo ao cinema, eu gosto muito de ti, queres um doce, queri-dinha? Agrados de toda a maneira. Antes, no. Parecia que nem se conheciam.
E Nestor? O mesmo, sempre cantando, soltando fumaa pelo nariz, sorrindo com ar insolente.
Se Clarissa contasse o que viu naquele dia de tormenta, tia Zina levaria as mos  cabea e diria:
- Que coisa horrorosa!
Botava o Nestor para a rua e ia contar tudo ao Barata. Uma calamidade.
- No, nunca hei-de contar que vi Dona Ondina beijando o Nestor.
E Clarissa caminha na manh luminosa, arrastando pelas caladas a sua sombra e o seu tenebroso segredo.
22
I
D. Zina botou os talheres de prata na mesa. A toalha de linho branco reluz. O paliteiro de bronze  uma samartana que traz ao ombro um cntaro cheio de crivos em que se espetam os palitos. Nos vasos espalhados por toda a casa h rosas brancas e vermelhas, jasmins, cravos e margaridas douradas.
Na terrina creme com debruns vermelhos, fumega a sopa.
O Barata sorve-a em colheradas cheias, ruidosamente, fungando. O major estala a lngua:
- Se todos os dias houvesse uma pessoa pra fazer anos - diz- estvamos bem arranjados. Podamos contar sempre com uma galinhazinha, com uma sobremesa especial...
Risadas.
Olhando o major, Clarissa pensa no lindo livro que ele lhe deu: Os Contos de Grimm. Foi uma surpresa. Ela pensava que o velho Pombo ia esquecer... ou queixar-se da crise. Mas quem foi que disse que o major esqueceu? Apareceu bem de manh cedo, todo risonho, com um cravo na lapela.
- Ento, catorze primaveras?
Disse isto com as mos s costas, abanando a cabea calva. Clarissa respondeu com um sorriso e um sinal afirmativo.
- Tome l esta lembrancinha. No repare: presente de velho nunca tem valor. Mas vale a inteno...
O livro estava embrulhado num papel azul-claro, amarrado com fita de seda cor-de-rosa. Na capa, a Menina do Cha-pelinho Vermelho conversa com o lobo. Lindo! No interior, utras gravuras coloridas; e histrias: Cinderela, Branca de Neve, O Prncipe Sapo ...
Depois do presente do major. Clarissa recebeu um abrao da Belinha: em nome dela e da me, a coitada, que estava
metida no quarto, na cama, outra vez s voltas com o maldito reumatismo.
Tia Zina viera muito cedinho ao quarto, dera-lhe dois beijos chupados e este conselho:
- Seja muito feliz e tenha muito juizinho, no faa como essas meninas sapecas da fora da Dudu, que andam se refastelando por a com os rapazes - uma coisa horrorosa!
Tio Couto abraou-a, desculpou-se com a crise e disse que no comprara presente, mas que no ano que vem, se Deus quiser....
Gamaliel desejou-lhe uma chuva de bnos do Altssimo. men!. Nestor deu-me Parabns! de longe, com um gesto moleque. Ondina veio para ela toda sorridente, abraou-a, beijou-a, fez-lhe uma enorme declarao de amor e prometeu:
- Olha, querida, agora quando o Barata for de novo para a fronteira, vou pedir para ele te comprar um corte de seda bem bonito. Este vai ser o nosso presente... Espera, meu amor, sim?
Disse isto com os olhos voltados para o Nestor, que fumava e assobiava calmamente junto da porta que d para o jardim.
E agora aqui  hora do almoo, partindo um pedao da galinha que foi morta por sua causa. Clarissa, num recenseamento mental que dura um segundo, v que todos a cumprimentaram: todos, at a D. Tat, que mandou um cartozinho em seu nome e em nome do Tnico; at o judeu, a si Andresa, a Belmira, todos - menos Amaro, Amaro que est ali no seu canto, silencioso, brincando com uma bolota de miolo de po, indiferente, como se o dia de hoje fosse um dia igual aos outros, uma segunda-feira qualquer, aborrecida e sonolenta.
Em voz alta, Levinsky explica a Nestor por que os de sua raa no comem carne de porco. Gamaliel, a propsito duma observao do judeu sobre religio, solta um desafio que o outro no aceita. Barata conta uma anedota em que os heris so dois israelitas. Tio Couto mete o pau no ministrio actual e o major Pombo elogia a galinha.
O papagaio canta no alpendre. As janelas recortam um pedao de cu azul. Os cristais rebrilham. Vem da vizinhana a msica duma vitrola. Um tango argentino arrastado, choroso, com lamentos de bandnion. Uma voz lamurienta canta um falsete:
Donde ests corazn, No otgo tu palpitar!
De quando em quando uma aragem entra na varanda, bole nas flores, agita as toalhas das mesas. Os cravos e os jasmins enchem o ar com o seu perfume. Tinem cristais. Rumor de vozes, de talheres que batem contra a loua dos pratos. Belmira passa, toda metida no seu vestido mais novo, servindo as mesas. A sua pele cor de azeitona ganha um lustro de metal  luz do meio-dia: os olhos da mulata lampejam e ela caminha, reboleando as ancas. Clarissa segue-a com o olhar. V tambm os olhos de Nestor, que ficam longamente pregados naqueles quadris que se agitam, naquelas pernas bem torneadas, naqueles braos carnudos.
Por que ser que Nestor olha tanto para Belmira?
J agora Gamaliel e Levinsky discutem com paixo.
- Noventa por cento das guerras so provocadas pelos judeus!-afirma o prtico de farmcia.
Levinsky, garfo no ar, muito vermelho, vocifera:
- O senhor prova? O senhor prova?
Gamaliel sorri com a superioridade de quem tem a certeza de que est com a verdade. Verdade com V maisculo. O judeu insiste em pedir provas. Gamaliel bebe um gole de gua.
- Bem-aventurados os pobres de esprito...-murmura. Levinsky se ergue:
- Isso  comigo, senhor Gamaliel?
Nestor puxa o judeu pelo casaco e f-lo sentar:
- D o fora, seu bobo! Que mania  essa de discutir? ' Parecem crianas.
Agora  Gamaliel quem assume ares de dignidade:
- Se lhe serve a carapua -diz- pode vesti-la. D. Zina intervm, maternal:
- No briguem, meninos.
- E logo hoje no dia dos anos de Clarissa...-comenta o major.
Clarissa sorri e pensa: que querido, que simptico este major! Ele sempre se lembra de mim e de meu aniversrio. Zez pede ch.
- No quer sobremesa?
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- Obrigadnho, D. Zina, no sou muito amigo de doces. Fala com uma voz macia e levemente trmula de convalescente.
- Olhe que hoje temos montanha-russa ... -avisa a dona da penso:
Zez faz um gesto polido:
- No, Dona Zina, muito obrigado ... Barata, prontamente, volta-se para D. Zina:
- Sou candidato a essa sobremesa que vai sobrar ... Tio Couto, rpido:
-Eu tambm! Barata:
- Quem pediu primeiro fui eu...
- Mas eu sou mais velho, tenho mais direito... -graceja Tio Couto.
Clarissa est feliz. Acha muita graa nesses dois homens que disputam uma taa de montanha-russa como se fossem crianas gulosas.
Belmtra entra com a bandeja onde se enfileiram as taas de doce. As pirmides de clara de ovo tremulam, com uma ameixa preta na ponta. Barata esfrega as mos.
- Gosto disso que me lambo todo!
Amaro pede licena e se levanta. Passa por entre as mesas como uma sombra, sem falar, sem sorrir, e sobe.
Clarissa acompanha-o com os olhos.
Bruto! -pensa. -Nem uma palavrinha pra mim. Todos disseram. No  que eu queira presentes, no, que graas a Deus no preciso. Mas devia dizer uma palavrinha, por delicadeza. Uma palavrinha assim: felicidade! Mas nem isso. Que custava? Egosta, metido no quarto, a bater no tacho velho, inventando umas msicas que ningum entende. Feioso. Cara enrugada. Insignificante. Bobalho!
Mas de repente uma onda de ternura a invade. Quem sabe que desgosto o seu Amaro tem na vida? Que mistrio enorme guardar consigo? Que grande segredo, que grande tristeza!
Coitado! - pensa, penalizada. - Que Deus o ajude, men!
- No queres doce, Clarissa?
- Quero sim, titia. Que ideia!
Comea a comer com sofreguido. 0 doce, que passou a manh no refrigerador, est gelado e gostoso! Clarissa leva-o  boca em colheradas repetidas, rpidas.
De quando em quando se detm um segundo para olhar em torno. As rosas e as margaridas se balouam de mansinho sopradas pela brisa. O cu, dentro do rectngulo da janela, parece agora mais luminoso e azul. 0 papagaio grita:
- Clariiissa!
Micefufe, firme nas patas traseiras, apoia as dianteiras nas coxas de Clarissa. O gramofone toca uma marcha de Carnaval, uma msica que puxa a gente, que arrasta e convida para danar e cantar. E o som do gramofone na sala de mistura com a luz do sol, o vento fresco, o perfume das flores, os gritos do papagaio.
Clarissa tem a impresso de que todos os semblantes esto sorridentes.
- Minha filha - diz tia Zina -, hoje podes ir ao cinema com o teu tio.
Couto olha para a mulher com o rabo dos olhos:
- Mas donde  que eu vou tirar dinheiro, mulher?
- Ora, Couto! Deixa de fita, tu sabes que eu  que dou sempre dinheiro pra essas coisas ...
Clarissa leva  boca a colherinha de prata cheia de doce e pensa: como eu sou feliz, meu Deus!
Que bom que este dia nunca, nunca acabasse, pensa Clarissa, olhando para o horizonte, onde o sol vai aos poucos afundando.
No jardim as sombras dos pltanos agora esto quase apagadas. Na rua passam automveis, mansamente. O vento  morno. Na casa vizinha as crianas fazem algazarra.
- Clarissa!
- Que , titia?
- Venha c ligeiro!
Tia Zina est sorridente, encostada  mesa, mos s costas como quem esconde alguma coisa.
- Adivinha que  que eu tenho pra ti...
Clarissa ala a sobrancelha direita, entorta a cabea, num esforo para adivinhar. Depois de alguns segundos, diz:
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- No sei...
- Ora, boba, no sabe?
- Ser... ser... um... Oh! no sei, titia! Diga logo! Estou curiosa!
- Um pre... sen...
- ...te. Um presente?
Clarissa d dois passos rpidos. D. Zina a detm.
- Agora adivinha de quem ...
- Da senhora?
- No.
- Do Tio Couto?
- Tambm no ...
- Ento no sei...
- Do seu Amaro, bobinha!
Clarissa, surpresa, arregala os olhos. Do seu Amaro? No  possvel. Ele nem sequer lhe disse uma palavra de cumprimento ... Nem um gesto, nem um olhar ... No  possvel.
D. Zina afasta-se para um lado.
Em cima da mesa acha-se um pequeno aqurio bojudo de cristal, dentro do qual se agita um peixinho dourado.
- Titia!
O rosto de Clarissa  todo um espanto. Por um instante ela no consegue dizer mais nada, comovida, olhos presos no aqurio.
- Oh! Bem o que eu queria! Bem o que eu queria! O que eu vi o outro dia!
Bate palmas. Aproxima-se da mesa, apalpa o aqurio, mergulha os dedos na gua.
- Olhe s que bonito! Dourado, alaranjado, prateado. Tem todas as cores...
D. Zina sorri, mos na cintura.
- Olhe s a boquinha dele como se mexe. Que  que ele come?
- Migalha de po. Carne.
- Veja, titia, como ele nada, veja os olhinhos dele. Que bom!
D. Zina se retira.
- Titia!
J na porta D. Zina se volta:
- Que ?
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- Vou botar um nome nele ...
- Pois bote, contanto que no seja o meu...
- Oh!
- Bote um nome engraado, que no seja de gente.
- Titia, j achei um.
- Como ?
- Pirolito.
D. Zina deixa a sala, sorrindo.
Clarissa fica enlevada, olhando para o peixinho.
Pobre do seu Amaro!-pensa. -Tenho de agradecer... Deus me perdoe por eu ter feito mau juzo dele...
Dentro do aqurio de cristal, Pirolito revoluteia, riscando na gua, curvas moles.
Olhos parados -decerto com um mundo de projectos insidiosos na cabea-, Micefufe namora o peixinho...
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De volta do colgio, Clarissa senta-se no banco do jardim.
Ainda no encontrou Amaro depois que recebeu o presente.  preciso agradecer, expressar-lhe o seu grande contentamento.
Meio perturbada, estuda a frase que vai dizer.
 necessrio falar direito, sem errar, com palavras bem pronunciadas, seno vai ser uma vergonha. Eu digo assim: seu Amaro, recebi o presente seu. No! Assim  melhor: recebi o presente seu, seu Amaro. Seu seu! Que bobagem!
Como  difcil agradecer, principalmente quando a gente no tem intimidade com a pessoa que nos deu o presente. Mas o melhor  dizer assim:
- Recebi pela titia o seu presente. Fiquei contentssima. Estou-lhe muito agradecidssima.
Oh!, como  custoso falar com pessoas instrudas e de cerimnias. O melhor  dizer simplesmente:
- Seu Amaro, no imagina como estou contente. Que lindo o peixinho! Botei nele o nome de Pirolito, sabe? Gostei muito. O senhor nem imagina como sou sua amiga. Muito obrigada! Muito obrigada!
Amaro no deve tardar. Chega sempre a esta hora.
No porto aparece um vulto. Clarissa sente um estremecimento. Ser ele? No . O Nestor... Sempre em marcha acelerada. Entra. Logo atrs dele vem o judeu.
E o vulto escuro que acaba de subir a calada? O corao de Clarissa bate com mais fora. Agora, sim,  Amaro. Vem de chapu na mo, ar cansado, cabea pendida, passos lentos.
Clarissa se enche de coragem.
--Seu Amaro, eu...
Amaro, distrado, diz:
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- Boa tarde!
 continua a caminhar.
Clarissa fica muito vermelha, a olhar para o cho.
O jantar terminou.
O major est no alpendre, fumando um crioulo em companhia do Tio Couto. Tia Zina foi para a cozinha. Ondina e o marido sobem para o quarto, abraados.
Clarissa toma uma resoluo desesperada. Tem de agradecer hoje, custe o que custar. O discurso ser breve, fulminante.
- Seu Amaro, muito obrigada pelo seu lindo presente! Amaro deixa o seu canto. Agora vai subir para o quarto. Clarissa se ergue tambm.
- Sss... - principia.
Amaro nem sequer olha para ela. Sobe como uma sombra.
Clarissa senta-se de novo. Sobre uma coluna de madeira escura, a um canto da sala, rebrilha o aqurio. Pirolito est agitado. Ser que a luz elctrica o assusta?
Clarissa acerca-se do vaso de cristal. Agora nota que a gua est toda cheia de rebrilhos. A janela, as lmpadas, os mveis, tudo se reflecte no vidro do aqurio.
Clarissa aproxima os lbios da superfcie da gua.
E, como se o peixinho a pudesse entender, cicia:
- Pirolito, eu ainda no agradeci. No tive coragem. Hoje de noite, quem sabe...
Noite sem lua. Cu escuro.
Clarissa folheia os livros com preguia.
- Titia, aritmtica  a coisa mais enjoada do mundo.
- Enjoada ou no, tens de estudar. Com que cara vou ficar se fores reprovada no exame? Que  que vou dizer pr tua gente? Estuda, que  melhor...
O Barata e a mulher passam, perfumados e enfeitados, rumo da rua. Vo ao cinema.
- Adeus, querida - diz Ondina, acenando para Clarissa.
- Adeus!
Agora  Amaro que vem descendo a escada. D. Zina levanta os olhos do croch:
- Vai a algum cinema, seu Amaro? Amaro se detm.
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- Vou caminhar sem destino. Clarissa se ergue, cheia de coragem:
- Seu Amaro ...
Uma turbao muito grande lhe tolhe a palavra. Amaro, olhos fitos nela, espera.
-?... eu ... eu,., muito obrigada pelo peixinho ... Amaro sorri.
- Oh! No precisa agradecer...
E, olhos baixos, meio confuso tambm, explica, brincando com a aba do chapu:
- Eu ia pela rua e dei com esse aqurio numa vitrina. No sei por que logo tive a ideia de traz-lo...
Clarissa respira, aliviada. J cumpriu a sua obrigao. Agora pode descansar. D. Zina caoa:
- Ufa que demorou esse agradecimento! Amaro sorri.
Clarissa est admirada. O primeiro sorriso que jamais viu nesse rosto triste. Ento o seu Amaro tambm sabe sorrir como os outros homens?
D. Zina, olhando fixamente para os olhos do hspede, fala num tom maternal:
-? Seu Amaro, o senhor trabalha de mais. Precisa alimentar-se.
--No se preocupe, D. Zina ...
- No - replica ela com mais nfase. - Isso no  vida. H muito que eu estava pra lhe dizer mas no achava ocasio. 0 senhor compreende, eu no queria falar perto dos outros. Podiam dizer que eu estava adulando o senhor...
- Ora...
-- Agora vou lhe guardar todas as noites um copo de leite e um pedao de marmelada ou de goiabada.
- No se incomode por minha causa, D. Zina.
Amaro balana com o chapu. A dona da casa insiste:
- Que  que prefere. Goiabada ou marmelada?
- Ora...
Amaro est perturbado.
- Diga, de que  que gosta mais?...
- De goiabada...-diz o hspede, constrangido como se estivesse a fazer uma confisso vergonhosa.
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O espanto de Clarissa cresce. Amaro acaba de confessar! fPrefere goiabada...
- A senhora  muito boa ...
- Pr fogo, como diz o Couto...
- O Tio Couto diz isso por brincadeira... Est se vendo que ele a admira.
Clarissa continua surpreendida. Agora Amaro tem para ela um aspecto mais humano. Uma criatura que a gente pode ver de perto, que conversa, sorri, pode ficar alegre, dizer coisas, preferir goiabada ...
Curto silncio.
Clarissa observa o rosto de Amaro.
- No  feio ... - pensa. - Bem simptico- Que olhos bonitos,.. Parecido com um artista que eu vi numa fita... no me lembro quando ... Quando ri, principalmente, fica mais pare-eido ... Muito simptico ... Como eu sou amiga dtile!
- Bem... -diz Amaro- se me do licena... Olha para Clarissa por um instante:
- Ento, gostou do presente? Clarissa, num arrebatamento, clama:
- Fiquei louca! O senhor nem imagina. Um encanto!
- Boa noite.
Outra vez o homem triste e calado l se v. picando de leve. Clarissa ouve o rudo dos passos dele no jaXdim.
D. Zina se ergue:
-.Vou ver o leite pra ele, antes que me esquea...
Clarissa fica olhando para o livro que tem aberto sob os olhos. Por cima das letras negras agora dana uma figura. Uma figura de homem, olhos ternos, gestos mansos, dedos magros acariciando a aba do chapu. Um homenzinho de voz macia que diz:
- Eu ia pela rua e dei com esse aqurio numa vitrina. No sei por que logo tive a ideia de traz-lo ...
De repente a viso se some. E ali ficam, ijnplacaveis, os dados dum problema: Se trs trabalhadores fa^em 25 metros de um trabalho em 24 horas, quantas horas levaro...
O Tio Couto entra, cara grave.
- Zina!
A mulher aparece  porta da cozinha, con" um copo de 'eite na mo:
139
J
- Que ?
- Vai fazer uma visitinha  D. Tat. O Tnico est passando muito mal.
Clarissa sente um choque.
- Que  que ests dizendo? -pergunta D. Eufrasina.
O copo lhe treme na mo, deixando escorrer pelas bordas gotas que pingam no cho, e que Micefufe lambe, sfrego. Tio Couto sacode a cabea:
- Parece caso perdido
Por cima do problema agora, no livro, Clarissa v o pobre vizinho aleijado, na sua cadeira de rodas. Tem na cabea um chapu de bicos, feito de papel. Levanta no ar a espada de pau. Foi assim que ela o viu a ltima ve2, no ptio ...
Tia Zina vai apressada para o quarto. O marido apanha o chapu e sai.
- Parece um caso perdido ...
A voz do tio soa ainda aos ouvidos de Clarissa. Caso perdido. Tnico vai morrer.
Ela fica parada, com medo at de pensar.
O aqurio projecta sua estranha sombra cheia de reflexos na parede, onde as silhuetas dos vasos e das flores tambm se recortam ntidas.
A morte ... -pensa Clarissa. -A gente nunca se lembra da morte. Mas um dia ela vem, assim de repente. E o Tio Couto entra na sala e anuncia em voz grossa:
- Parece um caso perdido! Perdido. Nunca mais!
- Se o Tnico morrer, nunca, nunca mais ningum v ele no ptio, na cadeira de rodas. Nunca mais...
Amaro revolve-se na cama, sem sono.
Pela janela entra o luar e os rumores da noite. O quarto est cheio de sombra e de reflexos furtivos. Contra a parede cinzenta, a mscara de Beethoven  um rosto branco de sofrimento que a luz da lua torna ainda mais lvido.
Amaro pensa. No seu crebro, as ideias se sucedem em tumulto, rpidas e confusas. Agora ele est ouvindo mentalmente um movimento da Nona. Mas a msica se some: Amaro, de olhos fechados, v uma cidade distante, uma casa entre rvores, uma voz doce que diz:
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- Meu filho ainda h-de ser um grande homem. Outras imagens confusas. Uma letra descontada. Um
ngulo do salo do banco, onde trs cavalheiros gordos discutem o cmbio. Uma viso rpida da rua movimentada e colorida, cheia de preges e semblantes. Outra vez um trecho da Nona. Amaro abre os olhos. Ouve nitidamente as palavras de D. Zina:
- O senhor precisa se tratar...
Sorri. Fica olhando para o quadriltero plido que o luar pinta no soalho. Clarissa est ali... O seu vulto se destaca contra o fundo de cu vagamente luminoso que a janela emoldura. Os seus cabelos esto coroados de prata. Ela -imvel. No rosto moreno se adivinha o brilho dos olhos:
- Muito obrigada pelo peixinho.
Clarissa ... Como ficou moa duma hora para outra! Os sapatos de salto alto a deixam mais mulher... Como se teria dado o milagre? Ontem corria descala no ptio sob os pessegueiros em flor, brincava no jardim com os pequenos da casa vizinha. Hoje - ali, seios apontando, formas definidas, braos e pernas rolios, bonita...
Amaro apaga a viso com um gesto. Volta-se para a parede. Mas na parede outra vez o rosto moreno sorri:
- Muito obrigada pelo peixinho!
Amaro fecha os olhos. Quer pensar no ltimo nocturno que comps. A msica soa-lhe no crebro, um vulto dana, corre, sacode os pessegueiros do ptio, ri sob a chuva de ptalas rosadas.
- Obrigada pelo peixinho!
E Clarissa rodopia, descala, livre, o vento lhe agita o vestido, revolve-lhe os cabelos.
Amaro faz um gesto de impacincia.
- Que bobagem!
E puxa, contrariado, a colcha branca, cobrindo a cabea.
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Cantarolando, Belmira abre de par em par as janelas da sala de visitas que do para o jardim. A luz amarelenta da tarde salta para dentro, fazendo reluzir os mveis polidos, as porcelanas e os cristais.
Clarissa, recm-sada do banho, atravessa o refeitrio. Ao passar pela porta da sala de visitas, detm-se.
Amaro est sentado ao piano. Seus dedos brincam sobre o teclado, tocam de leve uma melodia qualquer.
E se ela lhe falasse, ele se zangaria? Se ela lhe pedisse para tocar uma msica? Se lhe pedisse para inventar uma msica? Era perigoso. Naturalmente ele voltaria para ela uma cara cheia de rugas de aborrecimento, uns olhos sombrios de repreenso e diria:
- Menina cacete!... Por que no deixa os mais velhos em paz?
- Menina? Mas no! ... Agora sou moa, olhe bem para mim, veja este vestido verde e branco, veja os sapatos de cetim, olhe o meu penteado, repare bem no meu rosto. Tenho direitos como as outras moas. Todos os homens sorriem e fazem cortesias para as moas. O senhor no  homem? Eu no sou moa? Pois ento?
Clarissa entra na sala de mansinho.
- Seu Amaro...
No ouviu. Nem se mexeu. Continua a tocar em surdina-Est num outro mundo. Vai ficar zangado.  melhor desistir .-? Com estes pensamentos. Clarissa resolve retirar-se. Mas Amaro se volta de repente. Sorri para ela.
- Estava a?
Que voz suave, que sorriso bondoso, que ar amigo...
14?
Clarissa, perturbada, balbucia:
- Eu ia saindo ... Um silncio breve.
- Gosta de1 msica?
A mesma voz macia, como se estivesse perguntando: prefere marmelada ou goiabada? Tudo to diferente ... Nem parece o homem fechado que subia as escadas como uma sombra, o homem triste que no falava nem sorria.
Clarissa se anima:
- Oh! Tenho loucura por msica.
Respira com mais fora. Os seios arfam sob o vestido verde. Tem as faces incendiadas. Amaro sorri.
- Seu Amaro ...
Uma bola na garganta a impede de falar. Mas ela reage.
Que coisa! Por que tanta vergonha? Seu Amaro no  inspector escolar, no  banca examinadora. Seu Amaro  um moo que mora na penso de titia, um moo j meio criado, como diz a D. Glria, nem bonito mesmo ele chega a ser. Por que tanta atrapalhao?
Amaro espera. Com esforo, Clarissa arrisca:
--Vou-lhe pedir uma coisa.
- Pea ... Silncio de novo.
- Toque ...
- Tocar?
- Sim. Piano.
- Que  que quer ouvir?
- Invente uma msica...
-Quer ento um improviso?
- No, quero que o senhor invente uma msica, agora, aqui ...
- Que vai ser?
Outro silncio. Uma frecha de sol trespassa a varanda, inunda parte do aqurio em que o peixinho colorido nada.
- Oh! - faz Clarissa. - Faa uma msica para o Pirolito. Amaro fica em silncio, por um instante, testa enrugada.
Depois torna a sorrir, volta-se para o piano, estende as mos sobre o teclado ...
- Pois bem'. Vou inventar uma musiquinha para o Pirolito. Rosto iluminado de felicidade, Clarissa pergunta:
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- Como  o nome da msica?
- O nome da msica : Pirolito querendo apanhar um raio de sol.
- Que lindo!
Amaro comea a tocar. Os olhos da menina se agrandam. Ela nem ousa respirar.
As primeiras notas fogem do piano, muito suaves, numa melodia serena.
-?Pirolito est dormindo - explica Amaro. - A gua est calma.
Clarissa sorri.
Os dedos de Anaro danam sobre o teclado amarelento. Por um segundo Clarissa esquece a msica e pensa: as mos dele so bem da cor do teclado.
De repente um acorde mais forte. Amaro diz:
- Um raio de sol atravessa o aqurio ...
Continua a tocar. Vai explicando. Pirolito desperta. Que mistrio  este? A gua est incendiada. Vem da janela uma rstia de sol que passa por uma fresta estreita: parece um dardo que trespassa o aqurio. Pirolito recua. (Um acorde forte.) Fascinado, o peixinho d um salto para apanhar o raio de sol. (Os dedos de Amaro saltitam, geis, batendo nas teclas.) A gua se agita. Borbulhas, ondas, gluglus. A corrida comea. Pirolito, tonto, fascinado, corre e rodopia, querendo pegar a misteriosa fita de luz.
Amaro est esquecido de tudo, tonto e transfigurado tambm como o peixe que quer apanhar o raio de sol. Tremem os bibels que esto em cima da tampa do piano. Um negrinho de terracota oscila. Cambaleiam os vasos de flores. Pirolito corre ainda, embriagado de iluso.
Clarissa sente um misto de delcia e medo. De delcia porque tudo isto  um encanto, um sonho. De medo porque Amaro tem no rosto uma expresso assustadora. Dir-se-ia que esqueceu tudo. Uma mecha de cabelo lhe tomba sobre os olhos, duas rugas fundas lhe vincam a testa.
Mas Pirolito cansa, modera a corrida, pra... v a enormidade do seu sonho. Impossvel apanhar o raio de sol!
Amaro deixa cair os braos. Gotas de suor escorrem-lhe pelas faces. Tem um ar de vencido. H um largo silncio.
- Ento - pergunta Clarissa - o Prolito no pde apa-Inhar o raio de sol?
Amaro sacode a cabea negativamente, e a menina | murmura:
- Coitado!
Amaro passa o leno pelo rosto. Clarissa, numa onda de ternura, pensa:
- Seu Amaro, se eu no tivesse medo de dizer uma bobagem, eu ia dizer uma coisa para o senhor. Ia dizer que o senhor  muito parecido com o Pirolito. Porqu? Porque eu sou amiga do Pirolito e ele nem fica sabendo: vive ali dentro do aqurio, no v ningum, no fala com ningum e nem fica sabendo que eu sou amiga dele. Pois o senhor  bem assim: vive no seu quarto, fechado, no fala comigo, no me v nem fica sabendo como eu sou sua amiga. O senhor  muito parecido com o Pirolito. Eu sei que isto  uma bobagem de menina, mas o senhor me desculpe:  o que eu sinto.
Vai escurecendo aos poucos. L fora o cu empalidece. Passam na rua automveis, buzinando. Olhando Clarissa, Amaro de repente sente uma repentina perturbao. S agora tem conscincia de que ambos esto ss na sala. Em torno deles->o silncio. Clarissa, recostada ao piano, se acna numa quietude embaraosa.
Menina -pensa Amaro.-Tu nunca poderias compreender. Nem tu nem ningum sabe quanta ternura h em mim. Eu hei-de ser sempre para vocs todos o seu Amaro melanclico e taciturno, o seu Amaro que trabalha num banco e faz msica nas horas vagas, o seu Amaro que vai ler os seus livros  sombra dos pltanos, o seu Amaro que no sabe fazer um gesto de amizade nem de acolhimento. Vocs nunca compreendero. E tu, menina, no podes compreender tambm a alegria ntima lue me ds. Porque s poesia, s msica, s... nem sei o ue s... Tudo isto se pode sentir, tudo isto se pode pensar.
nada disto se pode dizer. Seria piegas, seria idiota, como idiota tambm eu dizer que te amo. Tenho mais do dobro ^a tua idade. E algumas rugas no rosto. Pirolito no pode apanhar o raio de sol. O raio de sol  de um outro mundo. Clarissa, se eu pudesse falar, se tu pudesses entender... Eu te ^ria que nunca desejasses que o tempo passasse. Eu te pediria 1ue fizesses durar mais e mais este momento milagroso. A vida
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 m, menina, a vida envenena. Amanh sers gorducha e prtica como titia. Amanh ters filhos, te transformars numa matrona respeitvel. Onde estar ento a menina em flor que corria no ptio atrs das borboletas? Mas tu tens curiosidade de conhecer a vida ...  natural. Talvez nem compreendas a significao deste momento. Quanta coisa eu teria para dizer se eu pudesse falar, se pudesse entender...
Amaro sente-se invadido por uma sensao estranhamente deliciosa. Clarissa olha-o, meio constrangida, mos apertadas, os lbios trmulos.
 porta aparece Belmira. Amaro sente uma onda de sangue afluir-lhe ao rosto. Imediatamente uma recordao lhe vem  mente: teve uma impresso idntica h muitos anos, quando, ainda menino, fora surpreendido pelo pai no momento em que conversava por cima1 da cerca com a filha do vizinho.
A voz da* mulata, dengosa e arrastada, quebra o silncio:
- Seu Amaro, D. Zina mandou pedir pr senhor no tocar mais porque o Tnico da Dona Tat est passando mal...
Amaro ergue-se em silncio. Com passos rpidos, sem dizer palavra, sai da sala, atravessa o compartimento vizinho, e sobe.
Clarissa, imvel ainda, fica olhando para o companheiro de minutos que se some na sombra, outra vez misterioso, outra vez calado, fechado e triste.
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Anoitece e Tio Couto vem dizer em voz baixa que o Tnico est agonizando. Na sala, onde o jantar termina, se faz de repente um silncio muito fundo.
- Que  que est dizendo!-exclama o major.
Tio Couto estica o lbio inferior, numa careta de pessimismo. E afirma:
- Talvez no passe desta noite ...
Zez pergunta o nome do mdico. Ondina lamenta a sorte do pequeno. D. Zina, sacudindo a cabea, com uma lgrima a fulgir-lhe no canto do olho, murmura:
- Pobre da vizinha. To infeliz ... Palitando os dentes, o major suspira:
-  a vida, Dona Zina, que  que se vai fazer?  a vida ... Gamaliel, que raspa com fria o pires da sobremesa, diz
com uma voz untuosa:
- Mais um inocente vai entrar no reino de Deus. Ele disse: Deixai vir a mim os pequeninos ...
Nestor agita-se na sua cadeira. Tem no rosto uma expresso picara quando diz:
- Tnico no pode entrar no cu. Deus s quer anjos com duas pernas ...
Tia Zina arregala os olhos para o rapaz numa repreenso muda. Ningum riu.
Silncio embaraoso.
Clarissa est comovida, mos enlaadas postas em cima da mesa, a respirao difcil, os olhos hmidos.
Tnico vai morrer... E tudo se passa como se nada de extraordinrio estivesse acontecendo na casa vizinha. Na casa rica, do outro lado, o rdio berra uma msica alegre. L fora
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se acendem todos os combustores da cidade. O cu est lmpido, estrelas j a apontar: promessa duma noite serena. No seu aqurio fulgurante, Pirolito nada, revoluteia, agita as guelras. Ondina fala duma fita que pretende ver hoje. Amaro est no seu canto, silencioso e tranquilo. Mas o Tnico vai morrer. Ningum mais o ver de tarde, apanhando sol no ptio, esperando, inquieto, a hora do avio. Nunca mais! E tudo ali seguir no mesmo: os homens e os bichos. Micefufe continuar ronronando, preguioso, por baixo da mesa, por entre as pernas das cadeiras. O Mandarim, no seu poleiro de alumnio, continuar sacudindo as penas verdes. Todos seguiro vivendo, rindo, comendo, caminhando. Mas o Tnico estar morto. Morto... Tia Zina ergue-se de mansinho.
- Vou ajudar um pouco a pobre da Dona Tat-diz. Sa.
Belinha suspira.
Micefufe, parado diante do aqurio, plo arrepiado, cabea erguida, fita os olhos verdes e vidrados no vaso bojudo, onde o peixinho faz piruetas.
Belmira entra com a bandeja cheia de xcaras pequenas em que o caf fumega.
O major e o Tio Couto comeam a discutir sobre a questo do caf. Levinsky, a propsito da avidez com que Micefufe namora o peixinho, expende alguns conceitos filosficos. O velho Pombo afirma que o caf podia ser a salvao do Brasil. O judeu acha que o caso do gato e do peixinho constitui uma parfrase viva de fbula de La Fontaine. E quando Micefufe, depois de arranhar num esforo vo a coluna que sustm o aqurio, desiste da empresa e desliza para a cozinha, Levinsky sentencia:
- Esto verdes ...
Nestor, que no percebeu patavina da comparao e s sabe que La Fontaine foi um cavalheiro francs que escreveu umas fbulas que, s vezes, fazem a desgraa dos estudantes de preparatrios, fica repetindo:
- Mas que judeu burro! Nunca vi ningum to burro! Que besta!
Clarissa tem o olhar empanado pelas lgrimas. Imagina Tnico deitado na sua cama pequena: o rosto plido mal se
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destaca contra o lenol branco. E na casa triste, aquele cheiro de hospital, ratos furtivos correndo rente s paredes, sumindo-se em buracos invisveis. Toda vestida de preto, D. Tat chora desesperadamente. E por cima da casa, a sombra negra da morte, uma caveira horrenda, com uma foice afiada. Ciarissa j viu vrias vezes a morte pintada assim. Foi num livro de histrias: a caveira, em passadas de sete lguas, cruzava os campos; seu manto negro voava ao vento vindo do outro mundo, a foice relampejava no ar e ia ceifando vidas (era assim que estava escrito no livro); homens, mulheres e crianas fugiam em desespero, gritando, chorando, levantando os braos para o cu ... E a caveira ria, olhando a lmina ensanguentada de sua foice mortfera. Ria, ria, como deve estar rindo agora por cima da casa de D. Tat, esperando a hora de cortar a vida do Tnico...
Plaf! Um barulho agudo, seco, acompanhado de tinidos. Clarissa d um salto, assustada. A foice da morte caiu sobre a casa do Tnico?
No. Foi a Belmira que deixou cair a bandeja com as xcaras.
- Estabanada! - repreende seu Couto. - Quando a Zina chegar eu te fao a cama ...
Belmira, imperturbvel, comea a juntar os cacos de loua:
- Ora me deixe, seu Couto! Grande perjuzo... Se faz muita quest eu pago ...
O corao de Clarissa bate com fora, parece que vai saltar do peito.
- Estou desmoralizado... - comenta o Tio Couto em voz baixa.
- Qual!-diz o major.
- No... Estou mesmo. Tambm a culpa  minha. No trabalho. Todos sabem que vivo  custa da Zina....
- Ora ... deixe disso ...
- Comeam a abusar. Pois o senhor no h-de ver, major. At aquele menino, o Nestor, que eu trato to bem ... Pois deu pra inticar comigo, pra perguntar quando  que eu vou trabalhar... J se viu?
- Coisas de rapaz ...
- Agora, at a Belmira. Era s o que faltava!
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O velho Pombo sorri. Mas Tio Couto, num crescendo de indignao, bate com o punho na mesa e remata:
-. Amanh at o Micefufe  capaz de querer fazer pipi na minha cabea.
Clarissa ouve as palavras do tio. No tem vontade nenhuma de sorrir. Tnico vai morrer. Um remorso a assalta: lembra-se da sua ltima visita ao doentinho: as histrias de guerra, a marcha, o tombo ... Com uma vontade doida de chorar, ela se ergue e vai refugiar-se no quarto.
Na noite transparente os jasmins perfumam o ar. As estrelas piscam e o crescente cor de limo se recorta contra o azul levemente esverdeado do cu.
Debruado  janela do quarto, Amaro olha para a casa vizinha. Na parede sombria recorta-se um rectngulo de luz amarelada, onde de quando em quando escureja um vulto.
Nos quintais das redondezas h manchas claras, formas vagas, rudos fugidios. As rvores esto paradas.
Agora, muito longe, um co comea a uivar dolorosamente. Um galo canta. Outros galos respondem, mais longe.
Vem das ruas movimentadas o rudo surdo e prolongado dos bondes. s vezes se ouve o grasnar agudo de uma buzina de automvel.
Depois o silncio cai de novo, um silncio to grande que parece que a gente chega a ouvir o brilho das estrelas.
Amaro pensa no menino moribundo. Uma profunda tristeza pe-lhe um cinto apertado no peito.
Na casa vizinha um menino se debate em agonia. E ele aqui, fechado no quarto, braos cados, inerte. Nem a sua arte nem os seus msicos nem os seus poetas podem salvar a vida de Tnico. Se ao menos ele fosse mdico ... Iria para a cabeceira do doente, lutaria contra a morte ...
No entanto, debruado  janela, como mero espectador, olha apenas para a casa onde a tragdia silenciosa acontece.
Tnico vai morrer: Amaro no pode fazer nada por ele. Nem uma palavra de consolo, nem um gesto de afago. E o menino doente, com a sua cadeira de rodas, amanh no estar mais na paisagem familiar.  hora em que a sombra da noite comear a invadir o ptio, no se ouvir mais o grito dolorido: Tat, vem me busca!
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Amaro fecha a janela devagarinho.
Acende a luz. Abre o piano, tomado subitamente por um desejo invencvel de expresso musical. Toma dum lpis e duma olha de pape! de msica. Em surdina, aos poucos, vai improvisando1 uma berceuse tristonha e doce. De quando em quando se detm para escrever as notas na pauta.
Cano de acalento para o menino que vai morrer.
Fora os galos amidam. O silncio cresce. As estrelas cintilam.
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A manh est inundada de sol. Mas dentro da casa de D. Tat h sombras, vozes em surdina, quatro velas ardendo, cheiro de remdio, de cera queimada, de flores.
Clarissa, um peso no peito, entra na casa, agarrada ao brao da tia. Pelos cantos, no corredor, gente desconhecida. Todos falam baixo. Caras sombrias. Suspiros.
- Morreu ao anoitecer, o pobrezinho...-diz uma mulher sardenta, com ar compungido.
E um homem de barba crescida, que est pitando um grosso cigarro de palha, sacode a cabea com lentido.
- Antes assim ?-? diz ele. - Deus chamou a si mais um anjinho.  como diz o verso: Antes morrer que penar.
A mulher sardenta suspira.
Na varanda o cheiro de flores e de cera queimada  mais acentuado. Olhos muito dilatados, corao aos saltos, Clarissa olha ...
Dentro dum caixo coberto de pano roxo, Tnico est deitado entre flores, mais branco que os jasmins. Tem o corpo escondido sob rosas, margaridas e glicnias. S lhe aparece a cabea: o rosto magro e comprido, o nariz afilado, lbios sem cor. As chamas das velas bamboleiam, sopradas pelo vento da manh que entra pelas frestas das janelas.
Algumas pessoas da vizinhana esto na varanda, ao redor do caixo. As comadres falam. E falam os homens indiferentes que passaram a noite contando anedotas, fumando e tomando caf.
- Minha filha, fique aqui enquanto eu vou ver a Dona Tat. Clarissa faz com a cabea um gesto afirmativo. D. Zina
desaparece na penumbra dum quarto.
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Toda trmula, as mos tranadas descansando no colo, Clarissa fica sentada numa cadeira, sem a coragem dum gesto. Na sala brotam cochichos, risadas abafadas, murmrios.
 cabeceira do defunto, um Cristo grande de prata, braos sangrando presos na cruz preta, tem a cabea cada sobre o peito e uma expresso de sofrimento no rosto. O vento agita as chamas das velas: h reflexos mveis no corpo do crucificado. No meio das flores Tnico parece apenas adormecido.
Nem o ronco do avio pode acord-lo agora. Nem o som de clarins e tambores dos batalhes que passam na rua.
Uma velha, piscando o olho e apontando para o crucifixo com o lbio inferior esticado, murmura para a vizinha:
- Velrio de gente rica. Cristo de prata, castiais finos ... Sacode a cabea num gesto significativo e continua.
- Quem ser que paga? Dona Tat, toda a gente sabe que  pobre como rato de igreja. Ainda o ms passado cortaram a luz por falta de pagamento...
Uma mulher magra de pescoo comprido explica que quem est fazendo todas as despesas  o Dr. Maia, um moo muito simptico, recm-formado, que mora na casa vizinha.
- De onde saiu essa amizade? - insiste a velha, numa inteno maliciosa.
A comadre magra encolhe os ombros. E um senhor calvo e srio que est junto dela intervm e explica:
- No v que o moo chegou h pouco do Rio, onde estava estudando. Foi ele que atendeu o menino. Fez o que pde. Mas ningum vence o destino. O Tnico morreu e o doutor ficou com pena desta misria ...  rico, resolveu fazer todas as despesas ...
A mulher magra suspira.
- Sempre h ainda neste mundo almas caridosas.
A velha faz um gesto de quem tem ainda as suas dvidas. O senhor grave sacode a cabea com solenidade.
Do quarto contguo vm os soluos abafados de D. Tat. Pelas velas grossas escorrem fios longos de cera.
O rosto do Cristo est todo pontilhado de rebrilhos. E no seu leito de flores Tnico continua a dormir ...
As lgrimas brotam nos olhos de Clarissa. Na parede da sala, colada com sabo, h uma gravura em que se v Napoleo Bonaparte montado no seu cavalo branco, visitando, soberbo,
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um campo de batalha depois da vitria. O cho est juncado de cadveres, de mochilas destroadas, de bandeiras, de canhes e carabinas, e de sangue. Longe, um crepsculo avermelhado.
Clarissa se recorda perfeitamente do dia em que Tnico arrancou com sofreguido aquela pgina a uma revista.
- Que bonito, mame. Manda botar num quadro, manda!
E nesse dia fez com uma folha de jornal um chapu de dois bicos, como o de Napoleo. Movimentou sua cadeira pelo ptio, e como o grande general no seu cavalo branco, passeou por um campo de batalha imaginrio.
Clarissa olha para o caixo. Tnico... ali, sem vida, parado, silencioso. No poder mais ir para fora, tomar sol, pr em formatura os seus soldadinhos de chumbo, dar ordens de combate, esperar o avio... Morto para sempre, irremediavelmente. E ... porqu? Por que ser que a vida  assim? Daqui a pouco aparecem uns homens indiferentes, tiram as flores do caixo, chamam D. Tat para se despedir do filho. Ela vem, chora, grita, abraa o cadver; os homens a arrastam dali, fecham o esquife, erguem-no pelas alas, levam-no lentamente pela rua, vo  igreja, o padre canta uma cantiga triste numa lngua que no se entende: o enterro continua a marchar, entra no cemitrio, os homens descem o caixo para o fundo dum buraco e depois um coveiro sujo, e tambm indiferente, comea a jogar terra em cima do caixo, terra e mais terra; o acompanhamento se retira e l fica debaixo do cho o Tnico, to fraco, to desamparado, to desgraado, sozinho, sem me, sem amigos, sem sol, sem nada...
Pelo rosto de Clarissa escorrem lgrimas mornas. Se ao menos abrissem a janela, se ao menos deixassem entrar a luz, o sol, o ar, o perfume das flores vivas... Sim, porque estas flores que cobrem o defunto so flores da morte, tm um perfume diferente, uma cor estranha... Se ao menos abrissem as janelas... O ambiente da varanda sufoca. As velas bruxuleiam. O Cristo de prata lampeja. E no seu caixo roxo Tnico continua imvel, como um triste boneco de cera. Moscas voam-lhe ao redor da cabea.
Os lbios de Clarissa tremem, mas deles no parte o mais leve sonido. Intimamente, ela est dizendo ao pequenino morto:
--Tnico, perdoa se eu te fiz algum mal. Perdoa porque eu sempre fui tua amiga, sempre tive muita pena de ti. Tnico,
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tu te lembras de quando eu te contava histrias de guerra? E se naquele dia tu caste da cadeira, eu no fui culpada, te juro, por este Cristo, que no fui. Tnico, por que no acordas outra vez? Tnico, olha que daqui a pouco o avio vai passar. Tnico, que surpresa boa para todos se tu acordasses, se tudo isto fosse um sonho, s um sonho ...
Uma senhora de rosto bondoso entra na varanda, afugenta as moscas e cobre o rosto do morto com um leno lils.
Um homem carrancudo consulta o relgio.
- J est na hora - resmunga. - No sei por que esperam tanto tempo ...
- No querem levar o defunto sem ordem do doutor que tratou dele...-explica algum.
O homem impaciente faz uma careta. Ouve-se uma voz que diz:
- O doutor chegou ...
Todas as cabeas se voltam para a porta. Um homem alto entra. Est vestido de escuro. Tem uma voz metlica.
- Senhores, vamos abrir as janelas -diz-, vamos abrir as janelas, este ambiente est irrespirvel!
Como ningum se mexe, ele mesmo vai s janelas e abre-as de par em par. O sol da manh invade o compartimento num jorro fresco e dourado. Sob a luz forte, agora todas as fisionomias e todas as coisas tm um tom diferente. Os rostos parecem mais plidos. Some-se quase a luz das velas, diluda na claridade maior.
0 Dr. Maia est no meio da sala, braos cruzados, olhando para o caixo. Os seus cabelos louros rebrilham na luz. Tem um ar pensativo, testa enrugada.  claro, rosto ,fino, lbios delicados. Clarissa lembra-se de que j viu numa gravura um moo parecido. Foi no cinema? No. Onde foi, ento? Foi num livro de histrias, talvez... Sim. Na histria do Prncipe Sapo.
O homem que consultou o relgio se aproxima dele.
?- Doutor, o senhor nem sabe a obra de caridade que est praticando ...
- Ora...
- No, naturalmente por modstia o senhor no d ao seu gesto o valor que ele tem, mas que  um gesto muito bonito, ! isso !
O Dr. Maia pe a mo no ombro do interlocutor.
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- Obrigado. Essas coisas ... nem  bom a gente falar.
Olha o relgio de pulso.
-?Bom. Podemos fechar o caixo. Faa o favor de avisar a me ...
Clarissa tem um sobressalto. Na sala todos se levantam, aproximam-se do defunto. Querem olhar de perto a cena da despedida.
Trmula e perturbada, Clarissa foge.
O major Pombo, o Dr. Maia e mais dois homens desconhecidos carregam o caixo de Tnico. O acompanhamento  pequeno. Vo dois automveis: o Cadillac azul do Dr. Maia e o Ford velho de aluguel do seu Patrcio, um conhecido de D. Tat.
Quando o enterro sai, rumo do cemitrio, as janelas das casas da vizinhana se fecham. Mas h olhinhos curiosos que ficam espiando pelas frestas ...
Escondida atrs do porto do jardim, Clarissa tambm espia. No meio das caras tristes do enterro o rosto do Dr. Maia, claro e rosado,  um contraste vivo. Os seus cabelos louros fulgem.
Ah -pensa Clarissa-, se o Tnico pudesse ver quem vai segurando uma ala do caixo dele, ficava at contente.
O cortejo fnebre marcha devagar. s janelas, que se vo abrindo aos poucos, assomam cabeas curiosas. As comadres trocam impresses.
No cu rtilo, nuvens de algodo se amontoam, s veze.s escondem o sol, projectando largas sombras na rua.
Vem duma casa prxima o som abafado dum gramofone. Uma voz dengosa diz que a vida  boa:
Esquece as tristezas,
meu bem, Vem pr gandaia,
gozar.
E Tnico se vai, para no voltar mais ... E o dia est lindo. Um avio passa no cu: suas asas chispam. Sobre os telhados h uma revoada de pombas assustadas. No jardim da penso as flores se abrem: cravos, papoulas, jasmins, rosas, margari-
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das ... E a voz que sai da vitrola lembra a alegria dum Carnaval que passou.
O enterro segue devagarinho. Clarissa ainda v a cabea do Dr. Maia, rtila no meio de outras cabeas escuras e foscas. 0 Cadillac rola mansamente sobre os paraleleppedos, sem rudo. 0 Ford do seu Patrcio vai numa marcha estertorosa, convulsiva, aos sacolejos, roncando penosamente.
O cortejo some-se na volta da rua. Clarissa fecha os olhos. No presta ver enterro sumir-se... Olhos fechados, ela pensa:
Pobre do Tnico. Pobre da Dona Tat. Nunca mais!
Abre os olhos. O enterro desapareceu. Mas a vida continua, sob o cu indiferente. Passa a carroa dum verdureiro, toda fresca de folhas verdes, no meio das quais berram os tomates vermelhos e as cenouras ruivas.
Ouve-se uma voz de mulher:
- Seu Zacarias, hoje no quero tomate!
A rua se movimenta. Passam homens e mulheres pelas caladas. Um nen nu chapinha na gua corrente da sarjeta, d gritinhos de gozo: o rosto redondo e sujo de barro resplandece ao sol. Um cachorro se espreguia em cima dum portal. Duas raparigas vestidas de claro atravessam a rua, falando e rindo.
Mas Tnico no voltar mais, nunca mais.
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A sombra das rvores e das casas se alonga sobre o cho. Um vento fresco bole nas folhas e nas corolas, sacode os estores das janelas.
Clarissa desce ao jardim.
Quem  que no sente alegria nesta tarde bonita? Quem  que no sente vontade de viver?
No horizonte vem-se grandes nuvens rosadas, com franjas de fogo. Mais para o alto o cu tem uma cor suave de opala; bem no alto  azul desmaiado, puro, transparente, parelho. O vento bate no rosto da gente, perfumado e fresco.
D. Tat, depois da morte de Tnico, foi viver com uns parentes numa cidade do interior. E a fachada de sua casa, de janelas e portas fechadas, parece um rosto triste. Tnico repousa l no alto da colina, na cidade branca, debaixo da terra. Os passarinhos cantam num pltano perto da sua sepultura. Clarissa j foi levar-lhe flores, numa tarde de domingo. Todos os tmulos caiados (as recordaes lhe brotam  mente agora) tinham, ao sol, reverberaes que faziam mal aos olhos. Clarissa levou uma braada de rosas e margaridas. Na cruz de madeira h uma placa de folha, com letras tortas:
AQUI JAZ
Antnio da Conceio Barbosa 1921 -1932
ORAI POR ELE
Parecia impossvel que Tnico estivesse l em baixo, no ventre da terra escaldante, fechado, sozinho...
Clarissa espanta os pensamentos tristes. No fim de contas ela est viva. Viva! Pode respirar este ar fresco, ver o cu colorido, ouvir o rdio que toca na casa vizinha, olhar as flores ...
Senta-se  sombra dum cinamomo. No cho ocre, as folhas da rvore desenham arabescos caprichosos. Ao longo do tronco passeiam formigas numa fila comprida e sinuosa. Clarissa sorri. As formigas so o pesadelo da tia Zina.
- Me estragam as flores, essas danadas! Uma coisa horrorosa. Deus botou no mundo duas pragas! Uma foi a formiga.
Quando tia Zina disse isso, Tio Couto levantou os olhos de boi manso e falou:
- A outra nem precisa dizer, que j sei. Sou eu... Quando a titia se revolta contra os bichos daninhos, o
marido tambm entra na dana.
Do rdio da casa vizinha vem a voz do speaker.
- LR 3, Radio Nacional de Buenos Aires. Uma voz grave e sonora.
Buenos Aires ... - pensa Clarissa. - Deve ser bonito ... Casas altas, muito altas, muita gente, teatros, cinemas, praas... Viajar... Ir pelo mundo, ver coisas novas. Lua-de-mel. Um marido louro, como um prncipe das histrias de fadas. Viajar... Ver outras gentes... Sair desta vida sempre igual, sempre presa, com as mesmas pessoas, os mesmos segredos. Jantar noutra sala que no seja a da penso, ouvir outras vozes que no sejam  do major, a do Tio Couto, a do Gamaliel, do judeu, da Ondina, da Belinha... Viajar. Livre! Ser outra pessoa...
Outra vez a voz do speaker:
- Se va a transmitir ahora el Nocturno nmero 2 de Cho-pin. Gravacin,
Um violoncelo comea a gemer.
Na janela verde da casa rica aparece um vulto. Clarissa sente um sobressalto.  o Dr. Maia. Debrua-se ao peitoril e fica olhando para o jardim. Tem um cigarro preso aos lbios, solta para o ar baforadas de fumo azulado que lhe envolvem o rosto.
Clarissa recorda num segundo: a casa de D. Tat, com o seu cheiro de morte, cheia de cochichos, e sombras. De repente
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entra aquele moo bonito, como se tivesse nascido ali mesmo por obra de encantamento:
- Vamos abrir estas janelas, senhores, por favor. Este ambiente est irrespirvel!
Um milagre! Os cabelos do Prncipe so feitos de raios de sol...
E agora ele l est, debruado  janela, olhando indiferentemente para o jardim. Ento aquela  a casa dele? Mora com o Capito Mata-Sete, a Ana Maria, o Tancredo, o Bolinha?
Clarissa tem os olhos fitos na janela. O Prncipe fuma, sereno, como que alheio a tudo. Talvez esteja sonhando ...
Clarissa lembra-se agora precisamente de onde viu uma cara assim. Foi no livro que o major Pombo lhe deu. Aquele moo que est ali na janela  parecido com o Prncipe Sapo. No h dvida.
"Era uma vez uma menina que deixou a sua bola de ouro cair dentro da gua e ser levada pela correnteza. Ento ela comeou a chorar.
- Por que choras, minha menina?
Ela ficou muito surpreendida por ouvir uma voz, pois no via ningum perto. Depois, reparando melhor, avistou um sapo verde em cima duma pedra.
-  voc que est falando, sapo?
- Sim. Por que choras?
- A correnteza levou minha bola de ouro.
- No chores, minha menina. Se tu me prometeres trs coisas eu te trarei de volta a bola de ouro.
- Quais so as trs coisas?
- Tens de me levar para casa, deixar-me comer no teu prato e dormir na tua cama.
A menina prometeu tudo e o sapo lhe trouxe de volta a bola de ouro. Depois a menina ficou com nojo do sapo quando o viu comendo no seu prato. E quando o sapo pediu que o pusesse na cama, ela no se conteve, agarrou-o por uma perna e jogou-o contra a parede. Imediatamente o sapo se transformou num prncipe louro e lindssimo, que contou que uma feiticeira m o havia feito virar sapo.
No fim da histria, o prncipe louro casou com a menina e levou-a para o seu reino, numa carruagem de ouro ...
E Clarissa sente-se arrebatada tambm por um moo louro, dentro duma carruagem dourada, puxada por cavalos negros que galopam, caminhando para um reino de maravilhas...
Na janela, o Dr. Maia solta uma baforada longa, fica olhando para a fumaa que se dilui no ar e depois, com um gesto indiferente, joga fora o cigarro, volta-se para dentro e desaparece.
A viso encantada se apaga.
A noite desce.
Na sala de jantar as luzes esto apagadas. Clarissa entra. Tem vontade de gritar:
- Por favor, senhores, vamos acender as luzes. Este ambiente est irrespirvel!
E ela sente que de agora em diante a vida no poder ser a mesma.
Dezembro.
Na penso de D. Zina a vida rola.
As mesmas caras, os mesmos rudos, as mesmas vozes.
No jardim brilham as papoulas. Micefufe passeia preguiosamente por cima do muro, onde j morreram as glicnias e as rosas.
Na casa de D. Tat: silncio, um silncio parado, sombrio, um silncio de morte e esquecimento. No cho do ptio ficou abandonado um soldadinho de chumbo.  o capito. De mo erguida, espada em punho, parece comandar uma carga. A sua tnica vermelha est desbotada. Que vento mau teria levado o penacho do bravo comandante?
Manhzinha. Nestor entra no banheiro e fecha a porta com violncia. Depois se houve o chiar mole da gua. E uma cano de Carnaval entrecortada de bufidos, trmula, sincopada.
D. Zina aproxima-se da porta, bate devagarinho.
- O Nestor!
De dentro, uma voz grossa:
- Quem foi que morreu?
- Olhe! No gaste muita gua. O ms passado tive que pagar excesso ...
D. Zina se vai corredor em fora, sacudindo as banhas, arrastando as chinelas.
Dentro do banheiro a cantiga recomea:
Queria te v na frente Duma pistola Todo frajola ...
Sete horas. Gamaliel desce para o caf. Vem cheirando a gua de laranjeira, o cabelo lambido.
Senta-se  mesa, limpa a colher na ponta da toalha, examina a manteiga, o po, a xcara, pigarreia, junta as mos, inclina a cabea, fecha os olhos e murmura:
-  Deus, abenoa este alimento que vou tomar e d-me tambm o po espiritual, por amor de Cristo Te suplico! men.
Por alguns segundos fica ainda concentrado, na mesma postura. Depois ergue a cabea, descerra os olhos, sorri, certo de que Deus, como de costume, o escutou,
- Belmira!
Da cozinha vem uma voz debochada:
- J vai!
- Estou com pressa!
- Pois eu no estou...
O rosto de Gamaliel escurece.
- Bem-aventurados os pobres de esprito. No alpendre, o papagaio canta:
- Caf! Caf! Caf!
Belmira entra na varanda com a bandeja de lata pintada, onde vem o bule de leite e a cafeteira, ambos a fumegar.
Gamaliel esfrega as mos.
" Bebendo seu caf, pensa na farmcia. O dia pode ser duro, mas pode no ser. Se o Dr, Severiano aparece, vai ser um deus-nos-acuda. Se no aparece, melhor. Se o patro no amanhece atacado, tudo correr bem. Se amanhece, pacincia. o diabo  que o aumento prometido nunca vem. Diabo, no. Um bom protestante nunca deve falar no nome do Diabo. Mas a verdade  que o aumento no vem. E o diabo  que a fatiota de domingo j est ficando lustrosa. Outra vez o Diabo! Livra, tentador! Enfim, se o Dr. Severiano no aparecer com as suas receitas conhecidas - uma colher, de duas em duas horas - tudo estar bem, O pessoal da roda vai comparecer na certa. o chimarro correr de mo em mo. Diz-que-diz-que. Poltica. Boatos de revoluo. Futebol. Dizem que a mulher do Fulano anda namorando o Sicrano. Sinais dos tempos. Imoralidade aberta. Os pais contra os filhos, os amigos contra os amigos. E ruiro cidades. E o fogo dos cus cair sobre Sodoma e Gomorra. Est escrito.
- Seu Gamaliel, mais caf?
Gamaliel desperta.
 sua frente Belmira exibe uma carranca de m-vontade.
- No quero mais. Obrigado. Est na minha hora. Ergue-se, toma o chapu e ganha a rua, no seu passito
mido e apressado.
Belinha acaba de ler Elzira, a Morta Virgem. D. Glria no melhorou do reumatismo.
Na cmoda do quarto, na frente da imagem de So Sebastio, est sempre uma vela acesa. Promessa.
- Mame - diz a Belinha -, sabe quanto gastmos de vela, o ms passado, no armazm?
D. Glria pe uma cara interrogativa. A filha, destacando bem as slabas, para dar nfase:
- Qua-ren-ta mil-ris!
Voz tremida e dolorosa, a me lamenta:
- E no h jeito de eu melhorar... Belinha suspira.
Encaminha-se para a sala de visitas. Est na hora da lio de canto. Daqui a poucos minutos surge na porta, ar tmido, todo encolhido, culos acavalados no nariz recurvo, bigodinho cado dando um ar de desnimo e desleixo ao rosto emaciado - o seu Licurgo, o professor de canto, velho conhecido da D. Glria, e vivo.
Belinha abre o piano. Com o dedo fura-bolos bate numa tecla. Um d rouco e dolorido sai do bojo do velho piano.
Enquanto passeia os dedos de leve sobre o teclado, Belinha pensa: enfim, se o seu Amaro quisesse ... Porque ningum pode negar que  um bom partido. Simptico, inteligente, compositor, quieto, bom moo. Enfim... Nem um olhar, nem uma esperana. Antes ainda havia um tiquinho de esperana, assin-zinho do tamanho duma unha. Mas hoje, desiluso completa. Nada. Silncio, cara fechada, indiferena. Mas no vale a pena desesperar. Seu Licurgo vem a. Reserva. Quem sabe? Feio -  verdade - mas remediado, professor de canto e solfejo, homem maduro e srio. Na falta de outro, serve. Mas que timidez! At que ele se declare, as galinhas chegaro a criar dentes ...
Um rudo. Belinha volta a cabea.
 porta, a pasta debaixo do brao, chapu na mo, seu Licurgo est parado.
- D licena?
Belinha abre o seu melhor sorriso:
- Pois no, professor, v entrando. Seu Licurgo entra.
- Como tem passado?
Sempre a mesma pergunta. E o mesmo perfume: Essncia Vitria, um extracto longnquo, que vem l do passado, que lembra velhos bas e velhos fraques.
Belinha senta-se ao piano, arranja os cabelos num gesto dengoso. O professor pigarreia, ajusta os culos, marca o compasso com a mo e:
- Vamos! --diz.
Belinha canta a escala em a. Sua voz aguda e trmula corta o ar como um estilete.
Micefufe mete a cabea no vo da porta, assustado: seus olhos fuzilam, verdosos. Belinha alcana o si natural e Micefufe foge numa corrida desabalada, rumo da cozinha. O Mandarim, assanhado, comea a gritar desesperadamente.
Belinha desce a escala.
Enfim, o seu Licurgo no  precisamente um marido ideal. Mas serve ... H piores.
- Isto  erva, e da boa!
O major Pombo elogia o chimarro. Si Andresa sacode a cabea em silncio. Os seus olhos de peixe morto, amarelentos e baos, esto imveis. Pende-lhe dos lbios grossos o cigarro de palha.
Madrugada. Cantam galos nos quintais. Vem de fora um vento frio que cheira a sereno. A luz plida que envolve a paisagem vai se avivando aos poucos. No horizonte rseo h j reflexos de ouro.
- Si Andresa, s ns  que madrugamos nesta casa.
- Nois e a si Zina - corrige a negra velha.-Daqui a pouquinho ela est por a.
A chaleira chia, em cima da chapa do fogo.
- Si Andresa, voc nunca casou?
- Nunca.
- No achou um moreno que lhe agradasse?
Si Andresa sorri. E, com sua voz rouca e spera, explica:
Quando vim da minha terra. Minha me recomendou: Minha fia, nunca te casa. Que a tua me nunca casou.
O major solta uma gargalhada. A negra arreganha os beios num sorriso desmanchado.
- Teve filhos?
- Tive.
- Quantos?
- Um.
- Onde est?
Si Andresa faz um gesto vago.
- Anda a pelo mundo...
O major quer continuar a dar trela. Mas a negra velha se esquiva:
- Bueno. Deixe ir arrumar as coisas pr caf. Quando a manh clareia por completo, o major desce ao
jardim para ver o seu p de cravos. Ele mesmo o plantou, com licena da D. Zina. Aos sbados apanha religiosamente um cravo vermelho, e o pe na lapela do fraque preto com que vai  missa. Se encontra alguma flor crestada, resmunga palavras amargas contra o sol, contra as formigas, contra a terra m.
- Ser que a gente desta casa no tem ocupaes? Dormindo at esta hora?
Tem mpetos de gritar:
- o Couto!  Barata!  Amaro! Vamos, meus amigos. Desam! Acordem! Eu preciso falar! Preciso dar conselhos a vocs, maldizer os homens e as coisas pblicas, ditar normas de governo e de vida, fazer perguntas ... Eu estouro! No aguento mais.  do meu feitio: preciso conversar, conversar, conversar ...
Mas como na casa o silncio continua, o major se contenta com ficar contando aos cravos, s papoulas, aos jasmins e s formigas de como certo general que comandava somente quarenta mil homens venceu o inimigo dez vezes mais numeroso.
O relgio grande bate seis badaladas.
D. Zina recebe na porta o po e o leite.
- Olhe, seu Zacarias, o leite tem vindo muito aguado. Como  isso?
Seu Zacarias embatuca.
D. Zina no insiste na pergunta. Reclama ... por nada, por hbito.  -como costuma dizer- para no habituar mal o fregus.
Depois de abrir as janelas da sala de visitas e do refeitrio, vai bater  porta do quarto da Belmira:
- Acorda, rapariga!
Bate com insistncia e s deixa de bater quando Belmira, l de dentro, resmunga um - J vou! abafado e sonolento.
D. Zina lava a roupa no tanque, bate-a na tbua. A trouxa de anil risca o tanque de veias azuis. Tia Zina torce a roupa e depois vai estend-la na corda que corta o ptio em diagonal.
s vezes cantarola uma cantiga do tempo de dantes:
Os sinos da tarde, Me lembram saudosos Daquelas paragens, Aonde nasci...
Uma cantiga que aprendeu l no stio. D. Zina nem chega a cantar. Pensa apenas na cantiga, e convence-se de que est realmente cantando em voz alta. A iluso  to perfeita, que s vezes ela se cala, apreensiva, imaginando que est a fazer barulho para os que ainda dormem.
Estende na corda uma camisa do marido.
E o Couto que no h jeito de achar emprego? Tambm ele no quer outra vida. Dorme at tarde como um baro. Come como um abade. Fia-se na promessa dos amigos e o tempo passa. Um traste! Tambm o coitad'o trabalhou toda a vida, agora porque teve a infelicidade de perder o emprego, a gente no deve atucanar a pobre criatura. Porque acontecem desses desastres na vida ...
(D. Zina pega duma blusa de linho de Clarissa.) Est uma moa. Bonita como o pai. E comportadinha, graas a Deus. Inocente, bobinha que at d vontade de rir. Mas antes assim, porque estas meninas de hoje so umas sabidas... Nem que fosse minha filha eu poderia querer mais bem a essa diabinha. E pensar que faltam to poucos dias pra essa menina ir
embora... Frias. O pai no pode vir busc-la. Escreveu: Mandei um vale-postal com dinheiro para a passagem da Clarissa e do Couto que eu pesso para ele o obsquio de trazer a menina e passar uns dias aqui com ns. Como Clarissa vai deixar saudades! ...
Agora D. Zina tem nas mos outra camisa do marido, rasgada no punho. Relaxado! Tambm  de mais. Dormindo at esta hora!
Enxugando as mos no avental, D. Zina corre para dentro e abre a porta do quarto num safano.
O marido dorme sono fundo.
D. Zina sacode-o.
- Couto! Acorda! Couto!
Com um ronco estertoroso. Tio Couto se revolve na cama, abre um pouco os olhos e resmunga:
- An ?
- Pula da cama, homem! No tens vergonha?
- An?
Com uma cara palerma, Tio Couto soergue-se.
- Vamos - insiste a mulher. - Pula! Que coisa horrorosa! Coando a cabea, a cara amassada. Tio Couto atira as
pernas para fora da cama.
No banheiro o espelho oval da pia reflecte um rosto aborrecido e cheio de sono.
Durante o caf, Couto, azedo, conversa com o major e diz mal dos polticos, do po, da manteiga e da vida. O major ri para dentro:
- He-he-he-he!
- No tm palavra, so uns conversadores! - vocifera o marido de D. Zina.
- Quem?-acode o major.
- Os polticos. H um silncio.
- Est sem sal!-berra outra vez o Tio Couto,
- Os polticos?
- Ora, major, a manteiga, naturalmente!  Belmira! Mas Belmira no d sinal de vida. Tia Zina, de outro compartimento, avisa aos berros:
- A Belmira est ocupada! Com uma praga Couto levanta-se.
E mais tarde, para que no lhe chamem vagabundo, pretexta um trabalho qualquer. Vai fazer uns remendos no galinheiro, umas composturas hipotticas no encanamento, no poro ...
E resmunga de si para consigo mesmo:
- E ainda dizem que eu no trabalho!
O Barata anda viajando.
Mas Ondina se distrai com o Nestor. Cochicham pelos cantos, trocam-se olhares. O major j comentou o agarra-mento. A tia Zina farejou o namoro.
Enquanto o marido passa contrabandos de seda na fronteira, Ondina pinta os olhos como a Mirna Loy e canta:
Es deliciosa, to caprichosa!
Quando desce a escada, tem meneios de mulher fatal, e deita olhares compridos para o Nestor,  hora das refeies.
Agora j o seu predilecto no  mais o Warner Baxter mas sim John Barrymore, que ela acaba de ver numa fita de sensao.
- Que homem! Que perfil! Que distino!
Belinha lamenta que hoje em dia no haja no cinema um tipo como o Gustavo Serena, das velhas fitas da Cines. Com uma careta humorstica, Ondina ironiza:
- No conheo, minha filha. No sou desse tempo ... Belinha enfia. Caiu sem querer. Faz o possvel para esconder os seus trinta e cinco anos.
E Ondina, mastigando um pedao de galinha, pensa numa tarde escura de chuva e num beijo quente e longo que no tinha o gosto familiar e enjoativo dos beijos do marido...
29
Olhos e ouvidos atentos, Clarissa v e ouve tudo o que se passa a seu redor. Nada lhe escapa  percepo. A galinha branca bota mais ovos que a galinha preta; a galinha amarela, porm, bota menos ovos do que a galinha preta. Ontem o Mandarim estava mais alegre que hoje. A semana passada o Barata estava com mais apetite do que nesta semana. Nos canteiros h mais papoulas que rosas. Faz quatro dias que as crianas da casa vizinha no brincam de roda no jardim. Este ms s choveu dois dias.
 como um prisioneiro que - privado do espectculo integral da vida, das paisagens livres e largas - se distrai com examinar detidamente os detalhes mnimos de sua cela.
E os dias vo passando.
Na penso no h novidade. Isto : o judeu foi embora, j formado. Ficou devendo um ms de penso. Tia Zina no queria deixar sair as malas dele. Mas Levinsky fez uma choradeira enorme, jurou pelo seu Deus que mandaria pagar logo que pudesse. A dona da casa ficou comovida e deixou-o sair em paz.
Clarissa no pode esquecer a figura triste que Levinsky apresentava no dia da colao de grau, metido num smoking alugado que lhe danava, frouxo, em cima do corpo.
Zez tambm azulou duma hora para outra. Teve medo do exame; e um dia, de surpresa, chegou para a tia Zina e pediu:
- A senhora faa o favor de ver a minha conta que eu vou viajar amanha...
Tia Zina fez cara de espanto e arregalou uns olhos deste tamanho.
- Amanh?
Mas o exame? E a carreira?
Zez, muito constrangido, desculpou-se com o maldito estmago, pediu por falar em estmago um ch com torradas. E foi arrumar a mala.
Clarissa tambm no esquece o ar tristonho e derrotado com que o estudante de Medicina subiu a escada, rumo do quarto.
Aquele dia foi de azedume para tia Zina: dois hspedes de menos. E o Tio Couto continuava na moita, sem se mexer para procurar trabalho.
Dudu aparece s vezes. Vem como uma onda fortemente colorida; deixa por onde passa um perfume activo de Mitsouko e o eco de sua voz estrdula. Fala com rapidez, salta dum assunto para outro, inconstante. Gesticula, ri, pe-se sria de repente, suspira e depois torna a rir.
Clarissa vive fascinada por essa menina de olhos grados, barulhenta e alegre como um guizo.
Dudu entra na penso da D. Zna como mensageira de um outro mundo, do mundo que est l fora. Conta histrias fabulosas. Um novo tipo de coquetel. A ltima inveno em matria de gelado. Uma fita de cinema, sensacional. Rapazes. Novos amores. Aventuras que ela conta apressadamente numa confuso, lanando para os lados olhadelas furtivas, com medo de que D. Zina aparea dum momento para outro, pra fiscalizar.
Rtila e rpida como um sonho bom, Dudu chega, conversa, ri, canta e se vai ... Segue pelo jardim em passadas largas. Clarissa leva-a at o porto. Despedem-se com um beijo. E Dudu segue pela calada, faceira, gingando, elegantssima.
Clarissa acompanha a amiga com um olhar comprido e enamorado.
Encosta tristemente o rosto ao muro. O porto  o limite. Alm do porto est a vida com todos os seus mistrios e todos os seus encantos.
Belinha est ao piano fazendo gorjeios impossveis, assustando o gato, irritando o papagaio. L em cima o seu Amaro martela no piano alugado. Tia Zina remenda as meias do marido. Belmira arruma as mesas para a janta. No aqurio Pirolito nada. Parece triste tambm. Se falasse, diria:
-. Isto me aborrece. No vem que sou do mar? O mar  imenso. Por que no me matam, por que no me servem  mesa com molho escabeche?
Clarissa encosta o rosto ao vaso de vidro. Se no fosse uma tolice conversar com um peixinho colorido que no pode entender o que as pessoas dizem, ela diria:
- Meu amigo, eu tambm vivo presa. Sou do campo. L fora, corro pelas macegas, vou tomar banho no lajeado, monto o meu petio zaino e vou sozinha apanhar sete-capotes na beira do mato, ver a cascata grande ... Aqui, presa, estudando, estudando. Pra qu, no  mesmo?
Mas, de sbito, uma ideia clara e alegre lhe invade a cabea. Dentro de poucos dias estar em casa. Os exames no tardam. Ah!, Ela h-de por fora fazer bons exames. Depois -a viagem. O trem, os passageiros, as paisagens, as estaes com caras e casas e coisas novas. Finalmente a sua cidadezinha de interior, a casa grande de muitas janelas, pintada de amarelo. Na frente, os pltanos. E a rua contente: do outro lado a casa do seu Mascarenhas, colector estadual. A Lilita, filha dele, deve estar crescida. H-de lhe dizer com sua voz chorona:
- Clarissa, como se foi de estudos?
A velha Ambrsia estar no portal da casa, esperando a minha fia, beiarra arreganhada num riso cheio de gozo. Papai vir de braos abertos, com o seu cheiro de fumo, os seus olhos escuros e aquela barba dura que espinha... Mame -essa, coitada!- estar quase chorando de contentamento. Naturalmente no dia da chegada da filha querida h-de botar o seu eterno vestido marrom com enfeites pretos, o trajo de domingo. No almoo haver peru com farofa, croquetes e guisadinho com abbora. Uns dias na cidade. Depois o Ford antigo de pra-lama amassado os levar a todos para a estncia. Para a estncia!
A voz da tia Zina corta o fio dos pensamentos de Clarissa.
- V estudar, menina, os exames esto na porta! Instintivamente Clarissa olha para a porta. Quem est na
porta no so os exames. Mas sim o seu Licurgo, o professor de Belinha.
- Entre, professor!
Na casa rica todas as janelas esto fechadas. A famlia foi para uma praia de banhos. No jardim j no se ouve mais a
algazarra dos guris. Nem nas janelas verdes aparece a figura bonita do Prncipe Sapo.
Todas as tardes depois do banho -vestido novo, cabelo cuidadosamente dividido ao meio por um risco traado com capricho- Clarissa vai para o jardim olhar as janelas verdes.
Quem sabe? Acontece tanto milagre... Duma hora para outra se podem abrir as venezianas, deixando aparecer uma cabea dourada ...
- Senhores, vamos abrir as janelas. Este ambiente est irrespirvel!
Para onde teria ido o prncipe encantado? Clarissa suspira.
Na escola, sempre o mesmo quadro cansativo.
Um mar agitado de cabeas que nunca se aquietam. Cochichos. Cicios. Na parede, os mapas. A Itlia, como uma bota cor de coral, aplicando um pontap na Siclia. Que gigante enorme  a Rssia! Em outro quadro h um esqueleto em tamanho natural: esto discriminados todos os ossos do corpo humano. Clarissa s vezes sonha com a caveira.
Nos recreios a algazarra  ensurdecedora. Clarissa entra nos jogos. Canta, grita e corre, quando est contente. Mas logo cansa, vai para um canto e fica pensando, pensando...
Que vida levaro as outras meninas que se divertem no ptio? Todas tero pais? Sero ricas? Tero namorados? Morar alguma em penso, como ela? E se a gente pudesse adivinhar o que as outras pessoas esto pensando - como seria bom! Pelo menos seria possvel saber com antecedncia o ponto que a professora ia escolher para exame ...
Depois do recreio: aula novamente.
As meninas entram com o rosto afogueado, ofegantes e ainda mais desinquietas.
A professora bate com a rgua na mesa:
- No bastou o recreio, insubordinadas? Quando a algazarra cessa, a lio recomea.
A batalha dos montes Guararapes. Calabar. O estreito de Gibraltar. O corpo humano. A famlia das umbelferas. Regra de trs composta.
No quadro negro a professora risca os dados dum problema. O calor sufoca.
E l fora -o rio brilhando ao sol, cheio de velas, azul como o cu, com cerros verdes nas margens. O rio, fresco, sem ondas, sem algarismos, sem obrigao de estudar. Livre!
Depois: a rua.
Homens passam suados, de pele reluzente. Os automveis deslizam sobre o calamento, cheios de faiscaes. Rumores. Buzinas. E sobre todas as coisas - o sol.
A sombra de Clarissa dana na calada.
O suor lhe prola o rosto. Ela vai caminhando, ansiosa por chegar a casa, ansiosa pela ducha ffia do chuveiro, pela sombra do quarto, pela cama.
Vai contando nos dedos:
- Faltam cinco dias para o exame. Dez para a viagem. Doze para beijar a mame e o papai!
 hora do jantar todos mostram um rosto cansado.
O Tio Couto queixa-se da falta de dinheiro e do calor.
- Se eu fosse rico, a esta hora estava gozando a brisa do mar, no Cassino ...
Tia Zina suspira. E o major:
-'Qual! O mar no  l para que se diga. Prefiro a serra. O silncio recai.
Seu Amaro continua mais quieto e indiferente que nunca. A gua gelada embacia os copos. Vem de fora uma aragem morna, misturada com o cricri dos grilos.
- Vamos ter uma noite bonita de lua ...- diz o velho Pombo.
E de novo se faz um silncio pesado e opressivo. Tio Couto torna a suspirar:
- Se eu fosse rico ... Belinha tambm suspira:
- Nem este - pensa, olhando para Amaro - nem o outro... Que gente mole, meu Deus!
Tia Zina olha desolada pra as mesas vazias de Zez e do judeu.
Gamaliel se ergue, risonho. Vai a uma festa da Liga Epworth.
Sem sono, Clarissa debrua-se  janela. A noite est clara. Refrescou, Uma Lua enorme, cheia, muito clara. Os quintais esto raiados de sombra e de luz. Parece que o disco da Lua
se enredou entre a ramagem folhuda do pltano grande do quintal da casa onde D. Tat morava.
O relgio, na sala, bate onze horas.
Cabea encostada na vidraa, Clarissa pensa...
Como o tempo passou... Parece que o ano comeou ontem. Entretanto, quanta coisa aconteceu! Sempre desejou voltar para casa. Mas agora que o dia da partida se aproxima, ela sente algo de esquisito no peito, uma espcie de saudade antecipada. Vai sentir falta de tudo isto, de todos estes aspectos, de todas essas caras, de todos estes rudos. Vai se lembrar sempre do papagaio que sabe dizer o seu nome, do gato que lhe roa preguiosamente pelas pernas, da si Andresa que vive na cozinha como uma gata borralheira. Sentir falta de tia Zina, do Tio Couto, de Amaro. E quem sabe se tambm de Ondina e Nestor: a vida  to engraada... Nunca mais lhe sair da memria a risada contente do major...
Fora, o luar cresce, branco, tnue, inundando a paisagem.
Clarissa infla as narinas. Parece-lhe que o luar tem um perfume todo especial. Se ela pudesse pegar o luar, fech-lo na palma da mo, guard-lo numa caixinha ou no fundo duma gaveta para solt-lo nas noites escuras ... Como  bonito o luar! Parece que as rvores esto borrifadas de leite. Longe, na encosta dos morros, piscam luzes, como vaga-lumes aprisionados. O rio est cheio duma fosforescncia argentina.
Que perfume doce  este que o vento traz. Vem do campo? Vem do mar? Vem da ptria do Pirolito ou vem do seu rinco?
Agora ali contra o muro caiado est um vulto indeciso.
- Por que choras, minha menina?
- Minha bolinha de ouro caiu na gua e a correnteza a levou.
Mas quem est ali contra o muro no  o sapo.  o prncipe louro.
- Vamos abrir as janelas, senhores! Este ambiente est irrespirvel.
Sorri. Seus cabelos louros fulgem ao luar. Ouro e prata misturados.
- Princesa, a minha carruagem de ouro est  tua espera. Sim? A carruagem, levando o casal feliz, vai por estas
estradas enluaradas puxada por cavalos brancos e negros. Cavalos brancos parece que vieram da lua. Os cavalos negros
so filhos da noite. No cu as estrelas cochicham segredos, umas para as outras, vendo o prncipe passar com a sua noiva. Nem Cinderela  mais feliz que ela. Nem Branca de Neve.
Mas o vulto se some. E s fica o muro caiado...
Clarissa vai para a cama. Despe-se, deita-se. O lenol fresco d-lhe ao corpo uma sensao boa.
Pela janela aberta, a luz da lua penetra no quarto.
Olhos voltados para o tecto, Clarissa sonha...
E quando a menina viu que o sapo queria dormir na cama dela, pegou-o por uma perna e jogou-o contra a parede. Vai,-, ento, o sapo se transforma num belo prncipe ...
E o Dr. Maia est ali de novo, junto da cama.
Inclina-se de leve, lbios estendidos. Os lbios de Clarissa se estendem tambm. A boca do prncipe tem um perfume de noite, uma frescura de luar. A impresso do beijo  to perfeita que Clarissa sente o sangue subir-lhe s faces.
No entanto ela vai partir... E se no voltar mais, nunca mais? No tornar a ver esta gente, as pessoas desta casa, o prncipe encantado...
Uma bola sobe-lhe  garganta. Vontade de chorar.
E as lgrimas lhe escorrem pelo rosto, quentes, e pingam no travesseiro.
30
Ajoelhada na frente da mala aberta, Clarissa vai empilhando dentro dela as suas coisas com um cuidado cheio de ternura. O vestido novo vai bem em cima, para no ficar amassado. No fundo podem ir as meias, os lenis, as fronhas e algumas bugigangas sem importncia.
Evola-se da mala um perfume doce, misturado com i cheiro activo da naftalina. No fundo rastejam traas. Clarissa as afugenta com um caderno dobrado em forma de cartucho.
L fora a manh vai alta. Por trs das nuvens cinzentas se adivinha o Sol. Ar parado. Mormao.
Na penso h um silncio muito grande. Parece que a vida parou. Nem o rumor das vozes familiares a que o ouvido est habituado. Nem os passos de l do Micefufe. Nem os gritos do papagaio. Silncio. Um silncio hmido, quente e opressivo como o ar da manh.
Com uma pilha de roupa branca sobre as coxas, Clarissa fica imvel por um instante, pensando.
Finalmente chegou o dia da viagem. Mas por que ser que ela no est alegre? Por que no sai a correr pela casa toda, pulando, cantando, danando? Por que esta sensao esquisita no peito, esta vontade de chorar, de ficar parada, parada, pensando em tudo que passou, em tudo que vai ainda acontecer? Amanh ela poder abraar os pais, ver a casa onde nasceu, a cidade onde se criou, as amigas. Mais tarde ainda, estar na estncia. E poder acariciar de novo o plo sedoso da Mimosa, a sua vaca de estimao. Poder ir tomar banho no lajeado, ficar estendida debaixo das cascatinhas de espumas brancas ... Ver os porquinhos sujos e gorduchos que passam no quintal, roncando. Apanhar frutas no mato...
Clarissa sabe que em breve poder fazer tudo isso.
No entanto est triste. Porqu?
Suspira, recomeando a arrumar a mala.
O relgio grande d duas badaladas. Ouvem-se passos na sala de jantar. Depois, a voz de D. Zina:
- Belmira, vai acordar o Couto! So duas horas!
Tio Couto est sesteando - tirando uma torinha, porque a viagem vai ser brada e no trem dificilmente eu durmo.
Outra vez na cabea de Clarissa as recordaes se amontoam. Os exames... Horas de angstia, rostos plidos, olhos fulgurantes. Em cima da mesa da professora, um vaso com flores. Na hora do exame oral de aritmtica, diante da pedra, ela tremia, suava frio. Seu rosto devia estar da cor do giz que lhe danava entre os dedos. A voz grossa do examinador: Se vinte operrios trabalhando oito horas por dia... Quando o homem acabou de falar, ela ergueu o brao a custo e foi riscando  toa, como num pesadelo. No exame de histria tudo foi fcil... Teve de falar de D. Pedro I. Se  para o bem de todos e felicidade geral da nao, diga ao povo que fico. Tudo bem decoradinho, graas a Deus. Na geometria: achar a rea dum tringulo, a coisa mais fcil do mundo. A professora compareceu de vestido novo e ficou muito orgulhosa porque s houve duas reprovaes em toda a aula.
No dia do ltimo exame a classe cantou o Hino Nacional.
Ouviram do Ipiranga as margens plaaacidas ...
E ela, como tinha sido aprovada, berrou, com toda a fora de seus pulmes:
De um povo herico o brado retumbante!
Sim, ela cantava retumbantemente. Papai e mame ficariam orgulhosos de seu exame: o ano no fora perdido. Minha filha est se instruindo-dizia sempre o papai para os amigos e conhecidos.
E o sol da liberdade em raios fuuulgidos!
As meninas gritavam. O hino saa desafinado, mas era por causa do contentamento geral. O sol da liberdade! O sol
l da estncia, na Uberdade do campo! Em raios flgidos? Talvez. Ela no sabe o que quer dizer flgidos. Mas o sol l do pago deve ter raios flgidos, porque flgido decerto quer dizer alguma coisa bonita.
Brilhou no cu da ptria nesse instante/
Os olhos da professora brilhavam de contentamento. Ela estava perfilada como um soldado e abria muito a boca para. cantar.
Quando chegaram no  Ptria amada, idolatrada, salve, salve! a professora se adiantou demais, e sua voz esganiada se elevou sobre as outras. O inspector enviesou os olhos para ela e sorriu amarelo.
Como Clarissa se lembra de tudo, como lhe ficaram ntidos na memria todos os pormenores daquele ltimo dia de axame! Quando terminaram de cantar o Hino Nacional, o inspector ficou entusiasmado com o ardor patritico das alunas e pediu-lhes que cantassem o Hino da Repblica. Houve um zunzum de descontentamento na sala: as meninas estavam doidas para sair, para correr para casa. Mas a professora bateu com a rgua na mesa e exigiu silncio.
- Cantemos o Hino da Repblica!
E, batendo palmas, puxou:
Seja um plio ...
A classe acompanhou:
de luz desdobrado, sobre a larga amplido destes cus, este canto revel que o passado vem. remir dos mais torpes labus...
Clarissa cantara o hino durante todo o ano. Mas no entendia patavina da letra: cantava como um papagaio. Achava que aquilo tudo devia ser muito bonito, muito verdadeiro... mas ho compreendia nada...
No estribilho a professora ao cantar: Liberdade! - esticava o pescoo, levantava a cabea para o alto e fazia uma cara de quem estava gritando: Socorro! Socorro!
17Q
Ao recordar todas estas coisas, Clarissa sorri. Agora j comeam os rudos na casa. Tia Zina enfia a cabea na porta do quarto:
- J aprontou a mala, minha filha?
- Inda no, titia!
- Que coisa horrorosa! Eu bem te disse que arrumasses ontem. Olha que o trem no espera...
Tia Zina sempre repreendendo, sempre fiscalizando. Nem no dia da despedida ela perdoa.
Clarissa despede-se.
Vai ao quintal. Nos pessegueiros j h frutos maduros. As galinhas bicam sossegadamente o cho moreno, onde as suas sombras se desenham, pronunciadas.
Clarissa olha em torno ... Tudo isto ela viu todos os dias, durante quase um ano inteiro. ,Habituou-se a estes aspectos. Aqui debaixo destes pessegueiros pelas manhs ela andava a correr, enquanto no chegava a hora do colgio. Do outro lado do muro Tnico passava toda a tarde, no Inverno e no princpio da Primavera, a tomar sol. Todas as manhs l no alto passava um avio. De tarde tambm outro avio aparecia, voando baixo, roncando forte, assustando as pombas que estavam pousadas nos telhados.
No alpendre, diante do poleiro do papagaio. Clarissa se detm. O Mandarim ginga, dum lado para outro, mergulha o bico na plumagem verde. Os seus olhinhos foscos so duas contas minsculas, imveis.
Clarissa pensa:
Adeus, Mandarim. Eu no vou me esquecer de voc.
O papagaio sacode as penas. Clarissa sente um calor que lhe sobe no peito. Suas faces se afogueiam.
Vontade de chorar. Respirao difcil.
Desce ao jardim. As papoulas parecem mais vermelhas ao sol. Ali sobre aquele canteiro de relva brincaram os guris do outro jardim. Mas no voltaram mais... No tinham licena. Quando queriam vir, aquela criada magra e tesa, de cara carrancuda, surgia para atrapalhar tudo... s vezes, de tarde-zinha, l do outro lado, Ana Maria estendia os braos e mexia com os dedos minsculos num convite e gritava:
- Clarissa, vem brinca com a gente!
E ela, triste, fazia que no com a rabeca. No podia ir. O jardim da casa contgua era como o jardim do gigante da histria: os estranhos no podiam entrar...
E bem ali na janela que abre sobre esse jardim encantado, o Prncipe Sapo vinha se debruar todas as tardes. A fumaa do seu cigarro subia para o cu, envolvia-lhe o rosto e se dilua no ar ... Mas ele nem sequer urna vez olhou para ela. Nunca. Clarissa vestia sempre os seus vestidos mais bonitos, e ficava esperando, sentada ali no banco, debaixo do pltano... Ele surgia  janela, fumava, olhava vagamente para todos os lados e depois desaparecia ... At que um dia a casa se fechou misteriosamente.
Sou infeliz - pensa Clarissa. - Ningum gosta de mini. No tenho amigos. No tenho n-ada...
Derrama em torno um olhar longo de ternura.  janela da sala assoma a cabea da tia.
- Venha pr caf, Clarissa!
Tio Couto sorve o seu caf em goles ruidosos e compridos.
- Zina, no te esqueas do guarda-p! Clarissa senta-se  mesa.
O major entra na sala. Belinha e a me tambm.
Conversas. Clarissa, absorta, mal ouve o que a seu redor se diz. Ela vai partir, deixar esta casa... Pirolito, no seu aqurio luminoso. Estas mesas, com suas toalhas claras que o vento sacode. O relgio grande, cor de castanha, pndulo dourado, que oscila de l pra c; o relgio ronceiro que marcava as horas de estudo; antigamente parecia que os ponteiros se arrastavam devagar; agora que est quase na hora da partida, esses mesmos ponteiros correm ... Na parede, os quadros: o que representa uma cesta de frutas; o da ceia do Senhor: Cristo, de olhar meigo, mostra a mesa e parece que est dizendo: S temos isto, vejam. Os estores das janelas, de pano pardo, onde h um bordado feito  mo: uma menina tocando patos com uma varinha.
E tudo isto vai ficar. Todos estes objectos, toda esta gente ...
O major e o Tio Couto conversam animadamente.
- Olha, Couto, quem sabe se voc arranja algum trabalho ! com o seu cunhado ...
Tio Couto fica silencioso e srio por um instante. Depois:
- Homem! Voc teve uma ideia luminosa. Vou tentar alguma coisa com o Joo de Deus. Homem, quem sabe?
Tia Zina, que vai passando com uma cesta de fiambres, pra um instante e faz uma cara de pouco caso:
- Duvido ...
- Ora, Zina! Voc est agourando! A esperana  a ltima coisa que morre.
Tio Couto gesticula e fala. Diz que ningum pode duvidar da sua vontade de trabalhar. Trabalhou toda a vida. Mas que vai fazer agora que nt> lhe do emprego? Outros ficam por a a vida inteira vivendo parasitriamente  custa do prximo. Ele no  dessa classe. Ora, Zina! Ora! Ora!
- No acha, major? O major sorri.
- Titia, que bom se eu pudesse levar o Pirolito! - diz Clarissa.
D. Zina, cara franzida:
- No inventa modas... J chega a bagagem que vai. No inventa... Pirolito fica aqui. '
- E se o Micefufe come ele?
- No come.
- Se ele morre de fome?
- No morre. Eu me encarrego de dar comida... Clarissa de sbito pensa em Amaro. As palavras dele lhe
acodem  memria:
- Eu ia pela rua e dei com esse aqurio numa vitrina. No sei por que logo tive a ideia ...
Parece que Amaro est ali na sua frente, na mesa, olhos baixos, quieto, alheio a tudo. Agora ele ficar tambm, com o seu mistrio e com as suas musiquinhas.
- Ento, minha pequena, est triste porque vai nos deixar? Ao perguntar isto, o major sorri. Clarissa sacode a cabea
afirmativamente.
- Qual! Voc vai e logo esquece-continua o velho. -  moa. A saudade  para os que ficam ... e principalmente para os velhos que no tm mais nada que esperar da vida.
Tio Couto lana um protesto:
- Ora, major, deixe isso, o senhor est ainda no cerne. O major segue falando:
- Eu sei... Voc, Clarissa, logo encontra um moceto bonito l pelos seus pagos. Vai da comeam de namoro, o rapaz ronda sua casa, chega  janela, e um belo dia entra. Depois vem o noivado e por fim o casamento: doces, champanha, peru e uma noivinha bonita.
Clarissa agora sorri. Desenha-se-lhe na mente este quadro: ela vestida de noiva, toda de branco, grinalda na cabea, um ramalhete de lrios nos braos.  na Matriz de Jacarecanga. O povo se apinha para ver a filha do seu Joo de Deus que vai casar, O vigrio, o Padre Fritz, vem muito vermelho e cheirando a vinho. L em cima, no coro, o Prof. Justino toca no rgo uma marcha nupcial. Chega o noivo. Todo de preto, de casaca, como os noivos que aparecem nas fitas de cinema. Vem se aproximando do altar. Agora, mais pertinho, Clarissa lhe v as feies.  ele! O Prncipe Sapo.
- Senhores, vamos abrir estas janelas. O ambiente est irrespirvel.
O rgo canta. O padre ergue a mo.
Mas a viso se some e Clarissa agora s enxerga na sua frente o aqurio do Pirolito. E o peixinho colorido lhe evoca a imagem de um homem triste e silencioso.
L fora o auto buzina repetidamente.
- Ande, minha gente, est na hora!
Tia Zina, suada e vermelha, corre dum lado para outro, ajuda Belmira a levar a bagagem para o carro.
Olhos cheios de lgrimas, mal podendo balbuciar um adeus tremido, Clarissa se despede do major, de D. Glria, de Belmha, de Belmira. Todos os rostos lhe aparecem apagados e vagos como se estivessem dentro dum aqurio de gua turva.
No jardim, Clarissa abraa a tia. Um abrao longo, longo, apertado. D. Zina chora, baixinho.
- Deus te guie, minha filha. Seja muito feliz. Diga pra mame que estou esperando as mudinhas de flor que ela me prometeu. No metas a cabea na janela quando o trem estiver caminhando. Beijos pra todos l em casa.
Clarissa, comovida, no consegue dizer uma palavra. No automvel o Tio Couto despede-se da esposa: d-lhe um abrao desajeitado e um beijo chocho,
- Adeus, mulher!
- At a volta, meu velho. Cuida bem da menina! O auto arranca. O Tio Couto grita para o major:
- Estou com palpite que arranjo emprego! Palavra!
E tia Zina, lgrimas a esrorrer-lhe pelo rosto, mos no ar num aceno de despedida:
- Clarissa -grita -, no metas a cabea pra fora quando o trem estiver caminhando...
O auto rola. Tio Couto acende um cigarro.
Clarissa vai como num sonho... Que ir acontecer agora? Tudo mudou: ela j no  mais a menina de antes. Em casa ter um quarto separado, como moa que . Os rapazes conhecidos da vila, os rapazes que o ano passado passavam por ela sem lhe dar ateno, agora vo ficar abismados quando a virem chegar assim, de sapatos de salto alto, crescida, quase mulher... Primo Vasco vai ficar admirado.
Tio Couto decerto leva na cabea algum pensamento alegre, porque vai sorrindo em silncio.
O auto entra noutra rua onde o movimento  intenso. Os transeuntes passam pelas caladas, atravessam o passeio, se comprimem, numa confuso. Grasnam buzinas. Trilam apitos. Agora o carro envereda por uma avenida larga e livre, onde pode rorrer desembaraadamente.
Que ser de mim? - pensa Clarissa.-Quando ser que vou ter uma pessoa amiga, muito minha amiga para quem eu possa contar tudo o que sinto, tudo o que pensoi todos os segredos? Quando? Quando?
Olha em torno. Silncio. As vidraas fuzilam ao sol. As nuvens se desfazem no cu.
Quando? Quando? Quando?
Mas ningum lhe responde. Silncio ainda: e dentro do silncio o rudo mole e abafado dos pneumticos rolando no cho cimentado.
Casas, rvores, veculos, transeuntes, postes - tudo passa. Clarissa lembra-se duma fita que viu certa vez: uma locomotiva correndo a toda a velocidade: os trilhos luziam, a paisagem girava, dando tonturas na gente.
O auto roda, roda... O vento fustiga o rosto de Clarissa, agita-lhe os cabelos. Adeus! Adeus!
Tio Couto sorri ainda. No espelhinho que h em cima do pra-brisa, aparecem os olhos escuros do chofer.
Assim corria a carruagem do Prncipe Sapo, puxada pelos cavalos brancos que vieram da lua, pelos cavalos negros que nasceram da noite... Adeus!
Clarissa imagina-se a noiva do Prncipe Sapo. Ela o sente a seu lado, muito claro, muito louro. Ouve-lhe at a voz macia, macia... Adeus!
- Princesa querida, diz-me para onde queres ir? Clarissa fecha os olhos, inebriada:
- Prncipe, me leve para a vida, eu quero conhecer a vida, prncipe, quero conhecer todos os mistrios das pessoas e das coisas...
O auto d um solavanco. Clarissa desperta: a imagem bonita foge.
A seu lado o Tio Couto pita em silncio. Adeus! Adeus!
31
Quando Amaro entra na varanda, o silncio o envolve.
Ar parado. Imobilidade completa.
Na sombra do corredor fuzilam por um instante os olhos vtreos de Micefufe: a silhueta indecisa do gato se recorta durante alguns segundos contra o fundo escuro e depois mergulha de novo na sombra.
No aqurio quieto o peixinho colorido dorme.
Amaro olha em torno. Ningum.
Mas ele vai sentindo aos poucos uma presena invisvel. Ali junto do aqurio uma menina morena sorri, olhos muito arregalados, movendo os lbios de mansinho. Sua voz  um sussurro; parece que tem medo de magoar o silncio.
- Muito obrigada pelo peixinho ,..
A viso acorda em Amaro um desejo inopinado e estranho. Cauteloso como um ladro, ele se aproxima do quarto de Clarissa. A porta est entreaberta. L dentro da penumbra suave brilha a cama esmaltada de branco onde o travesseiro guarda ainda a forma duma cabea. Na parede reluz a imagem de Santa Teresinha. O espelho, com seu reflexo branco e frio, parece um fantasma  espreita ... No meio do quarto, outra vez o vulto indeciso:
- Muito obrigada pelo peixinho ...
A escada range.
Amaro sente um sobressalto. Ergue os olhos: ningum. Olha em torno: ningum.
Outra vez o silncio.
Amaro enxuga com o leno o suor que lhe roreja a testa.
Sede.
Em cima do mrmore da cristaleira est a moringa de gua. Amaro se aproxima do mvel, tira a tampa da moringa e despeja gua num copo. Bebe. E no fundo do copo outra vez aparece o rostinho contente:
- Muito obrigada pelo peixinho ...
Amaro depe o copo em cima do mrmore. E os seus olhos agora fitam o espelho da cristaleira que reflecte a cara dum homem triste. Dois olhos cinzentos, parados, mortos. Lbios sem cor, finos, midos, quase invisveis no rosto de cera onde a barba principia a azular. E por causa dessa cabeleira abundante e descuidada, um dia, o contador do banco, zangado diante 'dum erro de balancete, chamou-lhe com desprezo:
- Poeta!
Poeta, sim. Antes no fosse. Preferia ser opaco, espesso e insensvel  beleza e ao sonho. Preferia ter a obesidade feliz e risonha do Barata: passar a vida rindo um riso cheio de optimismo e de dentes de ouro, contando anedotas para se divertir e divertir os outros ... Palhao!
- E o palhao que ?
- Ladro de mui!
Montado no burro peludo, o palhao sorri, convencido da sua glria, senhor de toda a vila onde o circo armou o barraco.
- Poeta ...
Era melhor que fosse clown. Era melhor no ter esta imaginao incmoda que faz que ele -Amaro- veja, enxergue com nitidez assustadora ali no espelho, ao lado de seu rosto sem brilho, o rosto vivo e fresco duma menina que murmura:
- Muito obrigada pelo peixinho.
Amaro se volta, brusco, para fugir  viso.
- Ainda bem que ningum sabe ... - reflecte. Caminha para a escada, na ponta dos ps.
A quietude continua.
Mas de repente uma voz estrdula arranha a face do silncio:
- Clarissa!
J no segundo degrau, Amaro estaca, como que ferido de morte. Volta a cabea, vermelho, e perturbado, e com a dolorosa impresso de que lhe descobriram o grande segredo.
No poleiro de alumnio, o papagaio sacode a plumagem verde.

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CLARISSA
CAMINHOS CRUZADOS
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OLHAI OS LRIOS DO CAMPO
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O ARQUIPLAGO (2 TOMOS)
NOITE
GATO PRETO EM CAMPO DE NEVE
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A VOLTA DO GATO PRETO
A VIDA DE JOANA D'ARC
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ISRAEL EM ABRIL
